Somos desconhecidos. Desconhecidos de mim, de você, soltos pelo mundo.
Ao tomar o primeiro gole bicando os lábios naquele líquido amargo, fomos obrigados a nos deixarmos ir. Ir de nós.
A vida seguia ligeira e conturbada, mas seguia. Ia cambaleando de mesa em mesa pedindo um isqueiro pra se fartar de tanta nicotina, afim de lhe subir à cabeça e ir levando de forma mais suportável. Se acostumando com seus desaventos por sempre bater na mesma tecla.
Estava abatida, exausta e tinha poucos trocados no bolso.
Teu rosto era de uma mulher, que quem era muito atento ao olhar, a via nua. Nua de todos os protótipos que exigiam a ela. Seguia uma voz que vinha de dentro, e pelo o que sei, nunca lhe faltara. Um dia chegou a me contar que era por vezes feliz, mas que se via melhor no escuro por não enxergar nada, no silêncio por ouvir o que seu corpo transmitia. Tuas batidas, respiração, o movimento que fazia repetidamente com a mão em torno do anel que levava no dedo. Era nua de tudo e, creio eu, seja por isso que eu ainda a tinha em mente.
Acontece que tem dias que se está descrente de tudo, daqueles que passa despercebido em meio uma poça d'água e ensopa os pés. Foi nesses que tudo desandou. Não digo que tenha sido fraqueza, porque desta só lhe aparentava ser física, tinha um gênio forte e não levava em conta seu corpo estar cansado ou não. Lhe digo talvez que tenha sido um amor, o que explica muita coisa.
Desandou e deu um nó. Dos difíceis de desabrochar.
Tudo começou com um gole. Parecia um gole de insensatez, de imprudência, absurdo. Mas era aliviador. Sumia com a dor dos seus ossos que muitas vezes não lhe deu a mínima importância, a dor do seu peso que carregava nas costas resultando sua coluna quebradiça, dor de órgãos vitais pra sua sobrevivência. Era realmente um daqueles remédios "faz tudo", dos deuses.
Vou narrar tudo como eu cheguei a ver, pois depois disso, eu que estive naquele quarto escuro ouvindo minhas batidas cardíacas, tomei sua dor.
Estava lá, passando despercebida por tudo. O que lhe encostava, ficava. Aonde deitava, dormia. Desajeitada do eterno perdão que nunca recebeu. Por não prestar atenção em nada o que acontecia, mergulhou no que estava mais próximo. Tomou seu primeiro gole.
Teus lábios eram ariscos e hábeis, como se fizessem aquilo desde os seus primeiros dias de vida. Eles tocaram a borda e, por gula, receberam com alívio mais e mais goles. Foi aí que se perdeu da vida que sempre levou, da mãe que sempre lhe dizia que tudo era errado, e se perdeu de mim pois já não sabia nem quem era ela mesma.
Me deixando solta no mundo, mas segurando minha mão pela última vez e dizendo "Cuida da minha dor, um dia volto pra buscar".
Como eu tentei dizer a umas linhas atrás, depois disso a vida seguiu, ligeira e conturbada, mas seguiu.
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