As faixas etárias se dividiam entre brancas, negras, pardas, amarelas, baixas, altas, médias, cadeirantes. Cabelos compridos, ondulados, lisos, encaracolados, curtos, crespos, cheios, baixos. Saias, calças, sapatilhas, tênis, sapatos... Mochilas, bolsas e sacolas. Todas essas mulheres respiravam procurando janelas para olhar a paisagem.
A faixa de indicação do "vagão para mulheres", do metrô, é rosa e lilás.
Uma voz robótica avisou: "Pessoas do sexo masculino não terão acesso ao primeiro vagão." Todas continuaram respirando. Entra, sai, entra, sai, ennnntrraa, saaaai... Suspira.
Ouvi um grito agudo, estridente e pavoroso que saiu de todo vagão. Todas as mulheres gritaram. Se esgoelaram.
Elas botavam as mãos por entre os cabelos e pediam por misericórdia. Umas tantas caíram por cima dos joelhos suplicando para que parassem.
Por entre gritos, eu ouvia um inquietante e repetitivo batuque, que parecia ser recitado por uma grande multidão. Brandavam fortemente: "Maria nua, nem minha nem sua. Maria nua, nem minha nem sua, Maria que sua, que fica nua. Maria nua, nem minha nem sua. Maria que sua, que fica nua. Maria que luta."
A força intangível dentro de cada mulher pulsava, dilacerava, dizia "NÃO!". Dizia "CHEGA!", "BASTA!". Acenderam a pólvora entre seus corpos resultando em uma imensa chama roxa.
O grito era por todas que tem seu corpo e psicológico violados, que não são respeitadas diante do seu próprio espaço, que têm seus gritos e sonhos abafados por serem mulheres, que são mutiladas, que o prazer não existe, que nasceram com o instinto materno e foram feitas pra procriar, que tem suas decisões podadas, que lidam com o próprio ciclo menstrual sem naturalidade por ser imposto assim, que sofrem com seus pelos e cheiros.
A faixa rosa e lilás amordaçou suas bocas, os olhos se vendaram e seu corpo ficou como carne. Elas foram penduradas pelas mãos e abatidas todos os dias.
Em meio de tudo isso, todas continuavam respirando, todas continuavam sangrando. Mas dentro de cada mulher daquele vagão, eu ainda sentia o batuque seguido do grito que dizia: "OPRESSOR!"
Todas respiravam. E eu que havia segurado todo o ar.
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