Entre as ruas do pelourinho, vi dengo: um homem de coração grande, em frente à igreja são francisco de assis, sentado numa cadeira de rodas e segurando seus braços com seu pé torto do lado da cabeça.
Ele diz "um trocado?" com olhos de piedade, depois pergunta se minha religião me permite namorar um baiano como ele.
Do outro lado tem um outro homem quase tão magro quanto, de barba mal feita e fé na igreja pelos olhos, ele diz "leva um tercinho?".
Passa um negro forte, batendo palmas, cantando que "força tem na Bahia". Ele olha com gosto pra uma preta que vem logo atrás dele, e ela retribui o olhar com gula rebolando até chegar na porta da igreja.
Quando chega recebe dengo com um sorriso e o chama de meu bem, agacha até a cadeira de rodas e enche o rosto dele com milhões milhões milhões de beijos, na testa, nos olhos, bochechas, no queixo.
Por fim dengo meio tonto diz "feliz aniversário, nega, são quantos mesmo?"
Ela responde "38" e dá um último beijo bem devagar nos lábios de dengo.
Uma senhora de nariz fino, grande e empinado, cabelos loiros amarrotados, com um andar meio bambo perdido, sai da igreja. A nega já mostra alguns colares "um regalo, minha rainha, especial pra você".
Dengo começou a me contar que perto da onde morava, no subúrbio de salvador, havia uma fábrica têxtil. Dizia assim "As mulheres que trabalhavam de costureiras na fábrica foram presas lá dentro e queimadas, isso há muito tempo atrás, eu morava lá perto e não sabia. A gente precisa pesquisar as coisas, ser curioso, tudo conta uma história. Foi numa dessas que inventaram o dia da mulher, o dia do negro. Sabia que aqui era uma senzala?" Ele me contou muitas coisas. Pela voz, pelos gestos, pelo sorriso, pela sagacidade, pela sabedoria.
Sentada na calçada fui alertada por dengo e Luís (o cara dos terços) de um modo experiente: "senta do outro lado porque aqui os carros podem passar correndo e pegar em você".
Eu sentia um cheiro forte de mijo,
as pedras dos paralelepípedos irregulares da rua,
as velhas baianas negras lindas com as mãos na cintura contando casos e casos com trouxas de castanhas enormes entre as pernas - que trouxeram nas costas,
um homem com cara de malandro que vendia chás,
um senhor chamado Magno levava elegantes sapatos branquíssimos ao chão do pelourinho, e ao ver uma moça jogar uma tampa de marmita no chão foi logo pegar dizendo "não é assim que se mantém a cidade limpa" - nem os seus sapatos.
Tem coisas que aprendi só de olhar o mar.
Salvador tem povoesia
- e só quem senta nas ruas mijadas do pelourinho pode ler.
"Salvador tem povoesia" E tem mesmo!
ResponderExcluirAdorei tuas palavras!
Beijos!
agradeço, daise!
Excluirbeijos