quarta-feira, 19 de outubro de 2016

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É o interno
Da onde vim
Pra onde vou
É nele que sinto o sabor das coisas
E o cheiro delas,
de mim
Através dele que eu sei olhar com meus olhos os outros olhos que me cercam
Acho que é isso que chamam de deus.

O vento balança e eu fico.

Eu agradeço a toda natureza por me ensinar com plenitude.
Agradeço às pequenas plantinhas por me trazerem o frescor de ser assim tão pequena.
À terra por sempre comportar e amaciar meus pés, por me dar chão e sustento.
À sombra das grandes árvores pelo refresco do meu corpo às vezes tão caloroso.
Ao sol, grande pai celeste, que ilumina meus olhos e esquenta meu peito.
À lua que me ouve sem nenhum julgamento, trata do meu coração como seu próprio.
Agradeço a toda forma de vida, porque hoje meu corpo morre - hoje minha pele é mar sem onda, azul, escura e silenciosa.
Agradeço a toda sutileza por me mostrar aquilo que não se vê. Especialmente hoje, agradeço à senhora da morte em mim.
Agradeço os ciclos e a meus olhos pálidos e abissais que profundo vêem.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Abuela.

Minha vó deixava as suas ervas, alimentos, de molho para "curtirem". Curarem. Isso se dá pra acentuar seu gosto, seu cheiro, potencializar seu efeito. O tempo da alma, das coisas, por vezes, me parece ser assim. Como, de fato, se precisarem de uma alquimia realizada para a transformação. O que vem do nosso coração também precisa de tempo pra curar. Curtir. Obrigada, abuela

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Remate pra luz que acende.

meados de 2013, de um caderno antigo:

De onde vem o vão?
Pela postura ereta
Calmaria nos olhos finos
A armadura que cobre pra segurar
O sorriso discreto
Com as pupilas em aberto.

De onde vem o vão?
Pro sexo descarado
Insensato
Pra onde vai o mato
Plantado, cultivado
Nasce onde?
Semeado em que campo?
Em que raiz germinam todas as juras,
os carinhos,
vem de onde?

Não estão fincados
todos os beijos ficam no vento
de tão livres que são.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Já troquei de disco.

02/07/2016

Me incendiou
Depois me transformou em correnteza

Me abriu
Vasculhou
Abrigou

Trouxe cartas
Memórias
Histórias

Mergulhou seu corpo em mim
Jogadas num tapete da sala

Me tocou
Me profanou
Me descobriu
Me despertou
Me incendiou
E me transformou em correnteza

Hoje sigo meu rio
Mergulhada no amor que mora em mim
E te lembro no tapete da sala
Quente
Incendiada
E profanada
Por mim

Me esgueirando
Pela beira
Das margens que esbarro
Por aqui, sigo:

Incendiada

sábado, 14 de maio de 2016

178 dias.

Ontem, passando pelo eixo monumental, avistei o congresso.
Brasília é uma cidade bonita, a donzela, que encanta os olhos das que a percebem. Parece que sou transportada pra outro tempo-espaço quando vejo suas sutilezas.
No meio de toda essa estrutura, de largas raízes, grande porte, refletores iluminavam as paredes do congresso em vermelho e rosa. Achei curiosa a escolha de cores, levando em conta a atual conjuntura do governo. Mas também o azul, que tanto me serena, segue o caminho da inércia e da acomodação, então acho que qualquer cor me levaria ao caos.
O rosa que firmaria o amor se revelou estranho aos meus olhos, desconfiei.
O vermelho me trouxe sangue, desespero, poder e agonia.
Vi o palácio do planalto todo amarelo e pensei na miséria que ocupa essa casa.
Os ministérios estavam em laranja como se estivessem em constante trabalho.
O resto tudo verde e amarelo.
Me sinto traída.
Minha desconfiança anda ao meu lado em todos os lugares que coloco os pés nesses lugares. Eu sei que não lido com o coletivo, eu lido com um só, e por isso corro perigo.
A ação vem por mim e por todos, sempre.
Na próxima vez, imaginarei tudo aquilo branco.

domingo, 13 de março de 2016

O manto azul.

Deve ser da minha natureza mergulhar,
volta e meia voltar onde o ar encontra a água
pra sentir o sol

Sinto que é da minha natureza fluidamente
não me contentar com as beiradas.
Mergulho, em silêncio, calmamente
recebo aquela falta de luz que só o mar
pode gerar por ser tanta água

Sem alarmes, desespero ou ganância
O fundo do mar parece não ter desterro

Deve ser da minha natureza mergulhar
em águas que não vivi
em fados lusitanos
em histórias, como essa, que escrevi

Eu mergulho. Sem ter o peso da dúvida, do receio, da proeza.

Atravesso as faixas d'água como meu corpo, em superfície sensível, é atravessado pelo o que passa por aqui.
Eu atravesso, arrisco, mergulho, bebo, calo,
do rio, do mar, do lago, da ribanceira, da cachoeira
da poça, do vivo
mas por vezes volto à beira mar pra sentir o sol
é da minha natureza ser assim.

2015, dias depois de um sonho com uma flor azul que virava uma mulher de longos cabelos que virava uma anciã de manto azul.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Cumprimento.

Ainda percebo o reboliço que tem
quando os olhares se mantém.
mas, me diz aqui, na bubuia
Como vão as coisas?

Agora se não mais imaginamos viver como os pássaros
não temos colapso
pergunto pra ti: Como vão as coisas?

Se agora saiu do compasso
perdeu o abraço...
Como vão as coisas?

Do ramalhete entregue,
semeadura na terra.
Não desejo saber sobre a chuva,
por onde passa o vento
e nem se pelo chão a terra dará espaço.
Como vão as rosas?

Entre pele
desejos
sabores
Como vão as coisas?

No meio dos seus cabelos compridos,
Como vão as coisas?

Pelo meio dessas pernas onde tu andas,
Como vão as coisas?

E no sorriso transbordante que tu carregas,
Como vão as coisas?

Nessas imagens por tu reproduzidas,
Como vão as coisas?

Entre balizas
marcha-ré
esquinas.
teias
areias
amores
odores,
Como vão as coisas?

Vai.
Pela poeira dos cantos
a saudade jogada
luz acumulada
Vamos firmar nossos olhos
e nos dizer "Como vão as coisas?"
Vamos atar nossas mãos
testa na testa.
Vamos de bordão a borrão
selvagem (à) paixão
loucura e exatidão
Como vão as coisas?

A beira:
íngreme e sorrateira
eficaz e traiçoeira
pra matar minha sede.
Pelos outros pássaros que nos resta contar:
Como vai você?

meados de 2014, numa noite de saudade.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Minha casa.

Eu rodo a chave pra abrir a porta
Me certifico que ela tenha uma janela ou alguma varanda que me permita olhar o céu noite e dia

Depois de um dia longo de correria

Eu rodo a chave
Eu abro a porta
Eu faço a cama
E sempre encontro uma mulher nua
com as pernas abertas pro céu na varanda
com olhar certeiro, inteiro
em silêncio e só.

Eu rodo a chave
Eu abro a porta
Penso na família que está em algum lugar que eu nem mais sei
Encontro a mesma mulher
sentada
ouvindo
todos os causos de uma gente que não deve olhar o céu.

Eu rodo a chave
Eu abro a porta
Eu faço a cama
e por lá mesmo encontro a mulher
de pele dourada
que está pronta
pra se namorar
e abrir a porta
e rodar a chave
e fazer a cama
e olhar o céu.

3 de dezembro, 2015.