Por baixo do travesseiro se escondeu a mão.
Pelos gritos não dados, pela intimidade não dita.
Vou deixando, não meu corpo - como disse Clarice, mas partes de todo meu ser pelo caminho.
Vou deixando meus cabelos no suor, e trazendo os seus debaixo da minha roupa.
Vou cedendo a minha pele, minha língua, meu suspiro.
Enfio na sacola o nariz que franze quando as mãos não conseguem mais falar.
E a inquietude.
E todos os fios desgrenhados, do tempo, que se entrelaçam pelo ar,
,que entram e saem,
,quentes a soprar.
Faço cair todas as camadas pra finalmente encontrar um miolo - que agora só leva o anel, que deixei pelo caminho, no dedo.
Deixei pedaços do meu colo, do meu útero, da minha pele.
Da minha saliva. Do pescoço. Do sorriso, dou sorriso.
Deixei pedaços do meu carinho, do afago, trago a trago, a sair da boca.
Deixei um beijo nas costas, um cheiro na nuca e olhos pequeninos embaixo das cobertas.
Vou me deixando por aí. Na janela, no chuveiro, na esquina.
Nós só temos o que nos é dado. (eu tenho alguns carinhos)
E dar amor é um dos modos de ser livre nele mesmo.
Não só sou o que dou, mas só dou o que tenho.
pra te dar, tanto amor, eu tenho, e
sábado, 7 de dezembro de 2013
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Vermelho.
O sangue puro escorria dos meus lábios.
Lábios pintados de vermelho.
Entregue ao vermelho - o dia que me fiz mulher estava.
No espelho via vermelho, no meu corpo e na minha luz.
Minha pele, elástica e adaptável, esperava toques com precisão; toques vermelhos.
Meu corpo consciente, em fogo ardente, estava em plena prontidão.
Eu me fiz mulher quando pulei no abismo do destino,
sem precisar de um hino.
Meu hino era meu sangue, meu corpo, minha alma.
Meu hino eram meus pelos, meus pés e mãos.
Eram meus seios, meus dedos, antebraço e tendão.
O dia que me fiz mulher não contorci meu corpo de insegurança, nem sequer tive que controlar aquela agonia nas cutículas das mãos.
Eu avistei o céu e soube que ele poderia ser a cama que me deitaria e mancharia tudo de vermelho.
No instinto da sacerdotisa, me fiz mulher em todas as cartas do tarot, peças de bardot, filmes de horror.
Eu me fiz mulher em toda ponta de esquina.
me fiz gente
Lábios pintados de vermelho.
Entregue ao vermelho - o dia que me fiz mulher estava.
No espelho via vermelho, no meu corpo e na minha luz.
Minha pele, elástica e adaptável, esperava toques com precisão; toques vermelhos.
Meu corpo consciente, em fogo ardente, estava em plena prontidão.
Eu me fiz mulher quando pulei no abismo do destino,
sem precisar de um hino.
Meu hino era meu sangue, meu corpo, minha alma.
Meu hino eram meus pelos, meus pés e mãos.
Eram meus seios, meus dedos, antebraço e tendão.
O dia que me fiz mulher não contorci meu corpo de insegurança, nem sequer tive que controlar aquela agonia nas cutículas das mãos.
Eu avistei o céu e soube que ele poderia ser a cama que me deitaria e mancharia tudo de vermelho.
No instinto da sacerdotisa, me fiz mulher em todas as cartas do tarot, peças de bardot, filmes de horror.
Eu me fiz mulher em toda ponta de esquina.
me fiz gente
sábado, 19 de outubro de 2013
Ruas alagadas.
A tua rua inunda minha rua, sua.
E por inundar, sua gotas que fazem poças na minha pele tão nua.
Aí vem a lua, fazendo clarão no asfalto da tua rua.
E sua, e tua, e nua, e lua.
Meu âmago acen-tua no teu peito,
perpé-tua o que não se sabe bem direito.
Deixe disso! É só o amor que a-tua, flu-tua, tumul-tua naquelas duas longas ruas.
Os postes iluminam nossas encruzilhadas nuas. Que luz suave a tua!
A minha rua encosta na sua.
Que o meu/minha se transforme em cumplicidade.
Depositamos o medo do abandono num cartão de troca dx outrx. Depositamos esse amor afável, puro, doce, num jogo de interesses.
As pessoas não são minhas, elas nunca foram.
Até mesmo quando entregamos nossas almas, num colchão esbugalhado, cheios de tara,
Até mesmo quando colocamos a cara, recolhendo nossas migalhas,
Até mesmo quando é tu,
Até mesmo a tua rua,
continuamos enlaçadxs com o resto de tudo. Com o resto do mundo.
Somos caminhos sinuosos que, por vezes, se batem por aí.
Nós, encruzilhadas.
Nós, uma grande ligação entre todas as avenidas existentes.
Nós, sós.
Nós, sãos, grãos, pagãos.
Nós
ainda nos encontramos por essas esquinas.
E por inundar, sua gotas que fazem poças na minha pele tão nua.
Aí vem a lua, fazendo clarão no asfalto da tua rua.
E sua, e tua, e nua, e lua.
Meu âmago acen-tua no teu peito,
perpé-tua o que não se sabe bem direito.
Deixe disso! É só o amor que a-tua, flu-tua, tumul-tua naquelas duas longas ruas.
Os postes iluminam nossas encruzilhadas nuas. Que luz suave a tua!
A minha rua encosta na sua.
Que o meu/minha se transforme em cumplicidade.
Depositamos o medo do abandono num cartão de troca dx outrx. Depositamos esse amor afável, puro, doce, num jogo de interesses.
