No final quando vamos acertar as contas, descubro que devo demais. Quando se é deixado pra trás uma vez, pega-se trauma e isso me faz entrar pra dentro de mim.
Fechada.
Puxo a cadeira pra você sentar. Eu sento à mesa e me estico pra ajeitar teu cabelo. Não passa de uma refeição pra matar o gelo, ficaremos imóveis até alguém aparecer com nossos pratos. Não sei se isso se deve pela ligação, que é grande, ou pelo simples fato de tudo ter sido tão depressa que quando os olhares se cruzaram, minhas pupilas colocaram todo o meu eu dentro de ti, e vice versa. Finalmente o silêncio sufocador se quebrou, chegou um homem servindo nossos pratos. Comíamos rapidamente, talvez pela eterna falta do que falar. Você acabou, se limpou com um guardanapo, foi se esticando por cima da mesa me dando um beijo, puxou tua cadeira e saiu. Eu mal tinha acabado de comer, e quando me dei conta você já estava virando a esquina.
Virando a esquina da nossa página, a ponta dela. Colocou um teco de saliva nos dedos e empurrou o papel por fome de ler o que estava por vir.
Chamei o garçom e pedi a conta. A vontade de explodir era imensa, por pura falta do que eu dizia ser "sensível". Depois fui nomeando isso de outras formas: "Ser intenso", "É o signo que não bate". Fui fazendo um levantamento de tudo o que eu deveria ter feito pra não ter sido assim, só pra jogar a culpa em alguém. Foi aí que chegou a conta. Haviam dezenas de números, quatro casas.
Abri minha carteira e vi que não tinha tudo aquilo, o garçom percebendo toda minha euforia me disse pra não me preocupar - já haviam pago a minha conta uns minutos antes. De tão atordoada, apenas fiz que sim com a cabeça e sai.
E então eu te procurei, mas assim que te vi lembrei do nosso eterno silêncio. Recuei.
Talvez pela ligação que tínhamos feito antes, você me sentiu. Colocou teus olhos em mim e eu pude te sentir também. Pele com pele, uma empurrando a outra.
Até que cortou nosso olhar. Em seu auge, como sempre, me deu um beijo e saiu.
Desde então, lhe devo um acerto de contas.
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