A íris castanha se transformava num sol fim de tarde explodindo de cor.
A pupila dilatava e nós ríamos.
As cobertas caíam, o colchão se esbugalhava no chão pela nossa tara... E nós ríamos.
Eu me escondia dentro do armário enquanto você tocava um teclado entre meus risos abafados.
Ia teclando o que suas mãos mandavam, teclava o que eu conseguia causar dentro de você. Confesso, em modéstia parte, estar sendo uma melodia agradável.
Nos olhávamos pelas vidraças embaçadas aonde só conseguíamos ver suas mãos ao meu redor e também nossos cabelos esvoaçados.
As mãos nem se tocavam. Nós não nos tocávamos, íamos encostando uma pele na outra no mais superficial possível porque gostávamos de causar arrepios. Era tudo tão puro pra mim.
Nós éramos sempre um final de tarde ou um nascer de sol.
Éramos sempre um afogar no que não sabíamos.
O não tocar no chão voando em si mesmo.
Nunca éramos o começo ou o final das coisas, e sim o meio em que se aproveita até o último pedaço. Por falar em pedaço, posso escrever que éramos o recheio doce que se guarda pro final.
Nós éramos como essas pinturas com muitas cores jogadas na tela. Éramos a emoção do pintor, as tintas, o que cada um sentiu quando viu a obra.
A textura, o relevo, o gosto, os cheiros... As sensações.
Os três pontos, as vírgulas.
Nós éramos os gritos não dados e os dados também, éramos dor e amor.
Suspiros e o arder da pele.
Éramos o ápice de cada emoção, mas por vezes éramos o fundo do poço delas.
Posso dizer que éramos o sentimento do mundo, nós vivemos.
Não sei bem explicar o que sentíamos, mas afirmo que toda vez que andar pelas ruas e sentir algo pleno de bambear as pernas, direi que éramos nós.
Enquanto eu sentir o ar dançar pelo meu rosto, os agudos graves que me embalam... Eu direi que se tratava do que nós éramos.
Nós éramos tudo e ninguém sabia quem nós éramos, nem nós mesmas.
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