A íris castanha se transformava num sol fim de tarde explodindo de cor.
A pupila dilatava e nós ríamos.
As cobertas caíam, o colchão se esbugalhava no chão pela nossa tara... E nós ríamos.
Eu me escondia dentro do armário enquanto você tocava um teclado entre meus risos abafados.
Ia teclando o que suas mãos mandavam, teclava o que eu conseguia causar dentro de você. Confesso, em modéstia parte, estar sendo uma melodia agradável.
Nos olhávamos pelas vidraças embaçadas aonde só conseguíamos ver suas mãos ao meu redor e também nossos cabelos esvoaçados.
As mãos nem se tocavam. Nós não nos tocávamos, íamos encostando uma pele na outra no mais superficial possível porque gostávamos de causar arrepios. Era tudo tão puro pra mim.
Nós éramos sempre um final de tarde ou um nascer de sol.
Éramos sempre um afogar no que não sabíamos.
O não tocar no chão voando em si mesmo.
Nunca éramos o começo ou o final das coisas, e sim o meio em que se aproveita até o último pedaço. Por falar em pedaço, posso escrever que éramos o recheio doce que se guarda pro final.
Nós éramos como essas pinturas com muitas cores jogadas na tela. Éramos a emoção do pintor, as tintas, o que cada um sentiu quando viu a obra.
A textura, o relevo, o gosto, os cheiros... As sensações.
Os três pontos, as vírgulas.
Nós éramos os gritos não dados e os dados também, éramos dor e amor.
Suspiros e o arder da pele.
Éramos o ápice de cada emoção, mas por vezes éramos o fundo do poço delas.
Posso dizer que éramos o sentimento do mundo, nós vivemos.
Não sei bem explicar o que sentíamos, mas afirmo que toda vez que andar pelas ruas e sentir algo pleno de bambear as pernas, direi que éramos nós.
Enquanto eu sentir o ar dançar pelo meu rosto, os agudos graves que me embalam... Eu direi que se tratava do que nós éramos.
Nós éramos tudo e ninguém sabia quem nós éramos, nem nós mesmas.
sábado, 15 de dezembro de 2012
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Uma constelação interna.
Se me lembro bem o dia estava ensolarado, o café foi fresco, passei o mesmo creme corporal e ouvi a mesma música tomando banho.
O dia sorria. O verde agora se misturava com as cores vivas das flores.
Percebi rostos, cheiros, vozes novas... E aquilo me excitava.
Tudo corria muito bem até aquela tarde que não decorei o número. Não sou muito certa com números hoje em dia, não recordo qual dia da semana ou o mês, eu lembro o que senti. Decoro as datas pelo sentimento que obtive por cada ação. Mas confesso que queria me lembrar e até anotaria esse dia, do lado escreveria "O dia em que as estrelas da sua bolsa pularam todas para minha barriga".
Nesse dia risonho, sendo objetiva, o que borbulhou dentro de mim foram todas as palavras mais bonitas que eu já achei pra descrever minhas intimidades. Todas de uma só vez.
Olhando agora de longe, me via como alguém limpa e disposta. Um tanto ingênua, mas isso não foi embora até hoje.
Pois bem... Lá está você. Creio que só pelo meu olhar naquela hora, você já saberia que eu seria sempre sua.
Nos tornando "nós", porque dentro de mim você já estava.
O dia sorria. O verde agora se misturava com as cores vivas das flores.
Percebi rostos, cheiros, vozes novas... E aquilo me excitava.
Tudo corria muito bem até aquela tarde que não decorei o número. Não sou muito certa com números hoje em dia, não recordo qual dia da semana ou o mês, eu lembro o que senti. Decoro as datas pelo sentimento que obtive por cada ação. Mas confesso que queria me lembrar e até anotaria esse dia, do lado escreveria "O dia em que as estrelas da sua bolsa pularam todas para minha barriga".
Nesse dia risonho, sendo objetiva, o que borbulhou dentro de mim foram todas as palavras mais bonitas que eu já achei pra descrever minhas intimidades. Todas de uma só vez.
Olhando agora de longe, me via como alguém limpa e disposta. Um tanto ingênua, mas isso não foi embora até hoje.
Pois bem... Lá está você. Creio que só pelo meu olhar naquela hora, você já saberia que eu seria sempre sua.
Nos tornando "nós", porque dentro de mim você já estava.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Ainda há tempo, amor.
Eu sinto falta de sangrar os demônios que em mim viveram. De comer com a gula, apostar por prazer. Deitar no parapeito da janela com o ar tocando meu corpo.
Atravesso montanhas durante minha vida, e a cada segundo me vejo as deslizando pelo lado oposto do que eu procurava. Meu sentir muda, e como uma constante, meus deslizes também. Assim, desço no que desejo agora.
O caminho que sigo me trai, mas aquela tal de adrenalina se desperta, fazendo eu me apaixonar pelo errado. Me apaixonar pela traição do meu próprio destino. É assim que me sinto viva. Apostando, sentindo o traiçoeiro. Me virando às avessas procurando o que há de mais pleno e verdadeiro em mim... Sou toda. Nada. Muitas (sem nenhum "e" puxando uma nova palavra, pois prefiro os pontos, eles sim acompanham minhas inúmeras formas inajustadas e constantes).
Rasgo minha pele desvendando todos os lados de mim.
Mas agora, me diz, pra onde foi tudo isso? Aonde os desbravadores se escondem, pra eu enfim conseguir um pouco de vida? Um pouco de ar? Alguém, por misericórdia, me dê um trocado de luz.
Você parece ter levado tudo...
Gosto de sangrar o que tenho, dar a alma, me colocar toda. Pois, e agora? E agora que eu não sinto? Isso faz parte também? O não sentir é um sentimento? Porquê deixo avisado de antemão que não choro mais. Nem me esgoelo. Muito menos imploro e insisto.
Eu toco no que vem. Mas antes, confesso, eu agarrava o que vinha. Com mãos, pés, coração, cabelos... Agora toco. Só toco. Tocar. É tão pequeno.
Me falta a coragem de querer sofrer, o vômito que é dado em cada recaída. Eu só não sabia que isso se transformava em outra dor, que é o não sentir. Vou chamar de "inércia", porque acho o não se permitir a qualquer coisa, inerte. O aqui e o outro lá. Sem nem o meu pequeno "toque". Num vácuo total, nem o ar entra.
Minha dor foi sentida até aonde eu consegui, e quando me libertei fiquei tão maravilhada em como o ar era mais limpo que eu não poderia me permitir.
Meu sangrar é tão intenso, mas o mundo é tão pequeno.
Fechei meus olhos pro meu sentir. Tampei a única luz que me fazia ser.
Agora, espero à todo custo, escrever a inércia. Descrever com detalhes minha não sinceridade e enganação. Meu discurso chulo.
O impacto das atrocidades não me assustam mais, nisso o inerte me é favorável. Mas não me faça perder a fé na humanidade, não me faz ser só mais uma amarga descrente por aí. Não preciso mais de águas rasas, eu preciso de um tsunami dentro de mim. Um temporal que lave toda essa sujeira - mas que não te leve pelo vai e vem das ondas.
Atravesso montanhas durante minha vida, e a cada segundo me vejo as deslizando pelo lado oposto do que eu procurava. Meu sentir muda, e como uma constante, meus deslizes também. Assim, desço no que desejo agora.
O caminho que sigo me trai, mas aquela tal de adrenalina se desperta, fazendo eu me apaixonar pelo errado. Me apaixonar pela traição do meu próprio destino. É assim que me sinto viva. Apostando, sentindo o traiçoeiro. Me virando às avessas procurando o que há de mais pleno e verdadeiro em mim... Sou toda. Nada. Muitas (sem nenhum "e" puxando uma nova palavra, pois prefiro os pontos, eles sim acompanham minhas inúmeras formas inajustadas e constantes).
Rasgo minha pele desvendando todos os lados de mim.
Mas agora, me diz, pra onde foi tudo isso? Aonde os desbravadores se escondem, pra eu enfim conseguir um pouco de vida? Um pouco de ar? Alguém, por misericórdia, me dê um trocado de luz.
Você parece ter levado tudo...
Gosto de sangrar o que tenho, dar a alma, me colocar toda. Pois, e agora? E agora que eu não sinto? Isso faz parte também? O não sentir é um sentimento? Porquê deixo avisado de antemão que não choro mais. Nem me esgoelo. Muito menos imploro e insisto.
Eu toco no que vem. Mas antes, confesso, eu agarrava o que vinha. Com mãos, pés, coração, cabelos... Agora toco. Só toco. Tocar. É tão pequeno.
Me falta a coragem de querer sofrer, o vômito que é dado em cada recaída. Eu só não sabia que isso se transformava em outra dor, que é o não sentir. Vou chamar de "inércia", porque acho o não se permitir a qualquer coisa, inerte. O aqui e o outro lá. Sem nem o meu pequeno "toque". Num vácuo total, nem o ar entra.
Minha dor foi sentida até aonde eu consegui, e quando me libertei fiquei tão maravilhada em como o ar era mais limpo que eu não poderia me permitir.
Meu sangrar é tão intenso, mas o mundo é tão pequeno.
Fechei meus olhos pro meu sentir. Tampei a única luz que me fazia ser.
Agora, espero à todo custo, escrever a inércia. Descrever com detalhes minha não sinceridade e enganação. Meu discurso chulo.
O impacto das atrocidades não me assustam mais, nisso o inerte me é favorável. Mas não me faça perder a fé na humanidade, não me faz ser só mais uma amarga descrente por aí. Não preciso mais de águas rasas, eu preciso de um tsunami dentro de mim. Um temporal que lave toda essa sujeira - mas que não te leve pelo vai e vem das ondas.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Uma análise de trem
O barulho constante, urbano e agudo do trem se juntava com as janelas pretas, mostrando pequenas luzes brancas rapidamente que iluminavam o túnel. Enquanto isso, um casal apaixonado trocava carícias ocupando dois bancos preferenciais com mãos aqui e ali. Um homem apoiava os pés em uma caixa com bananas, descobrindo o conforto para tirar um cochilo de braços cruzados. As línguas afiadas do casal se conheciam cada vez mais. E tudo o que passava pelos olhos de quem isso escreve era uma paisagem. Seus olhos atentos sentiam cada olhar, mas sabiam que os observados só buscavam sua própria felicidade e realização, nada além disso. Nada além dos seus umbigos.
Cada um no seu, sem tocar ou procurar o toque do outro.
O casal se desfez e a moça saiu cantarolando do trem, o homem das bananas agora fixou seu olhar em um ponto e ficou imerso em seus pensamentos. Ou no seu cansaço. Ou nos dois.
Todo esse julgamento só teve início por eu me encontrar perdida no meu cantarolar ao estar em seu contato, e ter mergulhado em mim (esperando uma caixa de bananas) pelos meus sonhos encenarem o que não desejo ver.
Cada um no seu, sem tocar ou procurar o toque do outro.
O casal se desfez e a moça saiu cantarolando do trem, o homem das bananas agora fixou seu olhar em um ponto e ficou imerso em seus pensamentos. Ou no seu cansaço. Ou nos dois.
Todo esse julgamento só teve início por eu me encontrar perdida no meu cantarolar ao estar em seu contato, e ter mergulhado em mim (esperando uma caixa de bananas) pelos meus sonhos encenarem o que não desejo ver.
domingo, 23 de setembro de 2012
Fases do céu
Eu só quero escrever. Meu não encontro me faz escrever.
Eu só quero ver o céu num azul como ele sempre foi.
Eu quero olhar no fundo dos teus olhos e dizer que tudo passou.
Eu quero dizer que águas escorrem de todos meus lados, e embora eu lace meu corpo, ele ainda insiste em você. Minha alma clama.
Eu me quero. Como nunca fui, preciso.
Sei diferenciar entre o azul mais claro e o seu azul.
O exagerado escorre aos meus pés e por isso não sei lidar. O pleno vem e me conquista. O ingênuo, inadequado, sensitivo.
Eu continuo a escrever e o céu já ficou branco, mas ainda penso em nós. Não me importa o desejo, escrevo porque posso. Desejo porque posso. Minha mente está alta porque posso. Sou minha.
