se me coloco nua ao lado de quem quer que seja
peço, encarecidamente, o desligar das análises
o verbo intimidado é o interno
que reverbera pelos corpos
se me coloco nua ao lado
esteja nu
me aceite nua
se aceite nu
de conceitos
de caminhos
de defeitos
de trejeitos
por fim, de roupa
sábado, 31 de outubro de 2015
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Valentina.
Faço da minha vida
uma dança das estrelas
que brilham na minha porta
do mar salgado protetor da criação
e guardião da fluidez
da terra que trás ao chão
onde firma os pés às raízes
do ar que venta meu rosto
sacode meus olhos
balança meus quadris
Eu sou vendaval que redemoinha o fogo da alma
Sou o fogo da explosão de super novas
Eu sou o meteorito que vaga
solitário pelo céu
e pousa nas pedreiras
Onde houver o caracol de vento que circunda o mar,
me faço tempestade
Ouço marinheiros do cais apelando às águas sua morte verde-azulada numa só voz: "É doce morrer no mar". Eles dizem.
Não existe linha que separe o céu da terra
A lua do mar
O fogo do ar
Num convite, saúdo: a dança da vida.
04 de agosto, 2015
uma dança das estrelas
que brilham na minha porta
do mar salgado protetor da criação
e guardião da fluidez
da terra que trás ao chão
onde firma os pés às raízes
do ar que venta meu rosto
sacode meus olhos
balança meus quadris
Eu sou vendaval que redemoinha o fogo da alma
Sou o fogo da explosão de super novas
Eu sou o meteorito que vaga
solitário pelo céu
e pousa nas pedreiras
Onde houver o caracol de vento que circunda o mar,
me faço tempestade
Ouço marinheiros do cais apelando às águas sua morte verde-azulada numa só voz: "É doce morrer no mar". Eles dizem.
Não existe linha que separe o céu da terra
A lua do mar
O fogo do ar
Num convite, saúdo: a dança da vida.
04 de agosto, 2015
Mãe que embala meus vestidos
fazendo os rodar sob meus pés
que pisam sua terra.
Mãe, tu que montas os lenços na minha cabeça
pra guardar meus cabelos
e trazer sua vida.
Mãe que de manhã sussurra
em meus ouvidos
os cantos do dia.
Mãe, sou ligada a tudo o que tu dais o sabor da vida.
A tudo que, com teu toque, faz florescer.
Sou ligada a ti pelo óleo chamado amor que roda as engrenagens do meu coração.
abril, 2015.
fazendo os rodar sob meus pés
que pisam sua terra.
Mãe, tu que montas os lenços na minha cabeça
pra guardar meus cabelos
e trazer sua vida.
Mãe que de manhã sussurra
em meus ouvidos
os cantos do dia.
Mãe, sou ligada a tudo o que tu dais o sabor da vida.
A tudo que, com teu toque, faz florescer.
Sou ligada a ti pelo óleo chamado amor que roda as engrenagens do meu coração.
abril, 2015.
Você guia sua vida
Nossos caminhos são nossos caminhos
Por que ainda não olhas nos olhos com seus próprios?
Os pés descalços são seus, e a lama que vem com eles...
A carne é sua
Mira o Apogeu
descobre o que sou eu
entre vielas nuas
poderás correr,
Correremos todas juntas
A minha liberdade foi escolhida por mim
Eu brado aqui, com os pés em plena terra de nossa mãe, que corro lado a lado!
Não existe uma mulher que esteja abandonada.
janeiro, 2015.
Nossos caminhos são nossos caminhos
Por que ainda não olhas nos olhos com seus próprios?
Os pés descalços são seus, e a lama que vem com eles...
A carne é sua
Mira o Apogeu
descobre o que sou eu
entre vielas nuas
poderás correr,
Correremos todas juntas
A minha liberdade foi escolhida por mim
Eu brado aqui, com os pés em plena terra de nossa mãe, que corro lado a lado!
Não existe uma mulher que esteja abandonada.
janeiro, 2015.
sábado, 26 de setembro de 2015
Observações.
As pessoas que já conheceram a morte possuem uma calma que antepôs os olhos nos olhos com a pós vida.