As pessoas não são minhas, elas nunca foram.
Até mesmo quando entregamos nossas almas, num colchão esbugalhado, cheios de tara,
Até mesmo quando colocamos a cara, recolhendo nossas migalhas,
Até mesmo quando é tu,
Até mesmo a tua rua,
continuamos enlaçadxs com o resto de tudo. Com o resto do mundo.
Somos caminhos sinuosos que, por vezes, se batem por aí.
Nós, encruzilhadas.
Nós, uma grande ligação entre todas as avenidas existentes.
Nós, sós.
Nós, sãos, grãos, pagãos.
Nós
ainda nos encontramos por essas esquinas.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Licença poética em versinhos terminados com "lha".
Caço o acaso
Caço e me usa, abusa
Caço o teu perfume de fogueira
Caço seus olhos espremidos de rabo de olho,
e seu jeito de andar.
Sou fera ferida
que vive a sua partida
e por isso dano a caçar.
Caço olhares que consigam me cobrir
como o seu cobriu
como sua carne supriu a minha fome.
Caço línguas que não me perguntem o porquê dos meus risos,
só riem comigo.
Caço tua não-fala
Caço poros que exalem o seu eu interior.
Eu caço gente que já levou uns tapas na cara
já foi um canalha
e mesmo que de nada valha,
adentre em mim como lança em batalha
me diga que o coração não falha
encontrar uma presa, assim como tu, é achar agulha na palha.
Eu caço pra sobreviver.
Caço e me usa, abusa
Caço o teu perfume de fogueira
Caço seus olhos espremidos de rabo de olho,
e seu jeito de andar.
Sou fera ferida
que vive a sua partida
e por isso dano a caçar.
Caço olhares que consigam me cobrir
como o seu cobriu
como sua carne supriu a minha fome.
Caço línguas que não me perguntem o porquê dos meus risos,
só riem comigo.
Caço tua não-fala
Caço poros que exalem o seu eu interior.
Eu caço gente que já levou uns tapas na cara
já foi um canalha
e mesmo que de nada valha,
adentre em mim como lança em batalha
me diga que o coração não falha
encontrar uma presa, assim como tu, é achar agulha na palha.
Eu caço pra sobreviver.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
A mulher da minha vida sou eu.
Pode amar tuas mulheres de cabelo batido, rosto escolhido e roupas sem pregas.
Pode amar tuas mulheres em seu leito comprido, com seu doce rugido e um suar gemido da minha solidão.
Você pode amar tuas mulheres com suas calças de brim, seus sapatos fechados e sua pele marfim.
Agora, eu lhe permito, ame tuas mulheres.
Com todas suas confissões, suas conclusões... Até vir a ficar, com o perdão dessa palavra que você deve detestar, finalmente: Sã.
Pode amar tuas mulheres com esse seu jeito seguro, suas ideias malucas e tua eterna preocupação com toda humanidade.
Pode amar tuas mulheres com esse relógio de pulso, onde eu preferia pulseiras. Com esses seios livres, onde eu preferia que estivessem erguidos. Com todo esse amor, onde fazendo todas essas preferências, você acreditaria que prefiro até que seja com dor.
Ame tuas mulheres no meio desses teus cabelos encaracolados, nesse olhar sereno e no sorriso que você herdou de mim.
Pode amar tuas mulheres nesse seu corpo desnudo, teu olhar profundo, teus pelos à mostra e sua gargalhada sem fim.
Ame todas as mulheres que um dia eu pretendi amar. Lacem suas almas sem mim.
Pode amar tuas mulheres nessa sua conversa com a lua, teus incensos acesos, na sua contínua procura sobre o que guarda em si.
Pode ficar por aí amando tuas mulheres, dividindo seu peito e se esquecendo de mim.
Pode amar tuas mulheres, mas saiba sempre, a única mulher da tua vida sou eu.
Tua mãe.
Pode amar tuas mulheres em seu leito comprido, com seu doce rugido e um suar gemido da minha solidão.
Você pode amar tuas mulheres com suas calças de brim, seus sapatos fechados e sua pele marfim.
Agora, eu lhe permito, ame tuas mulheres.
Com todas suas confissões, suas conclusões... Até vir a ficar, com o perdão dessa palavra que você deve detestar, finalmente: Sã.
Pode amar tuas mulheres com esse seu jeito seguro, suas ideias malucas e tua eterna preocupação com toda humanidade.
Pode amar tuas mulheres com esse relógio de pulso, onde eu preferia pulseiras. Com esses seios livres, onde eu preferia que estivessem erguidos. Com todo esse amor, onde fazendo todas essas preferências, você acreditaria que prefiro até que seja com dor.
Ame tuas mulheres no meio desses teus cabelos encaracolados, nesse olhar sereno e no sorriso que você herdou de mim.
Pode amar tuas mulheres nesse seu corpo desnudo, teu olhar profundo, teus pelos à mostra e sua gargalhada sem fim.
Ame todas as mulheres que um dia eu pretendi amar. Lacem suas almas sem mim.
Pode amar tuas mulheres nessa sua conversa com a lua, teus incensos acesos, na sua contínua procura sobre o que guarda em si.
Pode ficar por aí amando tuas mulheres, dividindo seu peito e se esquecendo de mim.
Pode amar tuas mulheres, mas saiba sempre, a única mulher da tua vida sou eu.
Tua mãe.
Fogos de Artifício.
O disperso não deve chegar ao desperdício.
Veja, há um afago em cada coração, por mais que as mãos não se mostrem afagar.
Em cada corpo existe um imenso cordel, preso nas veias, de toda natureza humana. O coração guarda um afago, acredite.