Faço de acordo com a vontade, e no outro que me para adiante, já me vê como outra quem percorre. Na constante dos segundos, faço de mim um caleidoscópio, mudando a imagem no olhar e sentindo as mesmas águas. Eu decepciono, não sei cuidar, minhas palavras não são invadidas muitas vezes. Mas com todos esses defeitos sou quem impulsiona, criador de caminhos.
Meu céu se abre e me lembro do seu cheiro.
Não me importa o que já percorre outro percurso para quem consegue aliviar sua tensão somente pelo ar que sai de você. A concha que te cobre durante sua morbidez.
Sou minha, Me sinto.
Não me sinto adequadamente composta a qualquer grupo, eu só sinto.
Sinto a dor que você despreza por medo.
Eu sinto aquele que mais sente.
eu te sinto.
eu sinto.
Minha alma clama por algum lazer, clama por questionar filosofias. Meus dialetos retraem almas confusas com quem costumo me relacionar. Lido com o pouco e com o muito.
E como o pouco me diz. Estando o pouco pra lá de longe ou como déjà vu. Sinto. A alma me ferre. A alma grita. Implora e de nada adianta.
Ah, mas espero a reação e o pouco consegue me mudar. A vida anda e não te espera. As mudanças que fazem a vida valer.
O contato foi acionado e não ligo. A cada muda tenho um jardim à espera.
Sua precaução dedura as mais formas de prazer.
E o céu continua branco. Embora não lembre os dias do meu coração ocupado, me lembro de dias em que dormia tranquila. A chuva conseguia guiar e pouco me importava confortar ou não.
O branco me remete ao seu brando, mas agora, já é tarde, amor.
Agora eu me sinto branda. Nossa carne só anda sentida por fora, no suor dos corpos, porque por dentro o céu despertou o desespero - a forma com que te sentia. Mas espero, que em nenhuma gota meu peito chore pela falta dos teus braços. Meu amor é meu - e só meu.
O quanto ainda tenho que dizer que sou minha?
Meus ouvidos transmitem uma valsa ao te ver, meu interior por dentro faz movimentos lentos.
Meu amor, eu me permito as mudanças da vida em toda dobra de esquina. Mas confesso a mim mesma, deitada no travesseiro que um dia você suou, que a mudança -que cansada espero- pelo teu coração arredio está difícil de acontecer. A cobrança feita por mim rasga. Aquela dor que não sei nomear é o pavor que eu temo sentir novamente. Espero o dia em que não me preocupe com seu riso.
Cresci pro além ao seu lado. Repito que isso foi meu, afim de acreditar. Em meados da tortura da ditadura sufocante, o que se era feito aos que diziam o que sentiam, foi desumano. Muitos desacreditaram em toda uma vida. Outros usaram da psiquê, disseram a mente que nunca teria acontecido o que lhe foi feito. Era um modo de sobreviver.
Esse é o meu modo. Torturo minha mente negando sua existência. Pra Sobreviver.
Amo sua alma, mas por enquanto, digo ser minha.
Eu só quero ver o céu num azul como ele sempre foi.
Eu quero olhar no fundo dos teus olhos e dizer que tudo passou.
Eu quero dizer que águas escorrem de todos meus lados, e embora eu lace meu corpo, ele ainda insiste em você. Minha alma clama.
Eu me quero. Como nunca fui, preciso.
Sei diferenciar entre o azul mais claro e o seu azul.
O exagerado escorre aos meus pés e por isso não sei lidar. O pleno vem e me conquista. O ingênuo, inadequado, sensitivo.
Eu continuo a escrever e o céu já ficou branco, mas ainda penso em nós. Não me importa o desejo, escrevo porque posso. Desejo porque posso. Minha mente está alta porque posso. Sou minha.
Faço de acordo com a vontade, e no outro que me para adiante, já me vê como outra quem percorre. Na constante dos segundos, faço de mim um caleidoscópio, mudando a imagem no olhar e sentindo as mesmas águas. Eu decepciono, não sei cuidar, minhas palavras não são invadidas muitas vezes. Mas com todos esses defeitos sou quem impulsiona, criador de caminhos.
Meu céu se abre e me lembro do seu cheiro.
Não me importa o que já percorre outro percurso para quem consegue aliviar sua tensão somente pelo ar que sai de você. A concha que te cobre durante sua morbidez.
Sou minha, Me sinto.
Não me sinto adequadamente composta a qualquer grupo, eu só sinto.
Sinto a dor que você despreza por medo.
Eu sinto aquele que mais sente.
eu te sinto.
eu sinto.
Minha alma clama por algum lazer, clama por questionar filosofias. Meus dialetos retraem almas confusas com quem costumo me relacionar. Lido com o pouco e com o muito.
E como o pouco me diz. Estando o pouco pra lá de longe ou como déjà vu. Sinto. A alma me ferre. A alma grita. Implora e de nada adianta.
Ah, mas espero a reação e o pouco consegue me mudar. A vida anda e não te espera. As mudanças que fazem a vida valer.
O contato foi acionado e não ligo. A cada muda tenho um jardim à espera.
Sua precaução dedura as mais formas de prazer.
E o céu continua branco. Embora não lembre os dias do meu coração ocupado, me lembro de dias em que dormia tranquila. A chuva conseguia guiar e pouco me importava confortar ou não.
O branco me remete ao seu brando, mas agora, já é tarde, amor.
Agora eu me sinto branda. Nossa carne só anda sentida por fora, no suor dos corpos, porque por dentro o céu despertou o desespero - a forma com que te sentia. Mas espero, que em nenhuma gota meu peito chore pela falta dos teus braços. Meu amor é meu - e só meu.
O quanto ainda tenho que dizer que sou minha?
Meus ouvidos transmitem uma valsa ao te ver, meu interior por dentro faz movimentos lentos.
Meu amor, eu me permito as mudanças da vida em toda dobra de esquina. Mas confesso a mim mesma, deitada no travesseiro que um dia você suou, que a mudança -que cansada espero- pelo teu coração arredio está difícil de acontecer. A cobrança feita por mim rasga. Aquela dor que não sei nomear é o pavor que eu temo sentir novamente. Espero o dia em que não me preocupe com seu riso.
Cresci pro além ao seu lado. Repito que isso foi meu, afim de acreditar. Em meados da tortura da ditadura sufocante, o que se era feito aos que diziam o que sentiam, foi desumano. Muitos desacreditaram em toda uma vida. Outros usaram da psiquê, disseram a mente que nunca teria acontecido o que lhe foi feito. Era um modo de sobreviver.
Esse é o meu modo. Torturo minha mente negando sua existência. Pra Sobreviver.
Amo sua alma, mas por enquanto, digo ser minha.
"Aspas"
Tudo foi acontecendo.
Um dia eu te mostrei todos os livros que eu guardava, aqueles que minha vó me deu incentivando minha leitura, pois não conseguiu fazer o mesmo com meu pai. Eu também te disse que gostava de ouvir músicas suaves antes de dormir porque, quando era pequena, tinha muito medo devido a umas pessoas que me apareciam, a música me acalmava, até hoje eu tenho esse hábito... Mas acordo no meio da noite pra desligar porque as notas agudas despertam meu sono. Eu também te falava muito da minha vó, e de como ela era alguém totalmente admirável pra mim. Você dizia da sua e de como chorou, agarrada a sua mãe e irmã, em uma cama quando ela se foi. Eu te falava como o céu ficava bonito da minha janela. Você me dizia que seu quarto só tinha uma janela pequenina e só via o prédio da frente, por vezes até o vizinho pelado no quarto. Eu ficava incomodada com o suor caindo na minha testa, meu cabelo alto e esvoaçado, achando que estava o total diabo em forma de gente. Aí você me dizia: "Por que logo eu?". Você ria do meu complexo por resfenol. Eu ria quando você falava com uma voz aguda com sua cachorrinha. Você me contava seus casos tão irritada... Enquanto eu olhava o céu todo coberto pelo preto das noites. Você me mostrava seu orgulho e eu te falava sobre como a cor do céu já estava mudando porque conversávamos faziam cinco horas. Eu, com todo meu receio, tentava te mostrar o quanto valia a pena ir atrás de quem se amava, não importando o quão errada a pessoa estaria. Aprendi tal coisa ao me deixar te amar. E você a cada palavra me surpreendia.
Fomos descobrindo manias particulares, como as pessoas fazem umas com as outras. Isso são só detalhes. Ossos do ofício.
Embora fosse prazeroso pra mim descobrir mais de você, eu só me concentrava nos teus olhos miúdos penetrados nas minhas pupilas. Só me restava sorrir as olhando por me sentir tão pura. Tão em contato comigo.
Suas manias ficavam tão pequenas diante disso. E as minhas também.
Não espero procurar por notícias suas pra confortar meu peito, te quero bem. Bem como o que eu sinto por você.
Eu me confortava por ouvir sua respiração. De enrolar meus dedos no seu cabelo.
Agora ficam seus detalhes e minha janela com uma boa vista. Eu fico por dentro ouvindo minhas músicas de chuva, que agora não são mais tão agradáveis de ouvir, devido a me lembrar em como dormia aliviada por ter acabado de ouvir sua voz.
Eu te quero bem. Com tudo o que resta de você em mim, com todas suas notas perfeitas que ecoam nos meus ouvidos e "fazem me apaixonar de novo por você". Te quero bem, pois "é como se eu sempre pudesse te ver".
Um dia eu te mostrei todos os livros que eu guardava, aqueles que minha vó me deu incentivando minha leitura, pois não conseguiu fazer o mesmo com meu pai. Eu também te disse que gostava de ouvir músicas suaves antes de dormir porque, quando era pequena, tinha muito medo devido a umas pessoas que me apareciam, a música me acalmava, até hoje eu tenho esse hábito... Mas acordo no meio da noite pra desligar porque as notas agudas despertam meu sono. Eu também te falava muito da minha vó, e de como ela era alguém totalmente admirável pra mim. Você dizia da sua e de como chorou, agarrada a sua mãe e irmã, em uma cama quando ela se foi. Eu te falava como o céu ficava bonito da minha janela. Você me dizia que seu quarto só tinha uma janela pequenina e só via o prédio da frente, por vezes até o vizinho pelado no quarto. Eu ficava incomodada com o suor caindo na minha testa, meu cabelo alto e esvoaçado, achando que estava o total diabo em forma de gente. Aí você me dizia: "Por que logo eu?". Você ria do meu complexo por resfenol. Eu ria quando você falava com uma voz aguda com sua cachorrinha. Você me contava seus casos tão irritada... Enquanto eu olhava o céu todo coberto pelo preto das noites. Você me mostrava seu orgulho e eu te falava sobre como a cor do céu já estava mudando porque conversávamos faziam cinco horas. Eu, com todo meu receio, tentava te mostrar o quanto valia a pena ir atrás de quem se amava, não importando o quão errada a pessoa estaria. Aprendi tal coisa ao me deixar te amar. E você a cada palavra me surpreendia.
Fomos descobrindo manias particulares, como as pessoas fazem umas com as outras. Isso são só detalhes. Ossos do ofício.
Embora fosse prazeroso pra mim descobrir mais de você, eu só me concentrava nos teus olhos miúdos penetrados nas minhas pupilas. Só me restava sorrir as olhando por me sentir tão pura. Tão em contato comigo.
Suas manias ficavam tão pequenas diante disso. E as minhas também.
Não espero procurar por notícias suas pra confortar meu peito, te quero bem. Bem como o que eu sinto por você.
Eu me confortava por ouvir sua respiração. De enrolar meus dedos no seu cabelo.
Agora ficam seus detalhes e minha janela com uma boa vista. Eu fico por dentro ouvindo minhas músicas de chuva, que agora não são mais tão agradáveis de ouvir, devido a me lembrar em como dormia aliviada por ter acabado de ouvir sua voz.
Eu te quero bem. Com tudo o que resta de você em mim, com todas suas notas perfeitas que ecoam nos meus ouvidos e "fazem me apaixonar de novo por você". Te quero bem, pois "é como se eu sempre pudesse te ver".
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Pequenos
Eu sei que esses detalhesNão compreendo bem a transição que ocorre até eu admirar alguém. O nosso tempo corrido deslancha e cada um fica tão cheio de si, tão preocupado em como as mazelas do mundo cairão em suas cabeças, que esquecemos do outro.
Vão sumir na longa estrada
Do tempo que transforma
Todo amor em quase nada
Mas "quase"
Também é mais um detalhe.