A morte não foi preta nem branca, alegre nem triste, a morte foi uma mestra que simplesmente apareceu pra mim em seu estado natural, cumpriu seu papel e se foi. Justa, sábia e pontualíssima.
Desde então, entre minhas vidas e mortes, eu pareço reconhecer aqueles que também já a viram.
Nos olhamos como grandes conhecidos, e o que impera é o respeito, por saber exatamente quão forte isso também foi em nosso âmago.
As pessoas que já se depararam com o amor profundo compreendem a natureza das relações em geral.
Escrevo isso por me parecer que o subjetivo dos arrepios é onde a procura se dá, os olhos que se fundem de uma forma inexplicável um ao outro, esse me parece o caminho pro coração.
Desde que tive que me refazer inteira pelo amor profundo ter se fundido a minha alma, eu também pareço reconhecer aqueles que já o sentiram.
Em nosso encontro nada precisa ser dito, é algo que transcende o gosto das coisas, e o que impera é o respeito, por saber exatamente quão forte isso foi em nosso âmago - assim como a morte.
Hoje, pra mim, o amor e a morte vem do mesmo lugar.
A morte não foi preta nem branca, alegre nem triste, a morte foi uma mestra que simplesmente apareceu pra mim em seu estado natural, cumpriu seu papel e se foi. Justa, sábia e pontualíssima.
Desde então, entre minhas vidas e mortes, eu pareço reconhecer aqueles que também já a viram.
Nos olhamos como grandes conhecidos, e o que impera é o respeito, por saber exatamente quão forte isso também foi em nosso âmago.
As pessoas que já se depararam com o amor profundo compreendem a natureza das relações em geral.
Escrevo isso por me parecer que o subjetivo dos arrepios é onde a procura se dá, os olhos que se fundem de uma forma inexplicável um ao outro, esse me parece o caminho pro coração.
Desde que tive que me refazer inteira pelo amor profundo ter se fundido a minha alma, eu também pareço reconhecer aqueles que já o sentiram.
Em nosso encontro nada precisa ser dito, é algo que transcende o gosto das coisas, e o que impera é o respeito, por saber exatamente quão forte isso foi em nosso âmago - assim como a morte.
Hoje, pra mim, o amor e a morte vem do mesmo lugar.
O céu já me parece mais cinza.
Se hoje chovesse eu saberia que o céu teve pena
Da minha palidez
Eu tô no meio do mar, sozinha
E tem ondas batendo no meu rosto a cada mudança de maré
Eu sinto o áspero do sal
Queimando minha pele
Entrando pelos meus ouvidos
São ondas no rosto
A todo momento
Se hoje chovesse eu saberia que a rua chamava meu nome
Gritando
O que é o mar se nem Janaína eu consigo chamar?
Eu adentro a casa de minha mãe
Sou atravessada por ondas
e'inda clamo por chuva?
Onda onda onda
Se o céu morresse de pena da minha dor
Choveria
No mar
Na terra
Nas matas
No morro
No fogo e
Em mim
Ai, se hoje chovesse
A calmaria
A mudança que vem lá de cima
Encheria meu copo com sua água limpa
E beberia chamando por Janaína
Pra meus cabelos
se unirem aos seus
Por fim
Da minha palidez
Eu tô no meio do mar, sozinha
E tem ondas batendo no meu rosto a cada mudança de maré
Eu sinto o áspero do sal
Queimando minha pele
Entrando pelos meus ouvidos
São ondas no rosto
A todo momento
Se hoje chovesse eu saberia que a rua chamava meu nome
Gritando
O que é o mar se nem Janaína eu consigo chamar?
Eu adentro a casa de minha mãe
Sou atravessada por ondas
e'inda clamo por chuva?
Onda onda onda
Se o céu morresse de pena da minha dor
Choveria
No mar
Na terra
Nas matas
No morro
No fogo e
Em mim
Ai, se hoje chovesse
A calmaria
A mudança que vem lá de cima
Encheria meu copo com sua água limpa
E beberia chamando por Janaína
Pra meus cabelos
se unirem aos seus
Por fim
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Uma noite de poeira.