E todxs são merecedorxs desse afago dx outrx.
No fundo de cada âmago existe luz, cada uma com a sua particularidade.
Faremos, portanto, um céu de ano novo a cada esquina. Uma luz em cada olhar.
Nós podemos, nós somos merecedorxs.
Que a mágoa não sirva como lençol tapando todo esse clarão.
Existe uma luz em cada coração, que ao ser mostrada, se esvai o medo da solidão.
Não nos tornemos dispersos a luz dx outrx, vamos saber ver pra que se cruze com a nossa.
Não somos descartáveis, somos merecedorxs.
Veja, há um afago em cada coração, por mais que as mãos não se mostrem afagar.
Em cada corpo existe um imenso cordel, preso nas veias, de toda natureza humana. O coração guarda um afago, acredite.
E todxs são merecedorxs desse afago dx outrx.
No fundo de cada âmago existe luz, cada uma com a sua particularidade.
Faremos, portanto, um céu de ano novo a cada esquina. Uma luz em cada olhar.
Nós podemos, nós somos merecedorxs.
Que a mágoa não sirva como lençol tapando todo esse clarão.
Existe uma luz em cada coração, que ao ser mostrada, se esvai o medo da solidão.
Não nos tornemos dispersos a luz dx outrx, vamos saber ver pra que se cruze com a nossa.
Não somos descartáveis, somos merecedorxs.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
O Nome do Vento.
"Lancei-lhe olhares furtivos pelo canto do olho."
"Mesmo assim, foi meio doloroso, porque eu tinha passado meses pensando nela com ternura."
"(...) Mas a verdade por trás dessas histórias é que eu tinha a esperança de encontrar Denna."
"Eu estava totalmente impregnado dela, do aroma do vento em seu cabelo, do som de sua voz, do modo como o luar lançava sombras sobre seu rosto.
Eu tinha estragado tudo. Todas as coisas que dissera, coisas que haviam parecido muito inteligentes no momento, eram, na realidade, as piores que um tolo poderia dizer.
(...) Roube-me, ela dissera.
Eu devia ter sido mais ousado e lhe dado um beijo no final. Devia ter sido mais cauteloso."
"Conversamos durante as longas horas da noite. Falei em rodeios sutis do que sentia, não querendo me atrever demais. Pareceu-me que ela talvez estivesse fazendo o mesmo, porém não pude ter certeza. Foi como se executássemos uma daquelas complexas danças da corte modegana, nas quais os parceiros ficam a meros centímetros de distância, mas, quando são habilidosos, nunca se tocam.
Assim foi a nossa conversa. Mas não nos faltou apenas o tato para nos guiar: foi como se também fôssemos estranhamente surdos. E por isso dançamos com muito cuidado, sem saber ao certo que música o outro ouvia, sem ter certeza, talvez, do que o outro sequer estava dançando."
"Eu guardara a lembrança do formato dos seus olhos, mas não do peso deles; de sua coloração escura, mas não de sua profundidade. A proximidade de Denna tirou o fôlego de meu peito, como se de repente me houvessem jogado em águas profundas."
"Senti uma vaga esperança palpitar no peito, recordando a noite em que ficáramos no alto do monólito."
"A resposta é que cada um de nós tem duas mentes: a mente desperta e a mente adormecida. Nossa mente desperta é a que pensa, fala e raciocina. Mas a mente adormecida é a mais poderosa. Enxerga fundo no cerne das coisas. É a parte de nós que sonha. Ela se lembra de tudo. Dá-nos a intuição. A mente desperta não entende a natureza dos homens. A mente adormecida, sim. Já sabe muitas coisas que a mente desperta não sabe."
"Embaixo da Universidade encontrei o que mais queria, só não era o que eu esperava - disse, e fez sinal para o Cronista pegar sua pena. - Como tantas vezes acontece ao realizarmos o desejo que temos no coração."
"Mesmo assim, foi meio doloroso, porque eu tinha passado meses pensando nela com ternura."
"(...) Mas a verdade por trás dessas histórias é que eu tinha a esperança de encontrar Denna."
"Eu estava totalmente impregnado dela, do aroma do vento em seu cabelo, do som de sua voz, do modo como o luar lançava sombras sobre seu rosto.
Eu tinha estragado tudo. Todas as coisas que dissera, coisas que haviam parecido muito inteligentes no momento, eram, na realidade, as piores que um tolo poderia dizer.
(...) Roube-me, ela dissera.
Eu devia ter sido mais ousado e lhe dado um beijo no final. Devia ter sido mais cauteloso."
"Conversamos durante as longas horas da noite. Falei em rodeios sutis do que sentia, não querendo me atrever demais. Pareceu-me que ela talvez estivesse fazendo o mesmo, porém não pude ter certeza. Foi como se executássemos uma daquelas complexas danças da corte modegana, nas quais os parceiros ficam a meros centímetros de distância, mas, quando são habilidosos, nunca se tocam.
Assim foi a nossa conversa. Mas não nos faltou apenas o tato para nos guiar: foi como se também fôssemos estranhamente surdos. E por isso dançamos com muito cuidado, sem saber ao certo que música o outro ouvia, sem ter certeza, talvez, do que o outro sequer estava dançando."
"Eu guardara a lembrança do formato dos seus olhos, mas não do peso deles; de sua coloração escura, mas não de sua profundidade. A proximidade de Denna tirou o fôlego de meu peito, como se de repente me houvessem jogado em águas profundas."
"Senti uma vaga esperança palpitar no peito, recordando a noite em que ficáramos no alto do monólito."