Eu gosto daquele que nunca te pôs os olhos e já consegue te olhar em meio uma faixa de pedestre. Gosto de multidões pra observar os que passam. Cada gesto único que atravessa. E fico satisfeita se o outro retorna o olhar descobrindo meu movimento repetido sob o anel em torno do dedo. Minha atenção surge nos detalhes.
Na cabeça que quebra pra um dos lados se algo comove, no movimento das mãos ao descobrir as costas, a nuca. Na face que se torna séria puramente concentrada no objetivo de absorver tudo o que o outro fala. Cada um com sua individualidade, com o mundo inteiro por dentro, suas dores e amores. Gritando ser e se deparar sendo só mais um grão.
Entro em um personagem pelos detalhes, pra mim são ações que dizem muito do íntimo. Ajudam a entrar no corpo. Tudo que reflete fora houve uma causa dentro - ação e reação. Como um triângulo: Possuímos um psicológico que traz o pensar, a alma que desperta o puro e por fim um corpo como uma carcaça cobrindo tudo isso. Todos possuem. Entre personagens, atores e ajudantes da coxia. O público, que possui corpos, está assistindo no lado escuro do teatro, e entende o que foi passado pelo lado psicológico, logo o laudo do cérebro toca a alma e um sorriso pode até ser dado através do corpo.
Gosto de quem repara. Um movimento jogado ali e aqui, uma tensão com os dedos por não saber o que dizer.
Gosto dos modos impulsivos e desastrados. Dos não compreendidos. Introspectivos.
Eu gosto dos olhares compulsivos sem disfarce, por um tanto, que as pupilas dilatam e o olhar entra.
Dos exagerados. Dos não medidores de palavras.
Gosto dos escrachados e dos mais tímidos. Dos que instigam.
Gosto dos detalhes que são livres, fazem porque querem. Dos surtos.
Passos maiores que a perna.
É aí que eu vejo a admiração surgindo, a autenticidade. O livre.
Gosto dos seus detalhes.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
À mercê da maresia
Armei as velas.
Então só faltava uma rajada de ar pro barco partir, daquelas que levam e lavam a alma.
Daquelas que entram. Daquelas que tiram sua carcaça e deixam só o que consegue segurar em si. Daquelas que são. Daquelas que ficam. Que batem bem no rosto.
O barco se foi, e eu ainda me deliciava da brisa que tinha impulsionado as velas. Percebi, pelo barulho das ondas batendo no casco, que ele já tinha sido entregue à maresia.
O vento parou, o que se segurou em mim travou, a ficha não caiu e o único movimento que o mundo parecia ter, era de um barco se afastando do porto, com diversas ondas se propagando ao seu redor. Segurei o ar, assim como tudo que estava no meu interior.
Prendi todos no meu corpo para nenhuma fagulha do que eu ainda sentia ir junto ao barco, pra ser minha - meu, meu, minha, minha, meu, minha. Um egoísmo de guardar o mundo por dentro, já que agora estava vazia. As ondas pertenciam ao meu corpo e por dentro eu era uma tempestade. Um turbilhão.
O barulho da água no casco formava uma melodia leve e sincronizada.
E agora eu não mais conseguia ver os detalhes das ranhuras de madeira em torno do barco... Agora ele tinha a metade do tamanho... Agora era só um pontinho no mar.
Eu continuava explodindo, totalmente imóvel, esperando não partir assim como fez o barco.
Não tive noção do tempo, de mim, do sol que já estava se pondo... Ainda tinha o ar preso e se não recebesse um tapa nas costas seria capaz de não soltá-lo.
Continuei olhando bem no finalzinho do horizonte e não havia mais sinal do barco. Só assim soltei todo o ar, todas as ondas, barulhos, dizeres... Inclusive aquela luz vinho que nos cercava.
Daquelas que entram. Daquelas que tiram sua carcaça e deixam só o que consegue segurar em si. Daquelas que são. Daquelas que ficam. Que batem bem no rosto.
O barco se foi, e eu ainda me deliciava da brisa que tinha impulsionado as velas. Percebi, pelo barulho das ondas batendo no casco, que ele já tinha sido entregue à maresia.
O vento parou, o que se segurou em mim travou, a ficha não caiu e o único movimento que o mundo parecia ter, era de um barco se afastando do porto, com diversas ondas se propagando ao seu redor. Segurei o ar, assim como tudo que estava no meu interior.
Prendi todos no meu corpo para nenhuma fagulha do que eu ainda sentia ir junto ao barco, pra ser minha - meu, meu, minha, minha, meu, minha. Um egoísmo de guardar o mundo por dentro, já que agora estava vazia. As ondas pertenciam ao meu corpo e por dentro eu era uma tempestade. Um turbilhão.
O barulho da água no casco formava uma melodia leve e sincronizada.
E agora eu não mais conseguia ver os detalhes das ranhuras de madeira em torno do barco... Agora ele tinha a metade do tamanho... Agora era só um pontinho no mar.
Eu continuava explodindo, totalmente imóvel, esperando não partir assim como fez o barco.
Não tive noção do tempo, de mim, do sol que já estava se pondo... Ainda tinha o ar preso e se não recebesse um tapa nas costas seria capaz de não soltá-lo.
Continuei olhando bem no finalzinho do horizonte e não havia mais sinal do barco. Só assim soltei todo o ar, todas as ondas, barulhos, dizeres... Inclusive aquela luz vinho que nos cercava.
domingo, 5 de agosto de 2012
Um leão por dia
Vinha de uma família tradicional, perdeu seus pais muito cedo e isso só foi um impulso para alavancar sua carreira. Percebeu que no mundo era sempre você por você mesmo.
Levava a vida sem grandes emoções, embora fosse casado e tivesse uma filha. Perdeu o contato com sua esposa fazia anos e tinha o casamento apenas como fachada, para preservar a filha e os desagradáveis rumores que viriam caso houvesse divórcio. Pra ele estava tudo bem se ao chegar em casa não falasse com ninguém, se sua esposa saísse com outros homens, se não conseguia lembrar a última vez que sorriu sem grandes motivos. Estava "vivo", embora só fisicamente. Mas precisava de algo mais? Faz favor, ele já tinha um corpo.
Sua esposa tinha casos esporádicos com outros homens, não era uma vida que esperava pra ela, mas era uma maneira de se manter viva. De chegar em casa e suportar o olhar morto do marido sem preocupações. No começo, até tentou salvar a alma perdida. Lhe dizia para ao invés de só trabalhar, para que fizesse um esporte, começasse a tocar um instrumento ou até mesmo furasse alguma noite no bar da esquina. A resposta era sempre a mesma: "Já tenho tudo o que preciso" - resmungava com um ar cansado e cômodo. Ele achava mais fácil esquecer e deixar pra outro dia. O caminho mais fácil é sempre o melhor, a vida já é complicada demais por si só, pensava. E talvez esse fosse seu pensamento mais sensato.
Foi então que numa tarde de março seu despertador não tocou, falhando com sua impecável rotina. Acordou alguns minutos mais tarde, e quando olhou pro relógio, deu um pulo da cama. Tinha uma reunião importante daqui há uma hora.
Dirigia com extrema rapidez no caminho pro trabalho e se quer notou quando foi fazer um cruzamento. Bateu diretamente em um táxi, cujo pegou com tudo na porta do motorista. Havia estilhaços de vidro por todas as partes e uma multidão se formou ao redor do acidente.
Suas pernas ficaram presas em meio as ferragens, o que preocupou o médico e sua família. Sem contar no trabalho árduo dos bombeiros para que não houvessem maiores danos. Pois houveram. Tirando a pancada nas pernas, ele teria sofrido uma colisão com a medula e provavelmente não voltaria muito cedo a andar.
Sua esposa, em consideração, acompanhara o marido em seus meses de recuperação. Mas já queria pedir o divórcio havia anos, e agora mais do que nunca, não queria um inválido pra tirar o pouco traço de vida que tinha. A filha nunca teve muito contato com o pai, a não ser pelas contas que eram pagas por ele no começo do mês. O resto de sua família estava em uma cidade do interior, pois depois que seus pais morreram, ele não via mais motivos pra continuar lá.
Assim foi se vendo aos poucos sem nada. Perdeu o movimento das pernas, sua esposa, filha e já não se tinha há muito tempo.
Tinha a cara fechada para conseguir viver num mundo de mágoas.
Não arriscava em nada por medo de sofrer um décimo do que sentiu quando perdeu seus pais. A vida era lenta. Lenta ele observava e conseguia calcular para onde iria seu próximo passo. Não acreditava na vida, no amor e dizia que o acaso já foi previsto pelo outro. Alguns acreditavam que ele era a pessoa mais amarga que conheciam, outros poucos se deixavam pensar se algum dia já foi compreendido ou deixou ser.
Se ele ainda tinha alguma coisa ou sentia, era só uma dor que não sabia da onde vinha e nem pra onde ia. Julgava sua vida como sendo um fracasso.
Não tinha razão nenhuma pra continuar e já se julgava velho demais pra procurar algum resquício de vida na rua. A única coisa que fazia era colocar sua cabeça no meio dos joelhos e usar de toda dor que sentia. Se perguntava aonde teria arriscado pra sentir tanta dor - foi então que se viu completamente jogado aos riscos. A vida embalava suas pernas estáticas, sua dura alma e completamente seu ser.
Até agora teria brincado com a vida e ela lhe deu outra ferida.
Não tinha um alguém se quer que poderia ligar e dizer que amava, que precisava. Outra vez percebeu que no mundo é sempre você por você mesmo - e como doía pensar nisso de novo. E como dói acreditar nisso. E como se lamentava.
Passava seus dias deitado em uma cama com cheiro de amaciante, porque a enfermeira contratada lavava os lençóis a cada uma semana. Ela o virava na cama pra não causar nenhuma necrosação em seu corpo e também enchia seus pés de creme na hora de dormir. Os únicos contatos humanos que tinha era com ela e seu fisioterapeuta, que via duas vezes na semana. Em uma noite, após a enfermeira passar creme em seus pés, sentiu uma brisa de ar entrar pela janela e pôde notar que devido ao creme, seus pés ficaram frios. Era a primeira vez em meses que tinha alguma sensação da cintura pra baixo.
Na mesma semana contou ao fisioterapeuta e com o passar de alguns meses, estava dando seus primeiros passos.
Cada passo era um risco. De cair, das pernas falharem, de suas emoções (agora sentidas) não suportarem tal fardo.
Foi aí que arriscou, foi aí que viveu... Foi aí que o mundo se tornou todas pessoas por você mesmo.
Entrelaçou sua vida. Lançou sua alma. Sorria pelos tropeços que dava, por às vezes suas pernas perderem as sensações, pois assim lembrava que a cada passo estava arriscando.
Levava a vida sem grandes emoções, embora fosse casado e tivesse uma filha. Perdeu o contato com sua esposa fazia anos e tinha o casamento apenas como fachada, para preservar a filha e os desagradáveis rumores que viriam caso houvesse divórcio. Pra ele estava tudo bem se ao chegar em casa não falasse com ninguém, se sua esposa saísse com outros homens, se não conseguia lembrar a última vez que sorriu sem grandes motivos. Estava "vivo", embora só fisicamente. Mas precisava de algo mais? Faz favor, ele já tinha um corpo.
Sua esposa tinha casos esporádicos com outros homens, não era uma vida que esperava pra ela, mas era uma maneira de se manter viva. De chegar em casa e suportar o olhar morto do marido sem preocupações. No começo, até tentou salvar a alma perdida. Lhe dizia para ao invés de só trabalhar, para que fizesse um esporte, começasse a tocar um instrumento ou até mesmo furasse alguma noite no bar da esquina. A resposta era sempre a mesma: "Já tenho tudo o que preciso" - resmungava com um ar cansado e cômodo. Ele achava mais fácil esquecer e deixar pra outro dia. O caminho mais fácil é sempre o melhor, a vida já é complicada demais por si só, pensava. E talvez esse fosse seu pensamento mais sensato.
Foi então que numa tarde de março seu despertador não tocou, falhando com sua impecável rotina. Acordou alguns minutos mais tarde, e quando olhou pro relógio, deu um pulo da cama. Tinha uma reunião importante daqui há uma hora.
Dirigia com extrema rapidez no caminho pro trabalho e se quer notou quando foi fazer um cruzamento. Bateu diretamente em um táxi, cujo pegou com tudo na porta do motorista. Havia estilhaços de vidro por todas as partes e uma multidão se formou ao redor do acidente.