Aqui onde estou tem uma lua bonita iluminando setembro no meio de Pernambuco.
Tem baião comendo solto na rua de caboclos,
uma morena dança agarrada na pele dourada de Joana.
Não tem frio que se firme nesse terreiro,
Elas parecem fazer amor pelo Brasil inteiro
Sacudindo toda a poeira
Espalhando os pés na terra
De tanto se lambuzar.
O que me brilha o peito
São esses olhares rarefeitos
Que não vêem com gula nem defeito
Respeitam as mulheres que juntas sabem balançar.
Elas danam a dançar
Entre as ruas a rodopiar
Fazendo a viola comer
Num baião vão se amar.
Fico aqui admirando
Essa terra bonita que canta,
Embalando Joana
Às pernas da morena entrelaçar
Ave Maria, que coisa danada de linda
É ver esse Povo gritar.
Entra criança
Entra carinho
Entra joana
Entra vizinho
Na roda aqui do povo valente
Que veio de aruanda celebrar.
Tem baião comendo solto na rua de caboclos,
uma morena dança agarrada na pele dourada de Joana.
Não tem frio que se firme nesse terreiro,
Elas parecem fazer amor pelo Brasil inteiro
Sacudindo toda a poeira
Espalhando os pés na terra
De tanto se lambuzar.
O que me brilha o peito
São esses olhares rarefeitos
Que não vêem com gula nem defeito
Respeitam as mulheres que juntas sabem balançar.
Elas danam a dançar
Entre as ruas a rodopiar
Fazendo a viola comer
Num baião vão se amar.
Fico aqui admirando
Essa terra bonita que canta,
Embalando Joana
Às pernas da morena entrelaçar
Ave Maria, que coisa danada de linda
É ver esse Povo gritar.
Entra criança
Entra carinho
Entra joana
Entra vizinho
Na roda aqui do povo valente
Que veio de aruanda celebrar.
terça-feira, 30 de junho de 2015
Voltei a Salvador.
Era uma daquelas ruas de paralelepípedos do pelourinho
Eu via de cima uma negra de cabelos cacheados com uma saia rodada colorida
Rodava sua saia numa grande celebração
Gingava os ombros, os braços e sorria com alegria.
Ali, naquela rua, saudavam com bandeirolas, calor e uma voz que cantava assim: Quanta grandeza tem meu pai oxalá!
O povo ria gritando aos quatro ventos que o governador daquela terra era grande e amoroso.
Meus olhos se mantinham fechados e meu corpo girava
enquanto eu era o amor.
Eu via de cima uma negra de cabelos cacheados com uma saia rodada colorida
Rodava sua saia numa grande celebração
Gingava os ombros, os braços e sorria com alegria.
Ali, naquela rua, saudavam com bandeirolas, calor e uma voz que cantava assim: Quanta grandeza tem meu pai oxalá!
O povo ria gritando aos quatro ventos que o governador daquela terra era grande e amoroso.
Meus olhos se mantinham fechados e meu corpo girava
enquanto eu era o amor.
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Sobre indivíduo.
Bárbara é o nome da mulher que trabalha comigo, ela deve ter uns trinta anos e tem quatro filhos. Um deles se chama Kael por conta do superman.
Coração é o apelido de uma senhora de olhos tristes que lava milhares de louças. Fala pouco, faz muito.
Nilda me lembra alguma personagem do jogo "bully", uma das monitoras altas, engomadas e rigorosas que suspendiam os alunos pelas orelhas.
Cristina, de acordo com um amigo, é a meryl streep em o diabo veste prada, um pouco mais meiga e louca.
Suspirou, se levantou e olhou o relógio. Nessa sequência.
Nada disse, nem com o corpo, nem com palavras.
Foi aí que eu percebi que és fria.
E porque não entendia muito bem o motivo de eu sorrir tanto, ficando encantada, com essas pessoas novas que conheci.
Suspirei, mexi no chá e olhei pra ela.
Que tudo disse, com o corpo e a boca que gritava em meus ouvidos "não te ouço porque não sei não ser assim".
Coração é o apelido de uma senhora de olhos tristes que lava milhares de louças. Fala pouco, faz muito.