"A resposta é que cada um de nós tem duas mentes: a mente desperta e a mente adormecida. Nossa mente desperta é a que pensa, fala e raciocina. Mas a mente adormecida é a mais poderosa. Enxerga fundo no cerne das coisas. É a parte de nós que sonha. Ela se lembra de tudo. Dá-nos a intuição. A mente desperta não entende a natureza dos homens. A mente adormecida, sim. Já sabe muitas coisas que a mente desperta não sabe."
"Embaixo da Universidade encontrei o que mais queria, só não era o que eu esperava - disse, e fez sinal para o Cronista pegar sua pena. - Como tantas vezes acontece ao realizarmos o desejo que temos no coração."
terça-feira, 6 de agosto de 2013
O brilho dos olhos no seu céu.
Dois discos castanhos, com algumas rajadas pretas, foram colocados pra tocar em umas vitrolas.
A música que se formou era como uma sala.
Os móveis eram de madeira, com paredes amarelas e um cheiro bem leve. Alguns tons de marrom da mesma cor que os discos. O piso era de um branco macio, cortinas fajutas de algodão cobriam janelas que clareavam todo o cômodo.
A música, portanto, era assim... Como essa sala.
A música que se formou era como um par de mãos.
Macias e cheias. O vermelho vivo, das grandes unhas, dava contraste com o anel dourado que levava no dedo anelar. A pele era morena e fina, cada enrugado contava uma história de onde essas mãos tinham passado.
A música, portanto, era também assim... Como essas mãos.
A música que se formou era como uma face.
Face essa que se comparava com as mãos e a sala. A boca era grande e marrom, tinha uma pinta grande em uma das bochechas, a pele fina e à la carioca dava luz a todo o rosto. Sobrancelhas finas e convidativas. A pele era marcada por caminhos sinuosos de toda uma vida, quase oitenta anos.
Os olhos precisam de um parágrafo à parte.
Seus olhos eram como esses dois discos castanhos. Cantavam melodias que te embalavam num vai e vem sereno, leve, solto... Eram olhos tranquilos. Quando eles tocavam, conseguiam te levar às salas, mãos, céus, janelas. Hoje em dia, procuro o céu e tento encontrar o mesmo brilho que via nos seus olhos.
Acho e consigo ouvir aquelas canções de discos castanhos.
A música que se formou, portanto, era esse rosto.
O brilho dos olhos. Quando olho pro céu e vejo uma estrela, lembro desse brilho.
O céu, com todo seu esplendor, me presenteia todos os dias com o brilho dos olhos de alguém.
A voz rouca, serena e forte tentava sair, mas eu só ouvia um piano ritmado nas batidas de um coração bem fraco. Tentava cantar a fim de me levar a vários lugares - livros empoeirados que falavam de amor e sexo, um relógio de corda, pés rachados, cabelos ralos e ruivos, um eterno cuidado de onde colocar as mãos. Por fim, uma cama de hospital.
A voz não saiu.
Bem, foi aí que usamos esses discos castanhos. Conseguimos ouvir: O amor é maior, nós sabemos. Vá.
Agora esses olhos se fecharam e nós nos falamos pelo coração - e pelo brilho das estrelas.
O céu virá em amarelo pra te contemplar.
A música que se formou era como uma sala.
Os móveis eram de madeira, com paredes amarelas e um cheiro bem leve. Alguns tons de marrom da mesma cor que os discos. O piso era de um branco macio, cortinas fajutas de algodão cobriam janelas que clareavam todo o cômodo.
A música, portanto, era assim... Como essa sala.
A música que se formou era como um par de mãos.
Macias e cheias. O vermelho vivo, das grandes unhas, dava contraste com o anel dourado que levava no dedo anelar. A pele era morena e fina, cada enrugado contava uma história de onde essas mãos tinham passado.
A música, portanto, era também assim... Como essas mãos.
A música que se formou era como uma face.
Face essa que se comparava com as mãos e a sala. A boca era grande e marrom, tinha uma pinta grande em uma das bochechas, a pele fina e à la carioca dava luz a todo o rosto. Sobrancelhas finas e convidativas. A pele era marcada por caminhos sinuosos de toda uma vida, quase oitenta anos.
Os olhos precisam de um parágrafo à parte.
Seus olhos eram como esses dois discos castanhos. Cantavam melodias que te embalavam num vai e vem sereno, leve, solto... Eram olhos tranquilos. Quando eles tocavam, conseguiam te levar às salas, mãos, céus, janelas. Hoje em dia, procuro o céu e tento encontrar o mesmo brilho que via nos seus olhos.
Acho e consigo ouvir aquelas canções de discos castanhos.
A música que se formou, portanto, era esse rosto.
O brilho dos olhos. Quando olho pro céu e vejo uma estrela, lembro desse brilho.
O céu, com todo seu esplendor, me presenteia todos os dias com o brilho dos olhos de alguém.
A voz rouca, serena e forte tentava sair, mas eu só ouvia um piano ritmado nas batidas de um coração bem fraco. Tentava cantar a fim de me levar a vários lugares - livros empoeirados que falavam de amor e sexo, um relógio de corda, pés rachados, cabelos ralos e ruivos, um eterno cuidado de onde colocar as mãos. Por fim, uma cama de hospital.
A voz não saiu.
Bem, foi aí que usamos esses discos castanhos. Conseguimos ouvir: O amor é maior, nós sabemos. Vá.
Agora esses olhos se fecharam e nós nos falamos pelo coração - e pelo brilho das estrelas.
O céu virá em amarelo pra te contemplar.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
A primeira parte do fundo do baú.
Achei alguns rascunhos escondidos.
Alguns foram escondidos por serem bem densos, tem só uma frase. Eu tratei de defini-los como inacabados... Depois percebi que era medo. Tem vezes que só as letras não dão conta, isso é fácil de compreender.