Suas pernas ficaram presas em meio as ferragens, o que preocupou o médico e sua família. Sem contar no trabalho árduo dos bombeiros para que não houvessem maiores danos. Pois houveram. Tirando a pancada nas pernas, ele teria sofrido uma colisão com a medula e provavelmente não voltaria muito cedo a andar.
Sua esposa, em consideração, acompanhara o marido em seus meses de recuperação. Mas já queria pedir o divórcio havia anos, e agora mais do que nunca, não queria um inválido pra tirar o pouco traço de vida que tinha. A filha nunca teve muito contato com o pai, a não ser pelas contas que eram pagas por ele no começo do mês. O resto de sua família estava em uma cidade do interior, pois depois que seus pais morreram, ele não via mais motivos pra continuar lá.
Assim foi se vendo aos poucos sem nada. Perdeu o movimento das pernas, sua esposa, filha e já não se tinha há muito tempo.
Tinha a cara fechada para conseguir viver num mundo de mágoas.
Não arriscava em nada por medo de sofrer um décimo do que sentiu quando perdeu seus pais. A vida era lenta. Lenta ele observava e conseguia calcular para onde iria seu próximo passo. Não acreditava na vida, no amor e dizia que o acaso já foi previsto pelo outro. Alguns acreditavam que ele era a pessoa mais amarga que conheciam, outros poucos se deixavam pensar se algum dia já foi compreendido ou deixou ser.
Se ele ainda tinha alguma coisa ou sentia, era só uma dor que não sabia da onde vinha e nem pra onde ia. Julgava sua vida como sendo um fracasso.
Não tinha razão nenhuma pra continuar e já se julgava velho demais pra procurar algum resquício de vida na rua. A única coisa que fazia era colocar sua cabeça no meio dos joelhos e usar de toda dor que sentia. Se perguntava aonde teria arriscado pra sentir tanta dor - foi então que se viu completamente jogado aos riscos. A vida embalava suas pernas estáticas, sua dura alma e completamente seu ser.
Até agora teria brincado com a vida e ela lhe deu outra ferida.
Não tinha um alguém se quer que poderia ligar e dizer que amava, que precisava. Outra vez percebeu que no mundo é sempre você por você mesmo - e como doía pensar nisso de novo. E como dói acreditar nisso. E como se lamentava.
Passava seus dias deitado em uma cama com cheiro de amaciante, porque a enfermeira contratada lavava os lençóis a cada uma semana. Ela o virava na cama pra não causar nenhuma necrosação em seu corpo e também enchia seus pés de creme na hora de dormir. Os únicos contatos humanos que tinha era com ela e seu fisioterapeuta, que via duas vezes na semana. Em uma noite, após a enfermeira passar creme em seus pés, sentiu uma brisa de ar entrar pela janela e pôde notar que devido ao creme, seus pés ficaram frios. Era a primeira vez em meses que tinha alguma sensação da cintura pra baixo.
Na mesma semana contou ao fisioterapeuta e com o passar de alguns meses, estava dando seus primeiros passos.
Cada passo era um risco. De cair, das pernas falharem, de suas emoções (agora sentidas) não suportarem tal fardo.
Foi aí que arriscou, foi aí que viveu... Foi aí que o mundo se tornou todas pessoas por você mesmo.
Entrelaçou sua vida. Lançou sua alma. Sorria pelos tropeços que dava, por às vezes suas pernas perderem as sensações, pois assim lembrava que a cada passo estava arriscando.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Des
Acho coragem um termo pesado. Não sei se porque coragem pra mim sempre remeteu a heróis, mas talvez, por vezes, sejamos.
Recolhemos nosso ego para olhar o mais pleno, que talvez seja o mais mentiroso, dos sentimentos de outrem. O que faz nos tornarmos mais compreensivos. Só porque aquele amor gigante não vingou, não é razão pra passar despercebido pela menina nova que te olha de rabo de olho. Nem do vizinho que só precise de um "Bom dia" pra abrir um sorriso.
"Todo ser humano possui o desejo de ser compreendido e considerado pelo outro."
Não que um egoísmo aqui e ali seja totalmente dispensável, mas por se tornar um ciclo, a menina nova não tiraria os olhos até que você a responda ao mesmo nível. E pra mim, essa é a coragem fazendo jus a seu significado. Arriscar no mutável íntimo do outro.
Sei do medo, sei da vontade de fechar os olhos e não aguentar uma voz num timbre milésimos mais alto que a sua, mas isso vai além. Muito além.
Tem que sorrir pra si. Colocar a dor do pai que nunca te compreendeu num poema, numa fotografia, uma canção. Como eu arrisco fazer agora com todo esse descontentamento pelo outro que eu possuo. As coisas vão além da sua alçada.
Não julgo o se resguardar, todos precisam de um tempo consigo. Na verdade, não julgo nada. Estaria sendo corajosa por ainda apostar no teu ar fechado, portanto?
Escrevo afim de transmitir força. Doses de alívio pra acalmar os corações dos que sentem demais. De respirar apesar e antes de tudo. Manter o pescoço reto, a coluna erguida e a cabeça ocupada.
Escrevo pros que remoem cada fino detalhe, sentindo-os. Maximizando-os. Se mutilam aumentando todas as juras que se quer foram feitas. Portadores de corações desesperados.
Seus abraços são sempre os últimos, não saem sem o adeus e o que tem que ser dito... Será. Intensos. Teus amores são os maiores seguidos de dores maiores ainda. Sempre, nunca, sempre, nunca. É oito ou oitenta.
Pra esses que escrevo. Repito frisando que as coisas vão além da nossa (me incluindo, por ser difícil quando chega no ápice pensar assim) alçada. Vão além em modos bons e ruins, mas vão. Seguem. Deixamos guardado nosso descontentamento enquanto retribuímos o bom dia do vizinho. Cabe a nós aguar todos os lados bons, tirar toda a cegueira da dor e pensar que se em meio à chuva, encontrasse alguém se deixando sentir cada maldito pingo, teríamos admiração. Sorrindo nos desencontros.
Sorrir. Coragem pra sorrir. Não é se mascarar, é acreditar em si e ver que não chegará em lugar nenhum reclamando do preço do pão.
Deixaremos o radical "des" somente para nosso encontro com o íntimo. Transformaremos, portanto:Descontentar, desapontar, desencontro, desenvolvimento, desgosto, desagrado, desprazer.
Abrir o teu no meio ao meu, um bom puxão de ar pra se deixar gargalhar.
Recolhemos nosso ego para olhar o mais pleno, que talvez seja o mais mentiroso, dos sentimentos de outrem. O que faz nos tornarmos mais compreensivos. Só porque aquele amor gigante não vingou, não é razão pra passar despercebido pela menina nova que te olha de rabo de olho. Nem do vizinho que só precise de um "Bom dia" pra abrir um sorriso.
"Todo ser humano possui o desejo de ser compreendido e considerado pelo outro."
Não que um egoísmo aqui e ali seja totalmente dispensável, mas por se tornar um ciclo, a menina nova não tiraria os olhos até que você a responda ao mesmo nível. E pra mim, essa é a coragem fazendo jus a seu significado. Arriscar no mutável íntimo do outro.
Sei do medo, sei da vontade de fechar os olhos e não aguentar uma voz num timbre milésimos mais alto que a sua, mas isso vai além. Muito além.
Tem que sorrir pra si. Colocar a dor do pai que nunca te compreendeu num poema, numa fotografia, uma canção. Como eu arrisco fazer agora com todo esse descontentamento pelo outro que eu possuo. As coisas vão além da sua alçada.
Não julgo o se resguardar, todos precisam de um tempo consigo. Na verdade, não julgo nada. Estaria sendo corajosa por ainda apostar no teu ar fechado, portanto?
Escrevo afim de transmitir força. Doses de alívio pra acalmar os corações dos que sentem demais. De respirar apesar e antes de tudo. Manter o pescoço reto, a coluna erguida e a cabeça ocupada.
Escrevo pros que remoem cada fino detalhe, sentindo-os. Maximizando-os. Se mutilam aumentando todas as juras que se quer foram feitas. Portadores de corações desesperados.
Seus abraços são sempre os últimos, não saem sem o adeus e o que tem que ser dito... Será. Intensos. Teus amores são os maiores seguidos de dores maiores ainda. Sempre, nunca, sempre, nunca. É oito ou oitenta.
Pra esses que escrevo. Repito frisando que as coisas vão além da nossa (me incluindo, por ser difícil quando chega no ápice pensar assim) alçada. Vão além em modos bons e ruins, mas vão. Seguem. Deixamos guardado nosso descontentamento enquanto retribuímos o bom dia do vizinho. Cabe a nós aguar todos os lados bons, tirar toda a cegueira da dor e pensar que se em meio à chuva, encontrasse alguém se deixando sentir cada maldito pingo, teríamos admiração. Sorrindo nos desencontros.
Sorrir. Coragem pra sorrir. Não é se mascarar, é acreditar em si e ver que não chegará em lugar nenhum reclamando do preço do pão.
Deixaremos o radical "des" somente para nosso encontro com o íntimo. Transformaremos, portanto:
Abrir o teu no meio ao meu, um bom puxão de ar pra se deixar gargalhar.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Recaída
A brasa ia queimando e eu arrumava minhas poucas trocas de roupa tão lentamente que elas iam se encaixando perfeitamente dentro de uma bolsa velha.
Suja, rasgada, despedaçada... Aos trapos.
A brasa continuava queimando e embora todas as minhas roupas já estivessem alinhadas, a desalinhada era eu. A desalinhada de toda a história.
Meu pulmão não lembrava de se encher aquelas típicas duas vezes antes de pegar o trem que não daria pra sua casa. Eu só desalinhava meu caminho por ser tão segura.
O final de brasa se foi e restou só um bocado de cinzas que por vezes costumam entupir minhas narinas, fazendo eu não sentir nem o cheiro dos meus dedos. Cheiro só o cinza tentando sugar, não somente os dedos, mas o mundo.
Puxo o ar dentro do travesseiro esperando sentir os sonhos e acabo por sentir o cinza. A comida da vizinha não me saliva mais a boca. O vento não passa de algo que me dá frio.
A brasa já tinha ido e eu continuava esperando por uma intervenção divina.
Diga e faça o que for, mas me faça ficar.
Esse era o exato momento que o cinza podia se desmanchar e um sinal de vida poderia me ocorrer. Um adeus não é esse bicho de sete cabeças, é até confortável se você quer saber. Mostra um gesto de partida mas de volta ao mesmo tempo, você diz um adeus olhando nos olhos e percebendo que aquele olhar vai ser o único até o adeus virar um "Olá, como foi de viagem?".
A gaita continuou com suas notas graves e eu só conseguia pensar no meu nome sendo chamado de longe, abafado pelo meu corpo instantaneamente sendo virado. E o coração pulsando em milhares de milhas daqui.
Meus cílios se casavam para que ao menos dentro de mim o cinza não tenha se apoderado. Já não é do meu interesse compreender o que ainda faço com cada brasa que é acendida, agora num intervalo de tempo menor. Minha constante saída dos trilhos desarma qualquer entendimento. Só observei, no escuro, seus lances de luz mostrarem os riscos das minhas mãos tão nitidamente que arrisco escrever talvez ter visto tudo nelas impregnado.
Quando sinto, o cinza já levou.
Ao finalmente me achar, não sei nem mais meu nome.
Meus cílios se casam e a última brasa eu apago.
Suja, rasgada, despedaçada... Aos trapos.
A brasa continuava queimando e embora todas as minhas roupas já estivessem alinhadas, a desalinhada era eu. A desalinhada de toda a história.
Meu pulmão não lembrava de se encher aquelas típicas duas vezes antes de pegar o trem que não daria pra sua casa. Eu só desalinhava meu caminho por ser tão segura.
O final de brasa se foi e restou só um bocado de cinzas que por vezes costumam entupir minhas narinas, fazendo eu não sentir nem o cheiro dos meus dedos. Cheiro só o cinza tentando sugar, não somente os dedos, mas o mundo.
Puxo o ar dentro do travesseiro esperando sentir os sonhos e acabo por sentir o cinza. A comida da vizinha não me saliva mais a boca. O vento não passa de algo que me dá frio.
A brasa já tinha ido e eu continuava esperando por uma intervenção divina.
Diga e faça o que for, mas me faça ficar.