Nilda me lembra alguma personagem do jogo "bully", uma das monitoras altas, engomadas e rigorosas que suspendiam os alunos pelas orelhas.
Cristina, de acordo com um amigo, é a meryl streep em o diabo veste prada, um pouco mais meiga e louca.
Suspirou, se levantou e olhou o relógio. Nessa sequência.
Nada disse, nem com o corpo, nem com palavras.
Foi aí que eu percebi que és fria.
E porque não entendia muito bem o motivo de eu sorrir tanto, ficando encantada, com essas pessoas novas que conheci.
Suspirei, mexi no chá e olhei pra ela.
Que tudo disse, com o corpo e a boca que gritava em meus ouvidos "não te ouço porque não sei não ser assim".
quarta-feira, 24 de junho de 2015
Hoje eu renasço.
O mundo é azul. Por um bocado de tempo percebi que sonhava acordada, minhas escritas são na maioria das vezes sobre colocar os pés no chão e sentir o orvalho do mato. Digo isso porque de alguma forma me sinto muito familiar a dor. E sei que ela é tão revigorante quanto colocar os pés no chão coberto de orvalho. Hoje eu vi o mundo azul. Bem claro, quase índigo, se eu fosse capaz de explicar melhor diria que estava sonhando. Um silêncio sábio percorre por aqui. Não sinto vontade de mover um só músculo com rigidez, a calmaria me invade e eu repouso por cima do meu braço agradecendo por estar aqui e ter a oportunidade de comungar disso. Eu não lembro de outros mundos, mas devo dizer que a experiência pode ser mágica e cheia de um prazer meio azul.
terça-feira, 9 de junho de 2015
Uma filha à casa torna.
quando um cordão me ligava a tu
me alimentava e nutria de amor
eu morava em seu corpo
num lugar sagrado e mágico
que faz nascer o que dorme
hoje somos ligadas por nossas mães
prioritariamente hoje, entregamos todo nosso ser à elas pra que nos una e afague nossos cabelos em seus colos
porque hoje, nós entramos juntas, tête-à-tête, por uma grande porta
vinha uma luz intensa e branca ao abri-la
e nós a encarávamos prontas para recebê-la
lado a lado
hoje nós vamos entrar de mãos atadas por aqueles corredores
nós vamos olhar para nossos medos com força
hoje nós vamos resistir
e gritar quando for preciso
hoje nós vamos fazer silêncio
e criar uma corrente verde com a união dos que ali estejam
quando a vida estava a se pôr
eu me transformava em tua cria
que seguraria suas mãos e
afagaria teus cabelos.
assim como um dia fiz minha casa em sua morada,
tu morarias em meu corpo.
abençoa, mãe, tuas filhas.
me alimentava e nutria de amor
eu morava em seu corpo
num lugar sagrado e mágico
que faz nascer o que dorme
hoje somos ligadas por nossas mães
prioritariamente hoje, entregamos todo nosso ser à elas pra que nos una e afague nossos cabelos em seus colos
porque hoje, nós entramos juntas, tête-à-tête, por uma grande porta
vinha uma luz intensa e branca ao abri-la
e nós a encarávamos prontas para recebê-la
lado a lado
hoje nós vamos entrar de mãos atadas por aqueles corredores
nós vamos olhar para nossos medos com força
hoje nós vamos resistir
e gritar quando for preciso
hoje nós vamos fazer silêncio
e criar uma corrente verde com a união dos que ali estejam
quando a vida estava a se pôr
eu me transformava em tua cria
que seguraria suas mãos e
afagaria teus cabelos.
assim como um dia fiz minha casa em sua morada,
tu morarias em meu corpo.
abençoa, mãe, tuas filhas.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Canção.
Tu ministras meu corpo como seu violão apaixonado
Que cada acorde canta a melodia de nossos sussurros
Me põe sobre tuas coxas e curva seu corpo cantado no meu
Tu me faz compor as canções de suas melodias ternas
E eu canto através do meu corpo-violão
Tocado por suas mãos carinhosas
Que me dedilham entre minhas cordas mais sutis
Tu me transforma em uma de nossas canções mais bonitas
Única como todas as outras são
Meu corpo como uma viola-de-amor,
cantando e compondo sob a luz dos amantes.
