Foi criada e gerada por mim. No meu ventre, eu alimentava e supria necessidades do que foi, carreguei por meses com um eterno prazer.
Num encaixe de quebra cabeça, eu te encaixava. Você sendo gerada criando formas admiradas por mim, se formando por dentro e por fora.
Meu organismo não era o responsável por tal fato, o amor era. Ele construía passo a passo detalhadamente, desde cada fio de cabelo até as digitais do seu pé.
Levava dentro de mim o que eu tinha, alimentava o que podia e segurava o quanto cabia nas mãos. A sensação das mãos cheias era como se existisse um pote de balas bem grande e me falassem que eu poderia pegar quantas quisesse, eu enfiava a mão e fazia uma pirâmide de balas transbordando em minhas mãos, pegava tudo o que podia. Agarrava. Trazia porque tinha sede.
Se foi por ter os olhos maiores que a barriga, não faço ideia, nada foi explicado. Tudo foi por sensações e por estas mesmas você me deixou. Saiu do meu ventre e minha dor foi realmente de um parto, sendo sincera foi um aborto.
Você corre e corre, não acha uma ponta de soluções. Por um lado estraga sua vida, por outro estragam sua vida. O corpo é meu, eu tenho essa decisão, mas ele era seu. Por mim, saberia o que fazer com ele e quando quisesse sair era só soltar o encaixe - como foi feito.
Sofri um aborto. Dos dolorosos que pode sentir rasgando por dentro, tirando parte por parte, pedaço por pedaço que foi construído com meu amor. Que foi carregado meses por mim.
Meses em vão, jogados ao vento. Caindo de precipícios.
As balas que eu colhi, por gula, despencaram pelos meus dedos. Indo uma por uma ao chão, cada bala que caia era um pedaço seu que saia de mim. Cada pedaço que saia era a dor de um aborto.
Confesso que não fiquei surpresa.
O vento já canta em outro ritmo, as batidas já não são tão fortes.
As roupas continuam rasgadas e sujas e a porta continua no trinco.
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