Esse era o exato momento que o cinza podia se desmanchar e um sinal de vida poderia me ocorrer. Um adeus não é esse bicho de sete cabeças, é até confortável se você quer saber. Mostra um gesto de partida mas de volta ao mesmo tempo, você diz um adeus olhando nos olhos e percebendo que aquele olhar vai ser o único até o adeus virar um "Olá, como foi de viagem?".
A gaita continuou com suas notas graves e eu só conseguia pensar no meu nome sendo chamado de longe, abafado pelo meu corpo instantaneamente sendo virado. E o coração pulsando em milhares de milhas daqui.
Meus cílios se casavam para que ao menos dentro de mim o cinza não tenha se apoderado. Já não é do meu interesse compreender o que ainda faço com cada brasa que é acendida, agora num intervalo de tempo menor. Minha constante saída dos trilhos desarma qualquer entendimento. Só observei, no escuro, seus lances de luz mostrarem os riscos das minhas mãos tão nitidamente que arrisco escrever talvez ter visto tudo nelas impregnado.
Quando sinto, o cinza já levou.
Ao finalmente me achar, não sei nem mais meu nome.
Meus cílios se casam e a última brasa eu apago.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Quatro mãos
O perfume era do que eu mais lembrava. Nada nessa época era branco, me transmitia sempre outras cores. Como as luzes que acendem toda noite. Posso dizer que as sentia dentro de mim, já que este era um lugar em que me encontrava, embora não estivesse apreciando muito.
Dentro de mim, eu me desgastava. Até perceber que no mesmo lugar estava, então soltava um suspiro e deixava ir.
Depois disso eu não só deixei a dor partir, deixei a vida também. E o que eu podia fazer se a vida só passava por mim? Se as luzes de toda noite apagaram? Eu sabia que precisava de alguém que me fizesse reaprender a continuar, esperava que tal coisa partisse de mim, mas percebi que sozinho não dá pra viver aqui.
Não significava o fim da minha vida, muito menos a perda da vontade de olhar pra alguém, de sentir alguém. Só significava que eu me encontrava mais lenta. Fixa. Pouco me indignava se o céu estava cinza e da minha janela eu só via nuvens. No meu quarto qualquer feixe de luz me incomodava. Roupas apertadas me incomodavam. E barulhos. Eu só queria uma canção calma que representasse fielmente seu perfume saindo de mim finalmente. Nada me afligia, nem me acalmava. Só estava contemplando sua ida (e meu vazio).
Também não digo que por conta disso tenha desacreditado no céu, nem que a chuva consiga lavar a alma. Eu só queria o meu tempo e teu resto de perfume.
Me orgulho por não ter sido algo que tenha me passado despercebido ou indolor, você também devia ter orgulho disso. Também me orgulho por ter amado com todo meu coração e de todas formas que consegui. Não economizei na alma, não me cerquei. Só amei. Como eu realmente acho que tem que se amar.
Até que me desvencilhei do meu tormento, e quando comecei a sentir o vento realmente bater na minha face, pude perfeitamente perceber que ao voltar pra casa todas as luzes se encontrariam acesas. O latido do cachorro do vizinho não iria incomodar, eu limparia a janela pra amenizar o esbranquiçado das nuvens e quem sabe até colaria umas gravuras. Vi o céu mesclar um arco-íris de cores no fim da tarde e nada me chamou mais a atenção.
Eu estava sentindo e não era o seu perfume.
Podia agora ver os traços puros de outros e talvez me tocariam tanto quanto quando foi contigo.
Me encontrei inventando dezenas de paixões pra que não voltasse ao escuro. Vivendo o desejo e não mais minha alma. Eram mãos que afastavam os pensamentos, descobri enfim. Ampliava o vazio, embora evitasse comparações, por não conseguirem limpar toda a bagunça que fiz dentro de mim. Mas estava seguindo, aos poucos eu só percebia que devia me restar paciência.
Foi exatamente assim que me vi, finalmente, branca. Não mais rígida e fixa. Só leve. Não te procurava mais e nem esperava te achar. Eu só estava seguindo meu fluxo. E então, você me vem com uma rosa no coração pra mim. Despedaçando todos os meus anseios e preocupações. No mesmo suspiro, eu solto, e deixo ir.
Agora conversamos sobre a vida, diante de quatro mãos dividindo diferentes batidas de coração em uma noite.
Dentro de mim, eu me desgastava. Até perceber que no mesmo lugar estava, então soltava um suspiro e deixava ir.
Depois disso eu não só deixei a dor partir, deixei a vida também. E o que eu podia fazer se a vida só passava por mim? Se as luzes de toda noite apagaram? Eu sabia que precisava de alguém que me fizesse reaprender a continuar, esperava que tal coisa partisse de mim, mas percebi que sozinho não dá pra viver aqui.
Não significava o fim da minha vida, muito menos a perda da vontade de olhar pra alguém, de sentir alguém. Só significava que eu me encontrava mais lenta. Fixa. Pouco me indignava se o céu estava cinza e da minha janela eu só via nuvens. No meu quarto qualquer feixe de luz me incomodava. Roupas apertadas me incomodavam. E barulhos. Eu só queria uma canção calma que representasse fielmente seu perfume saindo de mim finalmente. Nada me afligia, nem me acalmava. Só estava contemplando sua ida (e meu vazio).
Também não digo que por conta disso tenha desacreditado no céu, nem que a chuva consiga lavar a alma. Eu só queria o meu tempo e teu resto de perfume.
Me orgulho por não ter sido algo que tenha me passado despercebido ou indolor, você também devia ter orgulho disso. Também me orgulho por ter amado com todo meu coração e de todas formas que consegui. Não economizei na alma, não me cerquei. Só amei. Como eu realmente acho que tem que se amar.
Até que me desvencilhei do meu tormento, e quando comecei a sentir o vento realmente bater na minha face, pude perfeitamente perceber que ao voltar pra casa todas as luzes se encontrariam acesas. O latido do cachorro do vizinho não iria incomodar, eu limparia a janela pra amenizar o esbranquiçado das nuvens e quem sabe até colaria umas gravuras. Vi o céu mesclar um arco-íris de cores no fim da tarde e nada me chamou mais a atenção.
Eu estava sentindo e não era o seu perfume.
Podia agora ver os traços puros de outros e talvez me tocariam tanto quanto quando foi contigo.
Me encontrei inventando dezenas de paixões pra que não voltasse ao escuro. Vivendo o desejo e não mais minha alma. Eram mãos que afastavam os pensamentos, descobri enfim. Ampliava o vazio, embora evitasse comparações, por não conseguirem limpar toda a bagunça que fiz dentro de mim. Mas estava seguindo, aos poucos eu só percebia que devia me restar paciência.
Foi exatamente assim que me vi, finalmente, branca. Não mais rígida e fixa. Só leve. Não te procurava mais e nem esperava te achar. Eu só estava seguindo meu fluxo. E então, você me vem com uma rosa no coração pra mim. Despedaçando todos os meus anseios e preocupações. No mesmo suspiro, eu solto, e deixo ir.
Agora conversamos sobre a vida, diante de quatro mãos dividindo diferentes batidas de coração em uma noite.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
O céu está límpido
Quando se cala, o que está sentindo passa para suas ações, porque não foi dito. Então suas palavras dentro de si manifestam seu toque arredio e leve na minha pele neutra.
Me diz pra não me importar com seus anseios e me segura nos braços com toda sua incerteza.
Pois sendo incerta ou não, isso se junta com toda minha eterna confusão e com os julgamentos dos que lhe apontam os dedos, e talvez seja por isso que eu descubro o que existir em mim ser puro. Todo o mar violento do meu corpo não é capaz de derrubar o que eu sinto.
Finalmente depois de todos os rodeios, o que sinto é puro.
É limpo.
O que falo pode não ser, nem minhas seguras e impulsivas atitudes, mas o que sinto é. E pra mim é o que importa.
Mergulhamos no nosso mar de confusões e nos parece agradável, vamos usufruindo de cada canto do que sentimos. Por fim acabamos não sabendo lidar muito bem com as gotas que sobram em nossos corpos, mas é só olhar nas suas grandes pupilas que fazemos do nublado um céu azul.
A ingenuidade se perde no meio do que dizemos sentir, aliás isso é algo que eu nem sei nomear, só percebo não ter máscara nenhuma. Ser escrachado. Sentido. Humano. Ao ponto da falta de conhecimento pelas palavras certas ser banal quando comparado com suas pupilas.
Conversamos pelos olhos. Mostramos com o toque e só deixamos sentir. Sentir, sentir, sentir. Confesso que não estou me importando com o silêncio que nos cerca, nunca soube lidar muito bem com as palavras afinal.
Ressalto que isso parte de mim, aquele "puro e ingênuo".
Me diz pra não me importar com seus anseios e me segura nos braços com toda sua incerteza.
Pois sendo incerta ou não, isso se junta com toda minha eterna confusão e com os julgamentos dos que lhe apontam os dedos, e talvez seja por isso que eu descubro o que existir em mim ser puro. Todo o mar violento do meu corpo não é capaz de derrubar o que eu sinto.
Finalmente depois de todos os rodeios, o que sinto é puro.
É limpo.
O que falo pode não ser, nem minhas seguras e impulsivas atitudes, mas o que sinto é. E pra mim é o que importa.
Mergulhamos no nosso mar de confusões e nos parece agradável, vamos usufruindo de cada canto do que sentimos. Por fim acabamos não sabendo lidar muito bem com as gotas que sobram em nossos corpos, mas é só olhar nas suas grandes pupilas que fazemos do nublado um céu azul.
A ingenuidade se perde no meio do que dizemos sentir, aliás isso é algo que eu nem sei nomear, só percebo não ter máscara nenhuma. Ser escrachado. Sentido. Humano. Ao ponto da falta de conhecimento pelas palavras certas ser banal quando comparado com suas pupilas.
Conversamos pelos olhos. Mostramos com o toque e só deixamos sentir. Sentir, sentir, sentir. Confesso que não estou me importando com o silêncio que nos cerca, nunca soube lidar muito bem com as palavras afinal.
Ressalto que isso parte de mim, aquele "puro e ingênuo".
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Se eu colocasse "fixos" seria muita fixação?
Mantenho o olhar fixo deixando toda a sujeira que corre pela minha cabeça se propagar.
É uma constante.
A vida corrida vai passando diante dos meus olhos fixos e todo sinal de vida que ainda consigo ter é por perceber uma melodia calma que embala os poucos movimentos do meu corpo. A melodia vai mudando de tom, e meus olhos continuam fixos. O trem vai deslocando da plataforma, meus olhos estão fixos. Do parapeito da janela eu vejo um acidente e a adrenalina esquece do manifesto. E meu corpo continua fixo. Morto e cansado.
A voz grave e veluda diz pra dançar com outro par pra variar uma dor que teima em aparecer, por incrível que pareça que sempre parte de você. Pros meus olhos, antes fixos, agora verem. Enxergarem a vida corrida que dança lenta. Sentirem com vontade de sentir, mas meu corpo cansado insiste em manter minha face fria. Minhas mãos, que antes te seguravam, agora jogadas. Os olhos, antes em você, agora fixos. Fixos em mim.
Colocados em mim como uma forma de te abafar.
Fixos no ser que eu julgo ser puro.
Puro por acreditar ao ponto de estar completamente acabado, mas se outro alguém aparecer, a mesma "confiança" vai estar lá.
Puro e fielmente ingênuo.
Um ser dado e capaz de mergulhar.
De amar sem grandes motivos e nenhum.
É uma constante.
A vida corrida vai passando diante dos meus olhos fixos e todo sinal de vida que ainda consigo ter é por perceber uma melodia calma que embala os poucos movimentos do meu corpo. A melodia vai mudando de tom, e meus olhos continuam fixos. O trem vai deslocando da plataforma, meus olhos estão fixos. Do parapeito da janela eu vejo um acidente e a adrenalina esquece do manifesto. E meu corpo continua fixo. Morto e cansado.
A voz grave e veluda diz pra dançar com outro par pra variar uma dor que teima em aparecer, por incrível que pareça que sempre parte de você. Pros meus olhos, antes fixos, agora verem. Enxergarem a vida corrida que dança lenta. Sentirem com vontade de sentir, mas meu corpo cansado insiste em manter minha face fria. Minhas mãos, que antes te seguravam, agora jogadas. Os olhos, antes em você, agora fixos. Fixos em mim.