Que cada acorde canta a melodia de nossos sussurros
Me põe sobre tuas coxas e curva seu corpo cantado no meu
Tu me faz compor as canções de suas melodias ternas
E eu canto através do meu corpo-violão
Tocado por suas mãos carinhosas
Que me dedilham entre minhas cordas mais sutis
Tu me transforma em uma de nossas canções mais bonitas
Única como todas as outras são
Meu corpo como uma viola-de-amor,
cantando e compondo sob a luz dos amantes.
Dias de Janeiro.
Entre as ruas do pelourinho, vi dengo: um homem de coração grande, em frente à igreja são francisco de assis, sentado numa cadeira de rodas e segurando seus braços com seu pé torto do lado da cabeça.
Ele diz "um trocado?" com olhos de piedade, depois pergunta se minha religião me permite namorar um baiano como ele.
Do outro lado tem um outro homem quase tão magro quanto, de barba mal feita e fé na igreja pelos olhos, ele diz "leva um tercinho?".
Passa um negro forte, batendo palmas, cantando que "força tem na Bahia". Ele olha com gosto pra uma preta que vem logo atrás dele, e ela retribui o olhar com gula rebolando até chegar na porta da igreja.
Quando chega recebe dengo com um sorriso e o chama de meu bem, agacha até a cadeira de rodas e enche o rosto dele com milhões milhões milhões de beijos, na testa, nos olhos, bochechas, no queixo.
Por fim dengo meio tonto diz "feliz aniversário, nega, são quantos mesmo?"
Ela responde "38" e dá um último beijo bem devagar nos lábios de dengo.
Uma senhora de nariz fino, grande e empinado, cabelos loiros amarrotados, com um andar meio bambo perdido, sai da igreja. A nega já mostra alguns colares "um regalo, minha rainha, especial pra você".
Dengo começou a me contar que perto da onde morava, no subúrbio de salvador, havia uma fábrica têxtil. Dizia assim "As mulheres que trabalhavam de costureiras na fábrica foram presas lá dentro e queimadas, isso há muito tempo atrás, eu morava lá perto e não sabia. A gente precisa pesquisar as coisas, ser curioso, tudo conta uma história. Foi numa dessas que inventaram o dia da mulher, o dia do negro. Sabia que aqui era uma senzala?" Ele me contou muitas coisas. Pela voz, pelos gestos, pelo sorriso, pela sagacidade, pela sabedoria.
Sentada na calçada fui alertada por dengo e Luís (o cara dos terços) de um modo experiente: "senta do outro lado porque aqui os carros podem passar correndo e pegar em você".
Eu sentia um cheiro forte de mijo,
as pedras dos paralelepípedos irregulares da rua,
as velhas baianas negras lindas com as mãos na cintura contando casos e casos com trouxas de castanhas enormes entre as pernas - que trouxeram nas costas,
um homem com cara de malandro que vendia chás,
um senhor chamado Magno levava elegantes sapatos branquíssimos ao chão do pelourinho, e ao ver uma moça jogar uma tampa de marmita no chão foi logo pegar dizendo "não é assim que se mantém a cidade limpa" - nem os seus sapatos.
Tem coisas que aprendi só de olhar o mar.
Salvador tem povoesia - e só quem senta nas ruas mijadas do pelourinho pode ler.
Ele diz "um trocado?" com olhos de piedade, depois pergunta se minha religião me permite namorar um baiano como ele.
Do outro lado tem um outro homem quase tão magro quanto, de barba mal feita e fé na igreja pelos olhos, ele diz "leva um tercinho?".
Passa um negro forte, batendo palmas, cantando que "força tem na Bahia". Ele olha com gosto pra uma preta que vem logo atrás dele, e ela retribui o olhar com gula rebolando até chegar na porta da igreja.
Quando chega recebe dengo com um sorriso e o chama de meu bem, agacha até a cadeira de rodas e enche o rosto dele com milhões milhões milhões de beijos, na testa, nos olhos, bochechas, no queixo.
Por fim dengo meio tonto diz "feliz aniversário, nega, são quantos mesmo?"