Outros passaram por aquilo que envolve peneiras e olhos, nesse caso, meus olhos arderam de tanto sol. Eu nunca soube muito bem onde colocar as mãos, se é que me entendem.
O céu é sincero comigo. Se guarda, quando a ponta do que sente é jogada às traças, mas se abre trazendo luz ao recíproco. Eu sinto perfeitamente seus dias nublados e consigo, com um esforço, me lembrar de teus olhos cerrados em dias de sol.
É que tem dias que a gente não quer enxergar... É que tem dias que a carne dilacera. Tem dias que o mutável se multiplica em trilhões e nós ficamos aqui só querendo um suspirinho. É que tem dias que não basta só enxergar.
E esse virou só mais um rascunho.
Alguns foram escondidos por serem bem densos, tem só uma frase. Eu tratei de defini-los como inacabados... Depois percebi que era medo. Tem vezes que só as letras não dão conta, isso é fácil de compreender.
Outros passaram por aquilo que envolve peneiras e olhos, nesse caso, meus olhos arderam de tanto sol. Eu nunca soube muito bem onde colocar as mãos, se é que me entendem.
O céu é sincero comigo. Se guarda, quando a ponta do que sente é jogada às traças, mas se abre trazendo luz ao recíproco. Eu sinto perfeitamente seus dias nublados e consigo, com um esforço, me lembrar de teus olhos cerrados em dias de sol.
É que tem dias que a gente não quer enxergar... É que tem dias que a carne dilacera. Tem dias que o mutável se multiplica em trilhões e nós ficamos aqui só querendo um suspirinho. É que tem dias que não basta só enxergar.
E esse virou só mais um rascunho.
sábado, 27 de julho de 2013
O Pronome Feminino.
As faixas etárias se dividiam entre brancas, negras, pardas, amarelas, baixas, altas, médias, cadeirantes. Cabelos compridos, ondulados, lisos, encaracolados, curtos, crespos, cheios, baixos. Saias, calças, sapatilhas, tênis, sapatos... Mochilas, bolsas e sacolas. Todas essas mulheres respiravam procurando janelas para olhar a paisagem.
A faixa de indicação do "vagão para mulheres", do metrô, é rosa e lilás.
Uma voz robótica avisou: "Pessoas do sexo masculino não terão acesso ao primeiro vagão." Todas continuaram respirando. Entra, sai, entra, sai, ennnntrraa, saaaai... Suspira.
Ouvi um grito agudo, estridente e pavoroso que saiu de todo vagão. Todas as mulheres gritaram. Se esgoelaram.
Elas botavam as mãos por entre os cabelos e pediam por misericórdia. Umas tantas caíram por cima dos joelhos suplicando para que parassem.
Por entre gritos, eu ouvia um inquietante e repetitivo batuque, que parecia ser recitado por uma grande multidão. Brandavam fortemente: "Maria nua, nem minha nem sua. Maria nua, nem minha nem sua, Maria que sua, que fica nua. Maria nua, nem minha nem sua. Maria que sua, que fica nua. Maria que luta."
A força intangível dentro de cada mulher pulsava, dilacerava, dizia "NÃO!". Dizia "CHEGA!", "BASTA!". Acenderam a pólvora entre seus corpos resultando em uma imensa chama roxa.
O grito era por todas que tem seu corpo e psicológico violados, que não são respeitadas diante do seu próprio espaço, que têm seus gritos e sonhos abafados por serem mulheres, que são mutiladas, que o prazer não existe, que nasceram com o instinto materno e foram feitas pra procriar, que tem suas decisões podadas, que lidam com o próprio ciclo menstrual sem naturalidade por ser imposto assim, que sofrem com seus pelos e cheiros.
A faixa rosa e lilás amordaçou suas bocas, os olhos se vendaram e seu corpo ficou como carne. Elas foram penduradas pelas mãos e abatidas todos os dias.
Em meio de tudo isso, todas continuavam respirando, todas continuavam sangrando. Mas dentro de cada mulher daquele vagão, eu ainda sentia o batuque seguido do grito que dizia: "OPRESSOR!"
Todas respiravam. E eu que havia segurado todo o ar.
A faixa de indicação do "vagão para mulheres", do metrô, é rosa e lilás.
Uma voz robótica avisou: "Pessoas do sexo masculino não terão acesso ao primeiro vagão." Todas continuaram respirando. Entra, sai, entra, sai, ennnntrraa, saaaai... Suspira.
Ouvi um grito agudo, estridente e pavoroso que saiu de todo vagão. Todas as mulheres gritaram. Se esgoelaram.
Elas botavam as mãos por entre os cabelos e pediam por misericórdia. Umas tantas caíram por cima dos joelhos suplicando para que parassem.
Por entre gritos, eu ouvia um inquietante e repetitivo batuque, que parecia ser recitado por uma grande multidão. Brandavam fortemente: "Maria nua, nem minha nem sua. Maria nua, nem minha nem sua, Maria que sua, que fica nua. Maria nua, nem minha nem sua. Maria que sua, que fica nua. Maria que luta."
A força intangível dentro de cada mulher pulsava, dilacerava, dizia "NÃO!". Dizia "CHEGA!", "BASTA!". Acenderam a pólvora entre seus corpos resultando em uma imensa chama roxa.
O grito era por todas que tem seu corpo e psicológico violados, que não são respeitadas diante do seu próprio espaço, que têm seus gritos e sonhos abafados por serem mulheres, que são mutiladas, que o prazer não existe, que nasceram com o instinto materno e foram feitas pra procriar, que tem suas decisões podadas, que lidam com o próprio ciclo menstrual sem naturalidade por ser imposto assim, que sofrem com seus pelos e cheiros.