Colocados em mim como uma forma de te abafar.
Fixos no ser que eu julgo ser puro.
Puro por acreditar ao ponto de estar completamente acabado, mas se outro alguém aparecer, a mesma "confiança" vai estar lá.
Puro e fielmente ingênuo.
Um ser dado e capaz de mergulhar.
De amar sem grandes motivos e nenhum.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Inteira
Eu sinto sua falta.
E agora mesmo com você olhando no final das minhas pupilas, eu ainda sinto sua falta. Mesmo você me tirando o ar que eu custo ter, eu sinto. Dizendo me guardar por dentro e jogando conversa fora, sinto. Segurando minhas mãos e entrelaçando nossos dedos, sinto uma falta tremenda.
Como se nunca fosse te ter, e na verdade, como nunca eu te tive.
Nunca tenho certeza alguma quando te diz respeito e talvez por isso te tenha em uma constante linha dentro de mim.
Se temos alguma coisa hoje, só se trata da falta uma da outra.
Sentimos falta de nós mesmas.
Juntamos a falta que eu sinto e a que você sente, transformando em uma só, depois chamamos isso de alívio. Eu jogo minha dor pra você, você joga a sua pra mim... E assim a gente vai, apoiando uma na dor da outra.
Fazemos porque é cômodo, fazemos pra preencher o vazio que deixaram em nós duas.
E como, alguém em sã consciência, deixaria um vazio em você? Sendo isso ou não, só tenho a certeza que de sinto sua falta.
É a falta de ter você inteira, é a falta de te falar todas as verdades que existem em mim. É a saudade.
Saudade do puro e limpo, da intensidade que levamos as coisas.
O encaixe não será o mesmo, o quadril ficará em outra posição.
Tuas mãos, teus olhos.
Tudo vai se renovar. Assim como eu me renovei, e creio que você também. Não é mais como foi porque nós mudamos, mas não peço pra ser. Peço só você por inteira, como eu nunca tive.
É o medo da mudança. Como ficar na ponta de um prédio e decidir não pular, seguindo sua vida rotineira ou pular e mudar o rumo dos seus poucos segundos de vida até chegar ao chão.
Nada anda se encontrando mais, eu sinto sua falta.
Falta do que eu nem sei se existe por estar tão alta por você, espero não ter vontade de perder os sentidos afim de não chegar a te reconhecer. E sentir tua falta de novo, como eu sentia. Como eu sinto.
E agora mesmo com você olhando no final das minhas pupilas, eu ainda sinto sua falta. Mesmo você me tirando o ar que eu custo ter, eu sinto. Dizendo me guardar por dentro e jogando conversa fora, sinto. Segurando minhas mãos e entrelaçando nossos dedos, sinto uma falta tremenda.
Como se nunca fosse te ter, e na verdade, como nunca eu te tive.
Nunca tenho certeza alguma quando te diz respeito e talvez por isso te tenha em uma constante linha dentro de mim.
Se temos alguma coisa hoje, só se trata da falta uma da outra.
Sentimos falta de nós mesmas.
Juntamos a falta que eu sinto e a que você sente, transformando em uma só, depois chamamos isso de alívio. Eu jogo minha dor pra você, você joga a sua pra mim... E assim a gente vai, apoiando uma na dor da outra.
Fazemos porque é cômodo, fazemos pra preencher o vazio que deixaram em nós duas.
E como, alguém em sã consciência, deixaria um vazio em você? Sendo isso ou não, só tenho a certeza que de sinto sua falta.
É a falta de ter você inteira, é a falta de te falar todas as verdades que existem em mim. É a saudade.
Saudade do puro e limpo, da intensidade que levamos as coisas.
O encaixe não será o mesmo, o quadril ficará em outra posição.
Tuas mãos, teus olhos.
Tudo vai se renovar. Assim como eu me renovei, e creio que você também. Não é mais como foi porque nós mudamos, mas não peço pra ser. Peço só você por inteira, como eu nunca tive.
É o medo da mudança. Como ficar na ponta de um prédio e decidir não pular, seguindo sua vida rotineira ou pular e mudar o rumo dos seus poucos segundos de vida até chegar ao chão.
Nada anda se encontrando mais, eu sinto sua falta.
Falta do que eu nem sei se existe por estar tão alta por você, espero não ter vontade de perder os sentidos afim de não chegar a te reconhecer. E sentir tua falta de novo, como eu sentia. Como eu sinto.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Corda Bamba
O espetáculo tinha começado. Palhaços, animais adestrados, bailarinos, malabaristas e um cara que com um chicote grande apresentava as atrações.
Pra cada artista que subia no palco, o público ia batendo palmas até perder o fôlego. Os palhaços chutavam a bunda uns dos outros, fazendo os pais de família darem um sorriso forçado... Era só pra agradar a filha, que perdia o ar pelo moço com o nariz vermelho fazer uma careta com a língua pra fora. Isso fazia a garotinha rir até a barriga doer, já o pai pensava duas vezes antes de rir, por medo de achar alguém conhecido e pegá-lo no flagra sendo quem ele queria ser.
Pois bem. Subiu uma moça no palco. Magricela de cabelos curtos bem pretos, tinha as pernas compridas e trajava uma calça de moletom azul com uma blusa branca. O moço do chicote logo veio dizendo, com toda voracidade, que ela se tratava de uma equilibrista da corda bamba. A platéia começou com alguns comentários dizendo que de tão magricela, se caísse, iria esborrachar teus gravetos no chão, fazendo os ossos irem um para cada canto daquela grande lona colorida que estava montada.
A altura era como um prédio de quinze andares, na verdade observei que poderia ter dois prédios. Um no começo da corda amarela e outro no final.
A garota da calça azul pegou um bastão fino que era praticamente da grossura dos teus braços, e logo foi subindo em uma longa escada. Cada passo que dava teu ego inflava, teu amor inchava prestes a explodir.
Quando chegou lá no alto, tudo brilhava, as pessoas ficaram pequeninas e sentia teu corpo tremer, sua espinha adormecia, os dedos formigavam - estava no ponto mais alto que seu coração já conseguiu chegar. Foi então que ouviu um grito vindo lá de baixo: "Anda logo, magricela". Abriu os olhos, cerrou os dentes e foi pra ponta do prédio. Um passo dado em falso e ela cairia de uma altura que tiraria sua vida pacata, nunca mais poderia segurar seu bastão e subir a escada que lhe dava tamanha adrenalina, mas foi mesmo assim. Já que estava na chuva, se molharia. Arriscaria tua vida com fim de ouvir tua voz no pé do ouvido de novo.
Olhou pra frente, mirou um lugar fixo e ficou rígida. Colocou o pé direito primeiro, por uma questão de superstição, e foi equilibrando o bastão ao longo do seu quadril, bem reto. Revesava os pés dando passos tortos para que a corda ficasse bem no peito do seu fino membro inferior. Me parecia ter total controle do que fazia e lembrava uma criança dando seus primeiros passos, inseguros embora fossem habilidosos. Me lembrava ser também uma bailarina. E uma sonâmbula por aquele imenso moletom.
Foi traçando teu caminho, e faltavam aproximadamente cinco passos para chegar no prédio seguinte.
Quatro.
Três.
Seu peito do pé estava vermelho, o coração não batia mais com tanta intensidade.
Se acomodou, cantou vitória antes da hora. Cada passo era sagrado, sabia disso. Teu bastão trapaceou e seus ossos nunca foram tão frágeis como naquela hora.
Só bastou um sopro.
Uma brisa entrou por uma brecha feita na lona do circo, que foi aplaudida por uma senhora que agradeceu: "Graças a Deus, um ventin!". Ela entrou e atacou os pés da equilibrista.
Foi uma linha fora do lugar, uma gota no mar, o grão de areia, entre os trilhões que existem, indo diretamente nos olhos.
Desequilibrou.
As pupilas dilataram. Olhou pra baixo e viu uma rua, estava em pleno centro da cidade.
Caiu, assim sem porquê, sem razão. Só caiu.
Não tem que explicar nada. A perícia fez um interrogatório desnecessário, o uivo do público na hora do desiquilíbrio não valeu de nada, o bastão caiu. Tuas pernas, antes rígidas, amoleceram. A corda era só mais uma, o circo parecia um balão que quando alfinetado, explodia. Senti tua mão na minha.
As fraturas por todo seu corpo choravam e gritavam de dor, o ar secou. O pulmão secou. A língua atrofiou e nem saliva tinha mais. Os olhos não lubrificavam. A garganta arranhou e no mesmo sopro que bastou pra cair, se foi.
O corpo magrelo recebeu tudo o que ainda não tinha sentido e se foi. Se foi com seu sorriso na cabeça, não pude nem me despedir de você, não lembro a última vez que meus dedos entrelaçaram os seus.
E talvez seja exatamente por isso que minhas fraturas ainda ardem.
O circo ficou de luto por alguns dias e por vezes ainda perguntam pela menina do moletom azul.
Alguns juram que ela morreu com um sorriso no rosto, outros dizem que o sorriso estava só dentro da cabeça dela. Mas nem dela o sorriso era - como nunca minha você foi.
Pra cada artista que subia no palco, o público ia batendo palmas até perder o fôlego. Os palhaços chutavam a bunda uns dos outros, fazendo os pais de família darem um sorriso forçado... Era só pra agradar a filha, que perdia o ar pelo moço com o nariz vermelho fazer uma careta com a língua pra fora. Isso fazia a garotinha rir até a barriga doer, já o pai pensava duas vezes antes de rir, por medo de achar alguém conhecido e pegá-lo no flagra sendo quem ele queria ser.
Pois bem. Subiu uma moça no palco. Magricela de cabelos curtos bem pretos, tinha as pernas compridas e trajava uma calça de moletom azul com uma blusa branca. O moço do chicote logo veio dizendo, com toda voracidade, que ela se tratava de uma equilibrista da corda bamba. A platéia começou com alguns comentários dizendo que de tão magricela, se caísse, iria esborrachar teus gravetos no chão, fazendo os ossos irem um para cada canto daquela grande lona colorida que estava montada.
A altura era como um prédio de quinze andares, na verdade observei que poderia ter dois prédios. Um no começo da corda amarela e outro no final.
A garota da calça azul pegou um bastão fino que era praticamente da grossura dos teus braços, e logo foi subindo em uma longa escada. Cada passo que dava teu ego inflava, teu amor inchava prestes a explodir.
Quando chegou lá no alto, tudo brilhava, as pessoas ficaram pequeninas e sentia teu corpo tremer, sua espinha adormecia, os dedos formigavam - estava no ponto mais alto que seu coração já conseguiu chegar. Foi então que ouviu um grito vindo lá de baixo: "Anda logo, magricela". Abriu os olhos, cerrou os dentes e foi pra ponta do prédio. Um passo dado em falso e ela cairia de uma altura que tiraria sua vida pacata, nunca mais poderia segurar seu bastão e subir a escada que lhe dava tamanha adrenalina, mas foi mesmo assim. Já que estava na chuva, se molharia. Arriscaria tua vida com fim de ouvir tua voz no pé do ouvido de novo.
Olhou pra frente, mirou um lugar fixo e ficou rígida. Colocou o pé direito primeiro, por uma questão de superstição, e foi equilibrando o bastão ao longo do seu quadril, bem reto. Revesava os pés dando passos tortos para que a corda ficasse bem no peito do seu fino membro inferior. Me parecia ter total controle do que fazia e lembrava uma criança dando seus primeiros passos, inseguros embora fossem habilidosos. Me lembrava ser também uma bailarina. E uma sonâmbula por aquele imenso moletom.
Foi traçando teu caminho, e faltavam aproximadamente cinco passos para chegar no prédio seguinte.
Quatro.
Três.
Seu peito do pé estava vermelho, o coração não batia mais com tanta intensidade.
Se acomodou, cantou vitória antes da hora. Cada passo era sagrado, sabia disso. Teu bastão trapaceou e seus ossos nunca foram tão frágeis como naquela hora.
Só bastou um sopro.
Uma brisa entrou por uma brecha feita na lona do circo, que foi aplaudida por uma senhora que agradeceu: "Graças a Deus, um ventin!". Ela entrou e atacou os pés da equilibrista.
Foi uma linha fora do lugar, uma gota no mar, o grão de areia, entre os trilhões que existem, indo diretamente nos olhos.
