terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Tua pura lavanda

Sujar-se com alguém, ficar malvisto, proceder mal com outrem.

Eu preciso ficar suja, preciso enlamear tudo o que a todo custo colocaram em mim sem eu ao menos pedir. Sujar com as próprias mãos. Tragar um cigarro e saber que a fumaça vai entrar no meu corpo se impregnando por suas paredes, apagando o que me forçam a ser. Despedaçando as remendas e escolhendo nos dedos o meu verdadeiro eu.
Suja. Me dizem ser suja. Suja como aquela menina negrinha que você viu no sinal pedindo trocados desprezados por ti, mas que dão o pão de cada dia, na verdade de cada mês da garota. E você por puro bom julgador que é, resmungou "Coitadinha, suja como uma negrinha".
Pois então que sejamos sujos, imundos, mas não compartilharemos do seu perfume doce e de tua voz áspera. De áspero já basta o estrago que a nicotina vai fazer.
Que nos tornemos os sujismundos como os pedintes de rua, os ratos que enchem tua casa, sejamos a poeira incrustada em cada canto do teu quarto com cheiro de lavanda. Somos o óleo que cai do seu cabelo escorrido, o podre que há dentro de você, porque teu corpo por dentro cheira mal como de todos da sua raça - apodrece, desmancha, degenera, vira pó. Não vou ousar dizer que são iguais, pois assim seria obrigada a ouvir teu discurso chulo dando baforadas doces no meu rosto sujo e negrinho. Eu teria embrulhos no estômago por semanas. Teu ar deslumbrante e cobiçado pelos olhos da banca encostariam em mim, falando de suas classes e anseios, dizendo que cada um tem o que merece pois lutou por aquilo, ou seja, fez o árduo trabalho de nascer e se tornar desprezível.
A única coisa que eu faria seria repugnar, tontearia minha cabeça e começaria a ter um troço bem nos seus pés. Ainda sim não me tocaria porque sou imunda.
Embora acredite que todos tem o bom dentro de si, que o amor fale mais alto que sua voz fina. Não se torne, olhe pra dentro.
Quando finalmente eu me livrasse do enjôo, sairia pra fumar um cigarro ou até seria capaz de comer lama pro seu cheiro impecável sair dos meus póros. Você não me daria a mínima atenção, seguiria seus padrões voltando a se banhar de perfume. E eu continuaria "suja como uma negrinha".

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