A faixa rosa e lilás amordaçou suas bocas, os olhos se vendaram e seu corpo ficou como carne. Elas foram penduradas pelas mãos e abatidas todos os dias.
Em meio de tudo isso, todas continuavam respirando, todas continuavam sangrando. Mas dentro de cada mulher daquele vagão, eu ainda sentia o batuque seguido do grito que dizia: "OPRESSOR!"
Todas respiravam. E eu que havia segurado todo o ar.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Vênus em aquário.
Seres. Só seres.
Nós somos carne. Somos espíritos.
Somos livres e soltos.
Nós não somos escadas. Não há degraus acima, nem abaixo.
Nós somos um campo bem verde e florido. Longilíneo.
Sem fim, porque o sentir não tem fim.
E nós somos o que nós sentimos. Ponto.
Ponto até meu sentir mudar. Três pontos.
Sangue, pelos, pele, unhas, músculos. Isso que nós somos.
Almas, pontos, apertões, suspiros, dentes, cílios, pulmões, lágrimas, ombros. Isso que nós somos.
Puros: Não se infesteiem.
Permeio entre todos os meus pontos procurando uma só palavra: Humanidade.
Humanos, antes e acima de tudo.
Não se avexem! O dia já raiou.
O mar já salgou e a porta abriu.
Ataram os laços, perderam os compassos, tiraram os pedaços;
E os olhos por um triz.
O sol já se pôs, o gosto despertou por dois e dois... E os pés ainda aqui.
Por dias continuamos -quase- por experimentar. Mas entenda, nós podemos.
Nós podemos ficar nus.
"A partir do pecado, Deus determinou que eles (Adão e Eva) sentiriam vergonha do próprio corpo. Imediatamente se cobriram com folhas de parreira."
Nós somos carne. Somos espíritos.
Somos livres e soltos.
Nós não somos escadas. Não há degraus acima, nem abaixo.
Nós somos um campo bem verde e florido. Longilíneo.
Sem fim, porque o sentir não tem fim.
E nós somos o que nós sentimos. Ponto.
Ponto até meu sentir mudar. Três pontos.
Sangue, pelos, pele, unhas, músculos. Isso que nós somos.
Almas, pontos, apertões, suspiros, dentes, cílios, pulmões, lágrimas, ombros. Isso que nós somos.
Puros: Não se infesteiem.
Permeio entre todos os meus pontos procurando uma só palavra: Humanidade.
Humanos, antes e acima de tudo.
Não se avexem! O dia já raiou.
O mar já salgou e a porta abriu.
Ataram os laços, perderam os compassos, tiraram os pedaços;
E os olhos por um triz.
O sol já se pôs, o gosto despertou por dois e dois... E os pés ainda aqui.
Por dias continuamos -quase- por experimentar. Mas entenda, nós podemos.
Nós podemos ficar nus.
"A partir do pecado, Deus determinou que eles (Adão e Eva) sentiriam vergonha do próprio corpo. Imediatamente se cobriram com folhas de parreira."
terça-feira, 12 de março de 2013
O sopro vindo do coração.
Hoje acordei de olhos e cortinas fechadas por um anjo que velou meu sono.
Hoje acordei de manhãzinha, os passarinhos nem tinham cantado ainda.
Hoje acordei e tive o espírito renovado por uns sopros no rosto antes de cochilar.
Hoje acordei tranquila porque agora tem quem me olhe quando fecho os olhos.
O quarto ficou rosa pela manhã.
Minha janela recebe muita luz quando o sol nasce... Mas, hoje quando acordei, foi diferente. Hoje minha cortina deslizou pra que os raios não me acordassem, pra que meu sono fosse leve e fácil. Pra que eu despertasse mais cedo e me escorresse água dos olhos por sentir tamanha consideração.
Sabem, hoje teve alguém de vigia por todas as fases dos meus sonhos. Desde eu fechar os olhos até abri-los de novo. Hoje, quando fiquei sonolenta, me pegaram nos cabelos e acariciaram pra acalmar meu coração. Digo agora, certa de mim, esse carinho me afagou. Meu espírito sorri. E foi exatamente isso que havia pedido.
Agradeço, o rosa do meu quarto agora já pulou pra dentro de mim.
Já posso fechar os olhos num dia escuro, tem quem guia-los.
Hoje acordei de manhãzinha, os passarinhos nem tinham cantado ainda.
Hoje acordei e tive o espírito renovado por uns sopros no rosto antes de cochilar.
Hoje acordei tranquila porque agora tem quem me olhe quando fecho os olhos.
O quarto ficou rosa pela manhã.
Minha janela recebe muita luz quando o sol nasce... Mas, hoje quando acordei, foi diferente. Hoje minha cortina deslizou pra que os raios não me acordassem, pra que meu sono fosse leve e fácil. Pra que eu despertasse mais cedo e me escorresse água dos olhos por sentir tamanha consideração.
Sabem, hoje teve alguém de vigia por todas as fases dos meus sonhos. Desde eu fechar os olhos até abri-los de novo. Hoje, quando fiquei sonolenta, me pegaram nos cabelos e acariciaram pra acalmar meu coração. Digo agora, certa de mim, esse carinho me afagou. Meu espírito sorri. E foi exatamente isso que havia pedido.
Agradeço, o rosa do meu quarto agora já pulou pra dentro de mim.
Já posso fechar os olhos num dia escuro, tem quem guia-los.
terça-feira, 5 de março de 2013
E aí, como está?