Desequilibrou.
As pupilas dilataram. Olhou pra baixo e viu uma rua, estava em pleno centro da cidade.
Caiu, assim sem porquê, sem razão. Só caiu.
Não tem que explicar nada. A perícia fez um interrogatório desnecessário, o uivo do público na hora do desiquilíbrio não valeu de nada, o bastão caiu. Tuas pernas, antes rígidas, amoleceram. A corda era só mais uma, o circo parecia um balão que quando alfinetado, explodia. Senti tua mão na minha.
As fraturas por todo seu corpo choravam e gritavam de dor, o ar secou. O pulmão secou. A língua atrofiou e nem saliva tinha mais. Os olhos não lubrificavam. A garganta arranhou e no mesmo sopro que bastou pra cair, se foi.
O corpo magrelo recebeu tudo o que ainda não tinha sentido e se foi. Se foi com seu sorriso na cabeça, não pude nem me despedir de você, não lembro a última vez que meus dedos entrelaçaram os seus.
E talvez seja exatamente por isso que minhas fraturas ainda ardem.
O circo ficou de luto por alguns dias e por vezes ainda perguntam pela menina do moletom azul.
Alguns juram que ela morreu com um sorriso no rosto, outros dizem que o sorriso estava só dentro da cabeça dela. Mas nem dela o sorriso era - como nunca minha você foi.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Trabalho de parto
Foi criada e gerada por mim. No meu ventre, eu alimentava e supria necessidades do que foi, carreguei por meses com um eterno prazer.
Num encaixe de quebra cabeça, eu te encaixava. Você sendo gerada criando formas admiradas por mim, se formando por dentro e por fora.
Meu organismo não era o responsável por tal fato, o amor era. Ele construía passo a passo detalhadamente, desde cada fio de cabelo até as digitais do seu pé.
Levava dentro de mim o que eu tinha, alimentava o que podia e segurava o quanto cabia nas mãos. A sensação das mãos cheias era como se existisse um pote de balas bem grande e me falassem que eu poderia pegar quantas quisesse, eu enfiava a mão e fazia uma pirâmide de balas transbordando em minhas mãos, pegava tudo o que podia. Agarrava. Trazia porque tinha sede.
Se foi por ter os olhos maiores que a barriga, não faço ideia, nada foi explicado. Tudo foi por sensações e por estas mesmas você me deixou. Saiu do meu ventre e minha dor foi realmente de um parto, sendo sincera foi um aborto.
Você corre e corre, não acha uma ponta de soluções. Por um lado estraga sua vida, por outro estragam sua vida. O corpo é meu, eu tenho essa decisão, mas ele era seu. Por mim, saberia o que fazer com ele e quando quisesse sair era só soltar o encaixe - como foi feito.
Sofri um aborto. Dos dolorosos que pode sentir rasgando por dentro, tirando parte por parte, pedaço por pedaço que foi construído com meu amor. Que foi carregado meses por mim.
Meses em vão, jogados ao vento. Caindo de precipícios.
As balas que eu colhi, por gula, despencaram pelos meus dedos. Indo uma por uma ao chão, cada bala que caia era um pedaço seu que saia de mim. Cada pedaço que saia era a dor de um aborto.
Confesso que não fiquei surpresa.
O vento já canta em outro ritmo, as batidas já não são tão fortes.
As roupas continuam rasgadas e sujas e a porta continua no trinco.
Num encaixe de quebra cabeça, eu te encaixava. Você sendo gerada criando formas admiradas por mim, se formando por dentro e por fora.
Meu organismo não era o responsável por tal fato, o amor era. Ele construía passo a passo detalhadamente, desde cada fio de cabelo até as digitais do seu pé.
Levava dentro de mim o que eu tinha, alimentava o que podia e segurava o quanto cabia nas mãos. A sensação das mãos cheias era como se existisse um pote de balas bem grande e me falassem que eu poderia pegar quantas quisesse, eu enfiava a mão e fazia uma pirâmide de balas transbordando em minhas mãos, pegava tudo o que podia. Agarrava. Trazia porque tinha sede.
Se foi por ter os olhos maiores que a barriga, não faço ideia, nada foi explicado. Tudo foi por sensações e por estas mesmas você me deixou. Saiu do meu ventre e minha dor foi realmente de um parto, sendo sincera foi um aborto.
Você corre e corre, não acha uma ponta de soluções. Por um lado estraga sua vida, por outro estragam sua vida. O corpo é meu, eu tenho essa decisão, mas ele era seu. Por mim, saberia o que fazer com ele e quando quisesse sair era só soltar o encaixe - como foi feito.
Sofri um aborto. Dos dolorosos que pode sentir rasgando por dentro, tirando parte por parte, pedaço por pedaço que foi construído com meu amor. Que foi carregado meses por mim.
Meses em vão, jogados ao vento. Caindo de precipícios.
As balas que eu colhi, por gula, despencaram pelos meus dedos. Indo uma por uma ao chão, cada bala que caia era um pedaço seu que saia de mim. Cada pedaço que saia era a dor de um aborto.
Confesso que não fiquei surpresa.
O vento já canta em outro ritmo, as batidas já não são tão fortes.
As roupas continuam rasgadas e sujas e a porta continua no trinco.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Tua pura lavanda
Sujar-se com alguém, ficar malvisto, proceder mal com outrem.
Eu preciso ficar suja, preciso enlamear tudo o que a todo custo colocaram em mim sem eu ao menos pedir. Sujar com as próprias mãos. Tragar um cigarro e saber que a fumaça vai entrar no meu corpo se impregnando por suas paredes, apagando o que me forçam a ser. Despedaçando as remendas e escolhendo nos dedos o meu verdadeiro eu.
Suja. Me dizem ser suja. Suja como aquela menina negrinha que você viu no sinal pedindo trocados desprezados por ti, mas que dão o pão de cada dia, na verdade de cada mês da garota. E você por puro bom julgador que é, resmungou "Coitadinha, suja como uma negrinha".
Pois então que sejamos sujos, imundos, mas não compartilharemos do seu perfume doce e de tua voz áspera. De áspero já basta o estrago que a nicotina vai fazer.
Que nos tornemos os sujismundos como os pedintes de rua, os ratos que enchem tua casa, sejamos a poeira incrustada em cada canto do teu quarto com cheiro de lavanda. Somos o óleo que cai do seu cabelo escorrido, o podre que há dentro de você, porque teu corpo por dentro cheira mal como de todos da sua raça - apodrece, desmancha, degenera, vira pó. Não vou ousar dizer que são iguais, pois assim seria obrigada a ouvir teu discurso chulo dando baforadas doces no meu rosto sujo e negrinho. Eu teria embrulhos no estômago por semanas. Teu ar deslumbrante e cobiçado pelos olhos da banca encostariam em mim, falando de suas classes e anseios, dizendo que cada um tem o que merece pois lutou por aquilo, ou seja, fez o árduo trabalho de nascer e se tornar desprezível.
A única coisa que eu faria seria repugnar, tontearia minha cabeça e começaria a ter um troço bem nos seus pés. Ainda sim não me tocaria porque sou imunda.
Embora acredite que todos tem o bom dentro de si, que o amor fale mais alto que sua voz fina. Não se torne, olhe pra dentro.
Quando finalmente eu me livrasse do enjôo, sairia pra fumar um cigarro ou até seria capaz de comer lama pro seu cheiro impecável sair dos meus póros. Você não me daria a mínima atenção, seguiria seus padrões voltando a se banhar de perfume. E eu continuaria "suja como uma negrinha".
Eu preciso ficar suja, preciso enlamear tudo o que a todo custo colocaram em mim sem eu ao menos pedir. Sujar com as próprias mãos. Tragar um cigarro e saber que a fumaça vai entrar no meu corpo se impregnando por suas paredes, apagando o que me forçam a ser. Despedaçando as remendas e escolhendo nos dedos o meu verdadeiro eu.
Suja. Me dizem ser suja. Suja como aquela menina negrinha que você viu no sinal pedindo trocados desprezados por ti, mas que dão o pão de cada dia, na verdade de cada mês da garota. E você por puro bom julgador que é, resmungou "Coitadinha, suja como uma negrinha".
Pois então que sejamos sujos, imundos, mas não compartilharemos do seu perfume doce e de tua voz áspera. De áspero já basta o estrago que a nicotina vai fazer.
Que nos tornemos os sujismundos como os pedintes de rua, os ratos que enchem tua casa, sejamos a poeira incrustada em cada canto do teu quarto com cheiro de lavanda. Somos o óleo que cai do seu cabelo escorrido, o podre que há dentro de você, porque teu corpo por dentro cheira mal como de todos da sua raça - apodrece, desmancha, degenera, vira pó. Não vou ousar dizer que são iguais, pois assim seria obrigada a ouvir teu discurso chulo dando baforadas doces no meu rosto sujo e negrinho. Eu teria embrulhos no estômago por semanas. Teu ar deslumbrante e cobiçado pelos olhos da banca encostariam em mim, falando de suas classes e anseios, dizendo que cada um tem o que merece pois lutou por aquilo, ou seja, fez o árduo trabalho de nascer e se tornar desprezível.
A única coisa que eu faria seria repugnar, tontearia minha cabeça e começaria a ter um troço bem nos seus pés. Ainda sim não me tocaria porque sou imunda.
Embora acredite que todos tem o bom dentro de si, que o amor fale mais alto que sua voz fina. Não se torne, olhe pra dentro.
Quando finalmente eu me livrasse do enjôo, sairia pra fumar um cigarro ou até seria capaz de comer lama pro seu cheiro impecável sair dos meus póros. Você não me daria a mínima atenção, seguiria seus padrões voltando a se banhar de perfume. E eu continuaria "suja como uma negrinha".
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Goles
Somos desconhecidos. Desconhecidos de mim, de você, soltos pelo mundo.
Ao tomar o primeiro gole bicando os lábios naquele líquido amargo, fomos obrigados a nos deixarmos ir. Ir de nós.
A vida seguia ligeira e conturbada, mas seguia. Ia cambaleando de mesa em mesa pedindo um isqueiro pra se fartar de tanta nicotina, afim de lhe subir à cabeça e ir levando de forma mais suportável. Se acostumando com seus desaventos por sempre bater na mesma tecla.
Estava abatida, exausta e tinha poucos trocados no bolso.
Teu rosto era de uma mulher, que quem era muito atento ao olhar, a via nua. Nua de todos os protótipos que exigiam a ela. Seguia uma voz que vinha de dentro, e pelo o que sei, nunca lhe faltara. Um dia chegou a me contar que era por vezes feliz, mas que se via melhor no escuro por não enxergar nada, no silêncio por ouvir o que seu corpo transmitia. Tuas batidas, respiração, o movimento que fazia repetidamente com a mão em torno do anel que levava no dedo. Era nua de tudo e, creio eu, seja por isso que eu ainda a tinha em mente.
Acontece que tem dias que se está descrente de tudo, daqueles que passa despercebido em meio uma poça d'água e ensopa os pés. Foi nesses que tudo desandou. Não digo que tenha sido fraqueza, porque desta só lhe aparentava ser física, tinha um gênio forte e não levava em conta seu corpo estar cansado ou não. Lhe digo talvez que tenha sido um amor, o que explica muita coisa.
Desandou e deu um nó. Dos difíceis de desabrochar.
Tudo começou com um gole. Parecia um gole de insensatez, de imprudência, absurdo. Mas era aliviador. Sumia com a dor dos seus ossos que muitas vezes não lhe deu a mínima importância, a dor do seu peso que carregava nas costas resultando sua coluna quebradiça, dor de órgãos vitais pra sua sobrevivência. Era realmente um daqueles remédios "faz tudo", dos deuses.
Vou narrar tudo como eu cheguei a ver, pois depois disso, eu que estive naquele quarto escuro ouvindo minhas batidas cardíacas, tomei sua dor.
Estava lá, passando despercebida por tudo. O que lhe encostava, ficava. Aonde deitava, dormia. Desajeitada do eterno perdão que nunca recebeu. Por não prestar atenção em nada o que acontecia, mergulhou no que estava mais próximo. Tomou seu primeiro gole.
Teus lábios eram ariscos e hábeis, como se fizessem aquilo desde os seus primeiros dias de vida. Eles tocaram a borda e, por gula, receberam com alívio mais e mais goles. Foi aí que se perdeu da vida que sempre levou, da mãe que sempre lhe dizia que tudo era errado, e se perdeu de mim pois já não sabia nem quem era ela mesma.
