A brasa ia queimando e eu arrumava minhas poucas trocas de roupa tão lentamente que elas iam se encaixando perfeitamente dentro de uma bolsa velha.
Suja, rasgada, despedaçada... Aos trapos.
A brasa continuava queimando e embora todas as minhas roupas já estivessem alinhadas, a desalinhada era eu. A desalinhada de toda a história.
Meu pulmão não lembrava de se encher aquelas típicas duas vezes antes de pegar o trem que não daria pra sua casa. Eu só desalinhava meu caminho por ser tão segura.
O final de brasa se foi e restou só um bocado de cinzas que por vezes costumam entupir minhas narinas, fazendo eu não sentir nem o cheiro dos meus dedos. Cheiro só o cinza tentando sugar, não somente os dedos, mas o mundo.
Puxo o ar dentro do travesseiro esperando sentir os sonhos e acabo por sentir o cinza. A comida da vizinha não me saliva mais a boca. O vento não passa de algo que me dá frio.
A brasa já tinha ido e eu continuava esperando por uma intervenção divina.
Diga e faça o que for, mas me faça ficar.
Esse era o exato momento que o cinza podia se desmanchar e um sinal de vida poderia me ocorrer. Um adeus não é esse bicho de sete cabeças, é até confortável se você quer saber. Mostra um gesto de partida mas de volta ao mesmo tempo, você diz um adeus olhando nos olhos e percebendo que aquele olhar vai ser o único até o adeus virar um "Olá, como foi de viagem?".
A gaita continuou com suas notas graves e eu só conseguia pensar no meu nome sendo chamado de longe, abafado pelo meu corpo instantaneamente sendo virado. E o coração pulsando em milhares de milhas daqui.
Meus cílios se casavam para que ao menos dentro de mim o cinza não tenha se apoderado.
Já não é do meu interesse compreender o que ainda faço com cada brasa que é acendida, agora num intervalo de tempo menor. Minha constante saída dos trilhos desarma qualquer entendimento. Só observei, no escuro, seus lances de luz mostrarem os riscos das minhas mãos tão nitidamente que arrisco escrever talvez ter visto tudo nelas impregnado.
Quando sinto, o cinza já levou.
Ao finalmente me achar, não sei nem mais meu nome.
Meus cílios se casam e a última brasa eu apago.
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