segunda-feira, 16 de julho de 2012

Quatro mãos

O perfume era do que eu mais lembrava. Nada nessa época era branco, me transmitia sempre outras cores. Como as luzes que acendem toda noite. Posso dizer que as sentia dentro de mim, já que este era um lugar em que me encontrava, embora não estivesse apreciando muito.
Dentro de mim, eu me desgastava. Até perceber que no mesmo lugar estava, então soltava um suspiro e deixava ir.
Depois disso eu não só deixei a dor partir, deixei a vida também. E o que eu podia fazer se a vida só passava por mim? Se as luzes de toda noite apagaram? Eu sabia que precisava de alguém que me fizesse reaprender a continuar, esperava que tal coisa partisse de mim, mas percebi que sozinho não dá pra viver aqui.
Não significava o fim da minha vida, muito menos a perda da vontade de olhar pra alguém, de sentir alguém. Só significava que eu me encontrava mais lenta. Fixa. Pouco me indignava se o céu estava cinza e da minha janela eu só via nuvens. No meu quarto qualquer feixe de luz me incomodava. Roupas apertadas me incomodavam. E barulhos. Eu só queria uma canção calma que representasse fielmente seu perfume saindo de mim finalmente. Nada me afligia, nem me acalmava. Só estava contemplando sua ida (e meu vazio).
Também não digo que por conta disso tenha desacreditado no céu, nem que a chuva consiga lavar a alma. Eu só queria o meu tempo e teu resto de perfume.
Me orgulho por não ter sido algo que tenha me passado despercebido ou indolor, você também devia ter orgulho disso. Também me orgulho por ter amado com todo meu coração e de todas formas que consegui. Não economizei na alma, não me cerquei. Só amei. Como eu realmente acho que tem que se amar.
Até que me desvencilhei do meu tormento, e quando comecei a sentir o vento realmente bater na minha face, pude perfeitamente perceber que ao voltar pra casa todas as luzes se encontrariam acesas. O latido do cachorro do vizinho não iria incomodar, eu limparia a janela pra amenizar o esbranquiçado das nuvens e quem sabe até colaria umas gravuras. Vi o céu mesclar um arco-íris de cores no fim da tarde e nada me chamou mais a atenção.
Eu estava sentindo e não era o seu perfume.
Podia agora ver os traços puros de outros e talvez me tocariam tanto quanto quando foi contigo.
Me encontrei inventando dezenas de paixões pra que não voltasse ao escuro. Vivendo o desejo e não mais minha alma. Eram mãos que afastavam os pensamentos, descobri enfim. Ampliava o vazio, embora evitasse comparações, por não conseguirem limpar toda a bagunça que fiz dentro de mim. Mas estava seguindo, aos poucos eu só percebia que devia me restar paciência.
Foi exatamente assim que me vi, finalmente, branca. Não mais rígida e fixa. Só leve. Não te procurava mais e nem esperava te achar. Eu só estava seguindo meu fluxo. E então, você me vem com uma rosa no coração pra mim. Despedaçando todos os meus anseios e preocupações. No mesmo suspiro, eu solto, e deixo ir.
Agora conversamos sobre a vida, diante de quatro mãos dividindo diferentes batidas de coração em uma noite.

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