Ela responde "38" e dá um último beijo bem devagar nos lábios de dengo.
Uma senhora de nariz fino, grande e empinado, cabelos loiros amarrotados, com um andar meio bambo perdido, sai da igreja. A nega já mostra alguns colares "um regalo, minha rainha, especial pra você".
Dengo começou a me contar que perto da onde morava, no subúrbio de salvador, havia uma fábrica têxtil. Dizia assim "As mulheres que trabalhavam de costureiras na fábrica foram presas lá dentro e queimadas, isso há muito tempo atrás, eu morava lá perto e não sabia. A gente precisa pesquisar as coisas, ser curioso, tudo conta uma história. Foi numa dessas que inventaram o dia da mulher, o dia do negro. Sabia que aqui era uma senzala?" Ele me contou muitas coisas. Pela voz, pelos gestos, pelo sorriso, pela sagacidade, pela sabedoria.
Sentada na calçada fui alertada por dengo e Luís (o cara dos terços) de um modo experiente: "senta do outro lado porque aqui os carros podem passar correndo e pegar em você".
Eu sentia um cheiro forte de mijo,
as pedras dos paralelepípedos irregulares da rua,
as velhas baianas negras lindas com as mãos na cintura contando casos e casos com trouxas de castanhas enormes entre as pernas - que trouxeram nas costas,
um homem com cara de malandro que vendia chás,
um senhor chamado Magno levava elegantes sapatos branquíssimos ao chão do pelourinho, e ao ver uma moça jogar uma tampa de marmita no chão foi logo pegar dizendo "não é assim que se mantém a cidade limpa" - nem os seus sapatos.
Tem coisas que aprendi só de olhar o mar.
Salvador tem povoesia - e só quem senta nas ruas mijadas do pelourinho pode ler.
segunda-feira, 30 de março de 2015
Resposta, como Maysa.
Agora, depois dos corpos que já passaram por aqui e por aí, você ainda se incomoda com minhas mãos curiosas?
Agora, depois de eu ter mergulhado de vez no lago de mim mesma, você ainda boia sob a água?
Você, por um acaso qualquer de ter acordado no meio da noite, ouve o ranger gritado da minha cama?
Por aqui as cobertas ficam no chão
e eu reinvento muitas vezes meu próprio corpo.
Hoje em dia meu olhar não se espanta mais
ele é calmo e paciente
meio agateado
à meia luz
Hoje, agora, observo uma noite linda que cobre a cidade alaranjada.
Me sinto dançando e uivando no fundo de um lago cristalino
onde antes ficava à margem de mãos dadas com você.
E sinto o meu cheiro,
que não é de lavanda nem doce
É de corpo
E sinto meu coração bater,
que não é de paixão nem prazer
É de ser
E sinto minha pele,
que não é áspera nem fina
É minha
E sinto, sinto, sinto...
Se eu soubesse que ao invés de cair eu voaria, teria pulado no lago mais cedo.
Agora, depois de eu ter mergulhado de vez no lago de mim mesma, você ainda boia sob a água?
Você, por um acaso qualquer de ter acordado no meio da noite, ouve o ranger gritado da minha cama?
Por aqui as cobertas ficam no chão
e eu reinvento muitas vezes meu próprio corpo.
Hoje em dia meu olhar não se espanta mais
ele é calmo e paciente
meio agateado
à meia luz
Hoje, agora, observo uma noite linda que cobre a cidade alaranjada.
Me sinto dançando e uivando no fundo de um lago cristalino
onde antes ficava à margem de mãos dadas com você.
E sinto o meu cheiro,
que não é de lavanda nem doce
É de corpo
E sinto meu coração bater,
que não é de paixão nem prazer
É de ser
E sinto minha pele,
que não é áspera nem fina
É minha
E sinto, sinto, sinto...
Se eu soubesse que ao invés de cair eu voaria, teria pulado no lago mais cedo.
quarta-feira, 11 de março de 2015
Janela nua.
A noite - enorme
nem tudo dorme
ouvi de uma mexicana, que compartilhava pedras, uma vez: "deixe-as na janela pra se banhar de lua"
Se banhar
de céu
com seu manto negro
que cobre os sonhos.
