domingo, 5 de agosto de 2012

Um leão por dia

Vinha de uma família tradicional, perdeu seus pais muito cedo e isso só foi um impulso para alavancar sua carreira. Percebeu que no mundo era sempre você por você mesmo.
Levava a vida sem grandes emoções, embora fosse casado e tivesse uma filha. Perdeu o contato com sua esposa fazia anos e tinha o casamento apenas como fachada, para preservar a filha e os desagradáveis rumores que viriam caso houvesse divórcio. Pra ele estava tudo bem se ao chegar em casa não falasse com ninguém, se sua esposa saísse com outros homens, se não conseguia lembrar a última vez que sorriu sem grandes motivos. Estava "vivo", embora só fisicamente. Mas precisava de algo mais? Faz favor, ele já tinha um corpo.
Sua esposa tinha casos esporádicos com outros homens, não era uma vida que esperava pra ela, mas era uma maneira de se manter viva. De chegar em casa e suportar o olhar morto do marido sem preocupações. No começo, até tentou salvar a alma perdida. Lhe dizia para ao invés de só trabalhar, para que fizesse um esporte, começasse a tocar um instrumento ou até mesmo furasse alguma noite no bar da esquina. A resposta era sempre a mesma: "Já tenho tudo o que preciso" - resmungava com um ar cansado e cômodo. Ele achava mais fácil esquecer e deixar pra outro dia. O caminho mais fácil é sempre o melhor, a vida já é complicada demais por si só, pensava. E talvez esse fosse seu pensamento mais sensato.
Foi então que numa tarde de março seu despertador não tocou, falhando com sua impecável rotina. Acordou alguns minutos mais tarde, e quando olhou pro relógio, deu um pulo da cama. Tinha uma reunião importante daqui há uma hora.
Dirigia com extrema rapidez no caminho pro trabalho e se quer notou quando foi fazer um cruzamento. Bateu diretamente em um táxi, cujo pegou com tudo na porta do motorista. Havia estilhaços de vidro por todas as partes e uma multidão se formou ao redor do acidente.
Suas pernas ficaram presas em meio as ferragens, o que preocupou o médico e sua família. Sem contar no trabalho árduo dos bombeiros para que não houvessem maiores danos. Pois houveram. Tirando a pancada nas pernas, ele teria sofrido uma colisão com a medula e provavelmente não voltaria muito cedo a andar.
Sua esposa, em consideração, acompanhara o marido em seus meses de recuperação. Mas já queria pedir o divórcio havia anos, e agora mais do que nunca, não queria um inválido pra tirar o pouco traço de vida que tinha. A filha nunca teve muito contato com o pai, a não ser pelas contas que eram pagas por ele no começo do mês. O resto de sua família estava em uma cidade do interior, pois depois que seus pais morreram, ele não via mais motivos pra continuar lá.
Assim foi se vendo aos poucos sem nada. Perdeu o movimento das pernas, sua esposa, filha e já não se tinha há muito tempo.
Tinha a cara fechada para conseguir viver num mundo de mágoas.
Não arriscava em nada por medo de sofrer um décimo do que sentiu quando perdeu seus pais. A vida era lenta. Lenta ele observava e conseguia calcular para onde iria seu próximo passo. Não acreditava na vida, no amor e dizia que o acaso já foi previsto pelo outro. Alguns acreditavam que ele era a pessoa mais amarga que conheciam, outros poucos se deixavam pensar se algum dia já foi compreendido ou deixou ser.
Se ele ainda tinha alguma coisa ou sentia, era só uma dor que não sabia da onde vinha e nem pra onde ia. Julgava sua vida como sendo um fracasso.
Não tinha razão nenhuma pra continuar e já se julgava velho demais pra procurar algum resquício de vida na rua. A única coisa que fazia era colocar sua cabeça no meio dos joelhos e usar de toda dor que sentia. Se perguntava aonde teria arriscado pra sentir tanta dor - foi então que se viu completamente jogado aos riscos. A vida embalava suas pernas estáticas, sua dura alma e completamente seu ser.
Até agora teria brincado com a vida e ela lhe deu outra ferida.
Não tinha um alguém se quer que poderia ligar e dizer que amava, que precisava. Outra vez percebeu que no mundo é sempre você por você mesmo - e como doía pensar nisso de novo. E como dói acreditar nisso. E como se lamentava.
Passava seus dias deitado em uma cama com cheiro de amaciante, porque a enfermeira contratada lavava os lençóis a cada uma semana. Ela o virava na cama pra não causar nenhuma necrosação em seu corpo e também enchia seus pés de creme na hora de dormir. Os únicos contatos humanos que tinha era com ela e seu fisioterapeuta, que via duas vezes na semana. Em uma noite, após a enfermeira passar creme em seus pés, sentiu uma brisa de ar entrar pela janela e pôde notar que devido ao creme, seus pés ficaram frios. Era a primeira vez em meses que tinha alguma sensação da cintura pra baixo.
Na mesma semana contou ao fisioterapeuta e com o passar de alguns meses, estava dando seus primeiros passos.
Cada passo era um risco. De cair, das pernas falharem, de suas emoções (agora sentidas) não suportarem tal fardo.
Foi aí que arriscou, foi aí que viveu... Foi aí que o mundo se tornou todas pessoas por você mesmo.
Entrelaçou sua vida. Lançou sua alma. Sorria pelos tropeços que dava, por às vezes suas pernas perderem as sensações, pois assim lembrava que a cada passo estava arriscando.

Nenhum comentário:

Postar um comentário