Podia jurar que sentia sua respiração por perto. Juraria até que aquele cheiro forte, do cobertor laranja peludo, vinha através dos meus lençóis. Você se lembra desse cobertor? Era bem pesado. Também tinha um lençol verdinho com flores rosas que te agradava muito. Gostava dele porque seus pés eram quentes. Tão quentes que nós comprávamos um creme fedorento, da minha professora do jardim, só pra eu fazer massagem nos seus pés antes de dormir. Eles ficavam bem gelados, porque entrava ar pela janela. Nunca mais vi essa professora, será que se mudou? Pintou o cabelo? Ainda é crente?
Falando em janela, você ainda adora ver a lua de noite? Aí, onde você está, dá pra ver de pertinho? Aqui dá. Minha janela tem uma paisagem linda, você ia adorar.
Fico tão feliz por você ter me ensinado a gostar da lua. Quando anoitecia e todas as luzes eram apagadas, o quarto ficava uma escuridão. Mas se abrisse a persiana, a lua clarearia todo o cômodo e eu não teria mais medo. Confesso que o que conseguia mesmo me acalmar eram meus pés gelados encontrando os seus, e também seus cachinhos que eu costumava enrolar pra dormir.
Rezava o terço todas as manhãs num programa católico. Chegou até a me contar um dia que adorava um dos caras, um médico cujo nome era Cristiano. Bem notei que foi o mesmo nome do seu filho mais velho, morreu logo quando criança. Afogado. E você se afogou na dor que jurou nunca ter sentido pior.
Até nisso você foi incrível comigo. Não sinto dor nenhuma por você, eu sinto amor.
Não acredito muito em laços familiares, acredito só em laços. Portanto, não faço muita ideia do nome que se daria a nós duas, mas já digo logo que éramos bem enlaçadas. Várias voltas em torno de um (nó)s.
Bem, você ainda come a comida dentro da folha de alface? Esses dias sentei à mesa e me deparei com uma folha enorme. Caberia quase um terço do prato... Mas eu cortei, sabe? Não tem mais muita graça sem você aqui. Ninguém acharia engraçado se a comida caísse toda por tão desastrada que eu sou. Ah, e de feijão frito? Queijo com açúcar? Mas tenho certeza que, pão com manteiga molhado no café quente, você come.
Lembra do morcegão? Aquele casaco de frio azul escuro? Você botava sempre que estava muito frio e ele ficava quase até os seus joelhos. De quem era? Seu mesmo? Porque parecia caber umas três de você dentro. Falando nisso, esses dias entrou um morcego no meu quarto, acredita? Todo mundo teve medo de tirar. Você tiraria, tenho certeza. Era uma das pessoas mais corajosas que já conheci.
Sabe, há um tempo atrás, eu fiquei te olhando pela minha janela. Agradeci por tudo. Tem vezes que antes de dormir eu ainda falo contigo, tomara que ouça. Quando vou pegando no sono e fecho os olhos, posso jurar que você aparece e me nina. Acordo com o travesseiro todo molhado no outro dia, mas não se sinta mal por isso. É que às vezes a razão me pega de jeito e fica dizendo que só tem o brilho da lua pra iluminar meu quarto. Eu fico repetindo, apostando com ela, que a brisa que entra pela janela ainda é para esfriar seus pés.
Falando em perder a razão, ontem recebi uma rasteira que devo ter quebrado três costelas. Dizem que é só repousar que vai cicatrizando, vamos ver né...
Quase ia me esquecendo, eu pendurei nossa foto na parede. Aquela que você me fez rir até pelos olhos, sabe? Em que nossos sorrisos se encontram. Essa mesmo. Coloquei uns dias antes do seu aniversário.
Aliás, parabéns. Ninguém aqui teve muita coragem de falar no seu nome, mas todos dizem sentir saudades.
Tomara que aí, onde você está, tenha tudo o que sempre gostou. Do cobertor ao feijão frito.
Eu espero o dia que seu lençol florido vá cobrir meu chão, se transformando num imenso gramado de flores rosas, nesse dia vou saber que darei meu último suspiro. Assim como, pra mim, o seu foi entregue.
Falando em janela, você ainda adora ver a lua de noite? Aí, onde você está, dá pra ver de pertinho? Aqui dá. Minha janela tem uma paisagem linda, você ia adorar.
Fico tão feliz por você ter me ensinado a gostar da lua. Quando anoitecia e todas as luzes eram apagadas, o quarto ficava uma escuridão. Mas se abrisse a persiana, a lua clarearia todo o cômodo e eu não teria mais medo. Confesso que o que conseguia mesmo me acalmar eram meus pés gelados encontrando os seus, e também seus cachinhos que eu costumava enrolar pra dormir.
Rezava o terço todas as manhãs num programa católico. Chegou até a me contar um dia que adorava um dos caras, um médico cujo nome era Cristiano. Bem notei que foi o mesmo nome do seu filho mais velho, morreu logo quando criança. Afogado. E você se afogou na dor que jurou nunca ter sentido pior.
Até nisso você foi incrível comigo. Não sinto dor nenhuma por você, eu sinto amor.
Não acredito muito em laços familiares, acredito só em laços. Portanto, não faço muita ideia do nome que se daria a nós duas, mas já digo logo que éramos bem enlaçadas. Várias voltas em torno de um (nó)s.
Bem, você ainda come a comida dentro da folha de alface? Esses dias sentei à mesa e me deparei com uma folha enorme. Caberia quase um terço do prato... Mas eu cortei, sabe? Não tem mais muita graça sem você aqui. Ninguém acharia engraçado se a comida caísse toda por tão desastrada que eu sou. Ah, e de feijão frito? Queijo com açúcar? Mas tenho certeza que, pão com manteiga molhado no café quente, você come.