Me deixando solta no mundo, mas segurando minha mão pela última vez e dizendo "Cuida da minha dor, um dia volto pra buscar".
Como eu tentei dizer a umas linhas atrás, depois disso a vida seguiu, ligeira e conturbada, mas seguiu.
Ao tomar o primeiro gole bicando os lábios naquele líquido amargo, fomos obrigados a nos deixarmos ir. Ir de nós.
A vida seguia ligeira e conturbada, mas seguia. Ia cambaleando de mesa em mesa pedindo um isqueiro pra se fartar de tanta nicotina, afim de lhe subir à cabeça e ir levando de forma mais suportável. Se acostumando com seus desaventos por sempre bater na mesma tecla.
Estava abatida, exausta e tinha poucos trocados no bolso.
Teu rosto era de uma mulher, que quem era muito atento ao olhar, a via nua. Nua de todos os protótipos que exigiam a ela. Seguia uma voz que vinha de dentro, e pelo o que sei, nunca lhe faltara. Um dia chegou a me contar que era por vezes feliz, mas que se via melhor no escuro por não enxergar nada, no silêncio por ouvir o que seu corpo transmitia. Tuas batidas, respiração, o movimento que fazia repetidamente com a mão em torno do anel que levava no dedo. Era nua de tudo e, creio eu, seja por isso que eu ainda a tinha em mente.
Acontece que tem dias que se está descrente de tudo, daqueles que passa despercebido em meio uma poça d'água e ensopa os pés. Foi nesses que tudo desandou. Não digo que tenha sido fraqueza, porque desta só lhe aparentava ser física, tinha um gênio forte e não levava em conta seu corpo estar cansado ou não. Lhe digo talvez que tenha sido um amor, o que explica muita coisa.
Desandou e deu um nó. Dos difíceis de desabrochar.
Tudo começou com um gole. Parecia um gole de insensatez, de imprudência, absurdo. Mas era aliviador. Sumia com a dor dos seus ossos que muitas vezes não lhe deu a mínima importância, a dor do seu peso que carregava nas costas resultando sua coluna quebradiça, dor de órgãos vitais pra sua sobrevivência. Era realmente um daqueles remédios "faz tudo", dos deuses.
Vou narrar tudo como eu cheguei a ver, pois depois disso, eu que estive naquele quarto escuro ouvindo minhas batidas cardíacas, tomei sua dor.
Estava lá, passando despercebida por tudo. O que lhe encostava, ficava. Aonde deitava, dormia. Desajeitada do eterno perdão que nunca recebeu. Por não prestar atenção em nada o que acontecia, mergulhou no que estava mais próximo. Tomou seu primeiro gole.
Teus lábios eram ariscos e hábeis, como se fizessem aquilo desde os seus primeiros dias de vida. Eles tocaram a borda e, por gula, receberam com alívio mais e mais goles. Foi aí que se perdeu da vida que sempre levou, da mãe que sempre lhe dizia que tudo era errado, e se perdeu de mim pois já não sabia nem quem era ela mesma.
Me deixando solta no mundo, mas segurando minha mão pela última vez e dizendo "Cuida da minha dor, um dia volto pra buscar".
Como eu tentei dizer a umas linhas atrás, depois disso a vida seguiu, ligeira e conturbada, mas seguiu.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Garçom, traz a conta, por favor.
No final quando vamos acertar as contas, descubro que devo demais. Quando se é deixado pra trás uma vez, pega-se trauma e isso me faz entrar pra dentro de mim.
Fechada.
Puxo a cadeira pra você sentar. Eu sento à mesa e me estico pra ajeitar teu cabelo. Não passa de uma refeição pra matar o gelo, ficaremos imóveis até alguém aparecer com nossos pratos. Não sei se isso se deve pela ligação, que é grande, ou pelo simples fato de tudo ter sido tão depressa que quando os olhares se cruzaram, minhas pupilas colocaram todo o meu eu dentro de ti, e vice versa. Finalmente o silêncio sufocador se quebrou, chegou um homem servindo nossos pratos. Comíamos rapidamente, talvez pela eterna falta do que falar. Você acabou, se limpou com um guardanapo, foi se esticando por cima da mesa me dando um beijo, puxou tua cadeira e saiu. Eu mal tinha acabado de comer, e quando me dei conta você já estava virando a esquina.
Virando a esquina da nossa página, a ponta dela. Colocou um teco de saliva nos dedos e empurrou o papel por fome de ler o que estava por vir.
Chamei o garçom e pedi a conta. A vontade de explodir era imensa, por pura falta do que eu dizia ser "sensível". Depois fui nomeando isso de outras formas: "Ser intenso", "É o signo que não bate". Fui fazendo um levantamento de tudo o que eu deveria ter feito pra não ter sido assim, só pra jogar a culpa em alguém. Foi aí que chegou a conta. Haviam dezenas de números, quatro casas.
Abri minha carteira e vi que não tinha tudo aquilo, o garçom percebendo toda minha euforia me disse pra não me preocupar - já haviam pago a minha conta uns minutos antes. De tão atordoada, apenas fiz que sim com a cabeça e sai.
E então eu te procurei, mas assim que te vi lembrei do nosso eterno silêncio. Recuei.
Talvez pela ligação que tínhamos feito antes, você me sentiu. Colocou teus olhos em mim e eu pude te sentir também. Pele com pele, uma empurrando a outra.
Até que cortou nosso olhar. Em seu auge, como sempre, me deu um beijo e saiu.
Desde então, lhe devo um acerto de contas.
Fechada.
Puxo a cadeira pra você sentar. Eu sento à mesa e me estico pra ajeitar teu cabelo. Não passa de uma refeição pra matar o gelo, ficaremos imóveis até alguém aparecer com nossos pratos. Não sei se isso se deve pela ligação, que é grande, ou pelo simples fato de tudo ter sido tão depressa que quando os olhares se cruzaram, minhas pupilas colocaram todo o meu eu dentro de ti, e vice versa. Finalmente o silêncio sufocador se quebrou, chegou um homem servindo nossos pratos. Comíamos rapidamente, talvez pela eterna falta do que falar. Você acabou, se limpou com um guardanapo, foi se esticando por cima da mesa me dando um beijo, puxou tua cadeira e saiu. Eu mal tinha acabado de comer, e quando me dei conta você já estava virando a esquina.
Virando a esquina da nossa página, a ponta dela. Colocou um teco de saliva nos dedos e empurrou o papel por fome de ler o que estava por vir.
Chamei o garçom e pedi a conta. A vontade de explodir era imensa, por pura falta do que eu dizia ser "sensível". Depois fui nomeando isso de outras formas: "Ser intenso", "É o signo que não bate". Fui fazendo um levantamento de tudo o que eu deveria ter feito pra não ter sido assim, só pra jogar a culpa em alguém. Foi aí que chegou a conta. Haviam dezenas de números, quatro casas.
Abri minha carteira e vi que não tinha tudo aquilo, o garçom percebendo toda minha euforia me disse pra não me preocupar - já haviam pago a minha conta uns minutos antes. De tão atordoada, apenas fiz que sim com a cabeça e sai.
E então eu te procurei, mas assim que te vi lembrei do nosso eterno silêncio. Recuei.
Talvez pela ligação que tínhamos feito antes, você me sentiu. Colocou teus olhos em mim e eu pude te sentir também. Pele com pele, uma empurrando a outra.
Até que cortou nosso olhar. Em seu auge, como sempre, me deu um beijo e saiu.
Desde então, lhe devo um acerto de contas.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Pés, mãos e portas.
São fotografias que se repetem sempre em todas minhas fases, só mudam os personagens. Um deles possui pés, que andam por aí tropeçando pela vida e de doloridos param pra repousar nas mãos de outro.
Mãos que se fecham do dia pra noite, sem previsão como a lua, mas se forçar o olhar consegue mira-las por meio de nuvens finas, forrando um tamanho lençol azul.
Lençol que tantas vezes me deitei te exigindo, querendo o que nem eu sabia o que era.
Quantas vezes me peguei olhando esse lençol e chamando por você? Inúmeras.
"Que o vento leve meu nome..." Pois eu mesma já levei tantas vezes, abria minha porta e te chamava pra entrar. Até o dia que você não entrou e eu fiquei atrás da porta fazendo súplicas pra campainha tocar de novo, tinha certeza que você ficou do outro lado ouvindo meus suspiros, mas não se rendeu e muito menos bateu na porta.
Saiba que todos os dias ao mesmo horário eu a deixava no trinco, colocava uma música e esperava você chegar. Perdi as contas das vezes que cochilei na cadeira.
Se eu fechar, estarei fechando na minha própria cara. Daquelas vezes que batem com tanta força que os cabelos chegam a pular pra trás.
Vou estar fugindo de mim.
É uma vontade que custam suprir, não faço a mínima do que você tem. Mas você tem.
O tempo já passou e meus pés já ficaram nas mãos de algumas que envergonhadas diziam:
- Posso entrar?
- Fique a vontade.
Mas a porta ainda continua no trinco, no mesmo horário, no mesmo lugar.
Mãos que se fecham do dia pra noite, sem previsão como a lua, mas se forçar o olhar consegue mira-las por meio de nuvens finas, forrando um tamanho lençol azul.
Lençol que tantas vezes me deitei te exigindo, querendo o que nem eu sabia o que era.
Quantas vezes me peguei olhando esse lençol e chamando por você? Inúmeras.
"Que o vento leve meu nome..." Pois eu mesma já levei tantas vezes, abria minha porta e te chamava pra entrar. Até o dia que você não entrou e eu fiquei atrás da porta fazendo súplicas pra campainha tocar de novo, tinha certeza que você ficou do outro lado ouvindo meus suspiros, mas não se rendeu e muito menos bateu na porta.
Saiba que todos os dias ao mesmo horário eu a deixava no trinco, colocava uma música e esperava você chegar. Perdi as contas das vezes que cochilei na cadeira.
Se eu fechar, estarei fechando na minha própria cara. Daquelas vezes que batem com tanta força que os cabelos chegam a pular pra trás.
Vou estar fugindo de mim.
É uma vontade que custam suprir, não faço a mínima do que você tem. Mas você tem.
O tempo já passou e meus pés já ficaram nas mãos de algumas que envergonhadas diziam:
- Posso entrar?
- Fique a vontade.
Mas a porta ainda continua no trinco, no mesmo horário, no mesmo lugar.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Auto
Talvez eu siga todos os roteiros em que me coloquei. Talvez eu seja tudo o que pensei por tentar encontrar explicações sensatas, ser.
Por tanto tempo me fechei, como um broto que não desabrochava por mais que todas as estações se passassem, na intenção de tentar entender tudo o que me acontecia.
Um dia li em algum lugar que permanecer com a cabeça tão vazia e quieta, nos deixa por produzir pensamentos desnecessários. Tendo valor o famoso "mente vazia é oficina do diabo". Blasfêmia?
Acontece que por estar tão alta, eu tentava a todo custo colocar a culpa em tudo o que me parecia válido. Então, agora, eu chego no fim do túnel e me arrebento.
Como alguém pode ter o mínimo de culpa por tudo isso? Logo eu, que sempre me disse deixar sentir. Tola.
É sem pensar mesmo, embora eu tenha o motivo de encontrar explicações na tentativa de ainda te segurar pelos braços. Mas que seja assim, se rendendo, se entregando, doando ossos e espírito.
Ulisses, cadê você?
Por tanto tempo me fechei, como um broto que não desabrochava por mais que todas as estações se passassem, na intenção de tentar entender tudo o que me acontecia.
Um dia li em algum lugar que permanecer com a cabeça tão vazia e quieta, nos deixa por produzir pensamentos desnecessários. Tendo valor o famoso "mente vazia é oficina do diabo". Blasfêmia?
Acontece que por estar tão alta, eu tentava a todo custo colocar a culpa em tudo o que me parecia válido. Então, agora, eu chego no fim do túnel e me arrebento.
Como alguém pode ter o mínimo de culpa por tudo isso? Logo eu, que sempre me disse deixar sentir. Tola.
É sem pensar mesmo, embora eu tenha o motivo de encontrar explicações na tentativa de ainda te segurar pelos braços. Mas que seja assim, se rendendo, se entregando, doando ossos e espírito.
Ulisses, cadê você?
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