A noite - enorme
nem tudo grita
ouvi da falta de buzinas uma vez: "é na quietude que se conecta"
Se conecta
com a solitude que és ser
em sua pura forma,
como uma dança dessas que tocamos levemente as mãos
e pelos olhares já sentimos
pele a pele.
A noite sussurra pras amantes
que querem fazer amor
em cada uma dessas esquinas vazias.
A noite - enorme
nem tudo dorme
ouvi gemidos de poetizas uma vez: "amo no chão com meu corpo coberto pelas terras vermelhas de brasília aos gritos das corujas"
A noite - enorme
tudo é à luz da lua
que banha
que grita
que faz amor,
se coloque nua na janela
e dance ao brilho
da estrela mais próxima.
nem tudo dorme
ouvi de uma mexicana, que compartilhava pedras, uma vez: "deixe-as na janela pra se banhar de lua"
Se banhar
de céu
com seu manto negro
que cobre os sonhos.
A noite - enorme
nem tudo grita
ouvi da falta de buzinas uma vez: "é na quietude que se conecta"
Se conecta
com a solitude que és ser
em sua pura forma,
como uma dança dessas que tocamos levemente as mãos
e pelos olhares já sentimos
pele a pele.
A noite sussurra pras amantes
que querem fazer amor
em cada uma dessas esquinas vazias.
A noite - enorme
nem tudo dorme
ouvi gemidos de poetizas uma vez: "amo no chão com meu corpo coberto pelas terras vermelhas de brasília aos gritos das corujas"
A noite - enorme
tudo é à luz da lua
que banha
que grita
que faz amor,
se coloque nua na janela
e dance ao brilho
da estrela mais próxima.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Existe céu pra quem fica.
O luto é um lugar solitário.
o ar continua fresco
a cidade continua em movimento
o sol até nasceu
mas hoje é um dia solitário.
parece que todas as flores se fecham
parece que tudo faz um silêncio pleno
as coisas estão fora do lugar
pra vida ajeitar uma nova estrela no céu.
o vento não uiva
a voz não vem
e o céu pede pra ser observado com gentileza.
hoje a solidão só abre lugar pro azul estrelado infinito com sua metamorfose infinita.
os olhares humanos não estão aqui
os abraços amáveis não estão aqui
a vida hoje não é aqui,
aqui foi decretada a solidão pelo luto...
a vida hoje é no céu.
estamos todos de mãos dadas numa grande roda silenciosa, por respeito, e juntos vamos olhar para cima,
hoje a vida é no céu.
Céu, esse lugar de fuga para com nossa pequenez.
É pra onde vamos quando nossa chama interna, nosso brilho dos olhos, vai fazer luz em outro lugar.
Deve ser por isso que quem morre vai pro céu,
pra nascer uma estrela lá em cima.
Aqui, desse silêncio que tudo faz,
acompanho o nascimento de uma nova luz no enorme infinito azul de estrelas.
o ar continua fresco
a cidade continua em movimento
o sol até nasceu
mas hoje é um dia solitário.
parece que todas as flores se fecham
parece que tudo faz um silêncio pleno
as coisas estão fora do lugar
pra vida ajeitar uma nova estrela no céu.
o vento não uiva
a voz não vem
e o céu pede pra ser observado com gentileza.
hoje a solidão só abre lugar pro azul estrelado infinito com sua metamorfose infinita.
os olhares humanos não estão aqui
os abraços amáveis não estão aqui
a vida hoje não é aqui,
aqui foi decretada a solidão pelo luto...
a vida hoje é no céu.
estamos todos de mãos dadas numa grande roda silenciosa, por respeito, e juntos vamos olhar para cima,
hoje a vida é no céu.
Céu, esse lugar de fuga para com nossa pequenez.
É pra onde vamos quando nossa chama interna, nosso brilho dos olhos, vai fazer luz em outro lugar.
Deve ser por isso que quem morre vai pro céu,
pra nascer uma estrela lá em cima.
Aqui, desse silêncio que tudo faz,
acompanho o nascimento de uma nova luz no enorme infinito azul de estrelas.
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