Lembra do morcegão? Aquele casaco de frio azul escuro? Você botava sempre que estava muito frio e ele ficava quase até os seus joelhos. De quem era? Seu mesmo? Porque parecia caber umas três de você dentro. Falando nisso, esses dias entrou um morcego no meu quarto, acredita? Todo mundo teve medo de tirar. Você tiraria, tenho certeza. Era uma das pessoas mais corajosas que já conheci.
Sabe, há um tempo atrás, eu fiquei te olhando pela minha janela. Agradeci por tudo. Tem vezes que antes de dormir eu ainda falo contigo, tomara que ouça. Quando vou pegando no sono e fecho os olhos, posso jurar que você aparece e me nina. Acordo com o travesseiro todo molhado no outro dia, mas não se sinta mal por isso. É que às vezes a razão me pega de jeito e fica dizendo que só tem o brilho da lua pra iluminar meu quarto. Eu fico repetindo, apostando com ela, que a brisa que entra pela janela ainda é para esfriar seus pés.
Falando em perder a razão, ontem recebi uma rasteira que devo ter quebrado três costelas. Dizem que é só repousar que vai cicatrizando, vamos ver né...
Quase ia me esquecendo, eu pendurei nossa foto na parede. Aquela que você me fez rir até pelos olhos, sabe? Em que nossos sorrisos se encontram. Essa mesmo. Coloquei uns dias antes do seu aniversário.
Aliás, parabéns. Ninguém aqui teve muita coragem de falar no seu nome, mas todos dizem sentir saudades.
Tomara que aí, onde você está, tenha tudo o que sempre gostou. Do cobertor ao feijão frito.
Eu espero o dia que seu lençol florido vá cobrir meu chão, se transformando num imenso gramado de flores rosas, nesse dia vou saber que darei meu último suspiro. Assim como, pra mim, o seu foi entregue.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Mas ficam os retalhos.
Um dia comprei um par de sapatos. Não lembro do ano, então quem dirá do mês... Só lembro que era dia pela luz do sol.
Era um dia em que pude sair de casa só levando as vestes leves que cobriam meu corpo, elas dançavam e eu também. Era um dia de vento gostoso.
Tive vontade de tirar aquilo que cobria meus pés e sentir o orvalho na grama, tocar tudo o que conseguir até que minhas mãos pudessem sentir de tudo.
Pois foi nesse dia que eu comprei um par de sapatos. Poderia ter planejado ir ao lugar "x", comprado os sapatos "y" e saberia que ao voltar pra casa eu teria um resultado "xy".
Não foi assim. Vou reformular: Um dia qualquer, num vento qualquer, num orvalho que caiu qualquer, num toque qualquer, entre inúmeros "xy's", eu comprei um par de sapatos. Ele calçou meus pés com perfeição. Era tão macio por dentro que eu arriscaria escrever que senti o aveludado da grama coberta de orvalho bem por baixo dos meus pés.
Só tinha um problema: Eu tinha medo de usá-los.
Meu medo era de gastar a sola. Era de acabar, compreende? Se desmanchar todo ficando inteiro aos retalhos.
De acabar como todos que um dia calçaram esses pés.
Até perceber que há todo segundo tudo acaba. E se renova. E acaba pra se renovar.
Acabam as solas dos sapatos, o fumo fica no toco, a flor cai... Mas nasce! A gente sabe que nasce.
Quando nascer de novo, pode vir em outra tonalidade bem mais resistente às ameaças anteriores. É evoluir. Nós morremos para nascermos outros.
A sola então se afinou. E eu só sabia disso porque um dia o vento, como um maestro, guiou minhas vestes e fez do meu corpo um palco. Eu sabia que era dia de comprar novos sapatos.
Pois, perceba, nós acabamos todo dia. E por mais estranho que isso possa parecer, ainda bem.
Era um dia em que pude sair de casa só levando as vestes leves que cobriam meu corpo, elas dançavam e eu também. Era um dia de vento gostoso.
Tive vontade de tirar aquilo que cobria meus pés e sentir o orvalho na grama, tocar tudo o que conseguir até que minhas mãos pudessem sentir de tudo.
Pois foi nesse dia que eu comprei um par de sapatos. Poderia ter planejado ir ao lugar "x", comprado os sapatos "y" e saberia que ao voltar pra casa eu teria um resultado "xy".
Não foi assim. Vou reformular: Um dia qualquer, num vento qualquer, num orvalho que caiu qualquer, num toque qualquer, entre inúmeros "xy's", eu comprei um par de sapatos. Ele calçou meus pés com perfeição. Era tão macio por dentro que eu arriscaria escrever que senti o aveludado da grama coberta de orvalho bem por baixo dos meus pés.
Só tinha um problema: Eu tinha medo de usá-los.
Meu medo era de gastar a sola. Era de acabar, compreende? Se desmanchar todo ficando inteiro aos retalhos.
De acabar como todos que um dia calçaram esses pés.
Até perceber que há todo segundo tudo acaba. E se renova. E acaba pra se renovar.
Acabam as solas dos sapatos, o fumo fica no toco, a flor cai... Mas nasce! A gente sabe que nasce.
Quando nascer de novo, pode vir em outra tonalidade bem mais resistente às ameaças anteriores. É evoluir. Nós morremos para nascermos outros.
A sola então se afinou. E eu só sabia disso porque um dia o vento, como um maestro, guiou minhas vestes e fez do meu corpo um palco. Eu sabia que era dia de comprar novos sapatos.
Pois, perceba, nós acabamos todo dia. E por mais estranho que isso possa parecer, ainda bem.
Assinar:
Comentários (Atom)