terça-feira, 6 de agosto de 2013

O brilho dos olhos no seu céu.

Dois discos castanhos, com algumas rajadas pretas, foram colocados pra tocar em umas vitrolas.
A música que se formou era como uma sala.
Os móveis eram de madeira, com paredes amarelas e um cheiro bem leve. Alguns tons de marrom da mesma cor que os discos. O piso era de um branco macio, cortinas fajutas de algodão cobriam janelas que clareavam todo o cômodo.
A música, portanto, era assim... Como essa sala.
A música que se formou era como um par de mãos.
Macias e cheias. O vermelho vivo, das grandes unhas, dava contraste com o anel dourado que levava no dedo anelar. A pele era morena e fina, cada enrugado contava uma história de onde essas mãos tinham passado.
A música, portanto, era também assim... Como essas mãos.
A música que se formou era como uma face.
Face essa que se comparava com as mãos e a sala. A boca era grande e marrom, tinha uma pinta grande em uma das bochechas, a pele fina e à la carioca dava luz a todo o rosto. Sobrancelhas finas e convidativas. A pele era marcada por caminhos sinuosos de toda uma vida, quase oitenta anos.
Os olhos precisam de um parágrafo à parte.
Seus olhos eram como esses dois discos castanhos. Cantavam melodias que te embalavam num vai e vem sereno, leve, solto... Eram olhos tranquilos. Quando eles tocavam, conseguiam te levar às salas, mãos, céus, janelas. Hoje em dia, procuro o céu e tento encontrar o mesmo brilho que via nos seus olhos.
Acho e consigo ouvir aquelas canções de discos castanhos.
A música que se formou, portanto, era esse rosto.
O brilho dos olhos. Quando olho pro céu e vejo uma estrela, lembro desse brilho.
O céu, com todo seu esplendor, me presenteia todos os dias com o brilho dos olhos de alguém.
A voz rouca, serena e forte tentava sair, mas eu só ouvia um piano ritmado nas batidas de um coração bem fraco. Tentava cantar a fim de me levar a vários lugares - livros empoeirados que falavam de amor e sexo, um relógio de corda, pés rachados, cabelos ralos e ruivos, um eterno cuidado de onde colocar as mãos. Por fim, uma cama de hospital.
A voz não saiu.
Bem, foi aí que usamos esses discos castanhos. Conseguimos ouvir: O amor é maior, nós sabemos. Vá.
Agora esses olhos se fecharam e nós nos falamos pelo coração - e pelo brilho das estrelas.
O céu virá em amarelo pra te contemplar.

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