Armei as velas.
Então só faltava uma rajada de ar pro barco partir, daquelas que levam e lavam a alma.
Daquelas que entram. Daquelas que tiram sua carcaça e deixam só o que consegue segurar em si. Daquelas que são. Daquelas que ficam. Que batem bem no rosto.
O barco se foi, e eu ainda me deliciava da brisa que tinha impulsionado as velas. Percebi, pelo barulho das ondas batendo no casco, que ele já tinha sido entregue à maresia.
O vento parou, o que se segurou em mim travou, a ficha não caiu e o único movimento que o mundo parecia ter, era de um barco se afastando do porto, com diversas ondas se propagando ao seu redor. Segurei o ar, assim como tudo que estava no meu interior.
Prendi todos no meu corpo para nenhuma fagulha do que eu ainda sentia ir junto ao barco, pra ser minha - meu, meu, minha, minha, meu, minha. Um egoísmo de guardar o mundo por dentro, já que agora estava vazia. As ondas pertenciam ao meu corpo e por dentro eu era uma tempestade. Um turbilhão.
O barulho da água no casco formava uma melodia leve e sincronizada.
E agora eu não mais conseguia ver os detalhes das ranhuras de madeira em torno do barco... Agora ele tinha a metade do tamanho... Agora era só um pontinho no mar.
Eu continuava explodindo, totalmente imóvel, esperando não partir assim como fez o barco.
Não tive noção do tempo, de mim, do sol que já estava se pondo... Ainda tinha o ar preso e se não recebesse um tapa nas costas seria capaz de não soltá-lo.
Continuei olhando bem no finalzinho do horizonte e não havia mais sinal do barco. Só assim soltei todo o ar, todas as ondas, barulhos, dizeres... Inclusive aquela luz vinho que nos cercava.
Nenhum comentário:
Postar um comentário