Foi criada e gerada por mim. No meu ventre, eu alimentava e supria necessidades do que foi, carreguei por meses com um eterno prazer.
Num encaixe de quebra cabeça, eu te encaixava. Você sendo gerada criando formas admiradas por mim, se formando por dentro e por fora.
Meu organismo não era o responsável por tal fato, o amor era. Ele construía passo a passo detalhadamente, desde cada fio de cabelo até as digitais do seu pé.
Levava dentro de mim o que eu tinha, alimentava o que podia e segurava o quanto cabia nas mãos. A sensação das mãos cheias era como se existisse um pote de balas bem grande e me falassem que eu poderia pegar quantas quisesse, eu enfiava a mão e fazia uma pirâmide de balas transbordando em minhas mãos, pegava tudo o que podia. Agarrava. Trazia porque tinha sede.
Se foi por ter os olhos maiores que a barriga, não faço ideia, nada foi explicado. Tudo foi por sensações e por estas mesmas você me deixou. Saiu do meu ventre e minha dor foi realmente de um parto, sendo sincera foi um aborto.
Você corre e corre, não acha uma ponta de soluções. Por um lado estraga sua vida, por outro estragam sua vida. O corpo é meu, eu tenho essa decisão, mas ele era seu. Por mim, saberia o que fazer com ele e quando quisesse sair era só soltar o encaixe - como foi feito.
Sofri um aborto. Dos dolorosos que pode sentir rasgando por dentro, tirando parte por parte, pedaço por pedaço que foi construído com meu amor. Que foi carregado meses por mim.
Meses em vão, jogados ao vento. Caindo de precipícios.
As balas que eu colhi, por gula, despencaram pelos meus dedos. Indo uma por uma ao chão, cada bala que caia era um pedaço seu que saia de mim. Cada pedaço que saia era a dor de um aborto.
Confesso que não fiquei surpresa.
O vento já canta em outro ritmo, as batidas já não são tão fortes.
As roupas continuam rasgadas e sujas e a porta continua no trinco.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Tua pura lavanda
Sujar-se com alguém, ficar malvisto, proceder mal com outrem.
Eu preciso ficar suja, preciso enlamear tudo o que a todo custo colocaram em mim sem eu ao menos pedir. Sujar com as próprias mãos. Tragar um cigarro e saber que a fumaça vai entrar no meu corpo se impregnando por suas paredes, apagando o que me forçam a ser. Despedaçando as remendas e escolhendo nos dedos o meu verdadeiro eu.
Suja. Me dizem ser suja. Suja como aquela menina negrinha que você viu no sinal pedindo trocados desprezados por ti, mas que dão o pão de cada dia, na verdade de cada mês da garota. E você por puro bom julgador que é, resmungou "Coitadinha, suja como uma negrinha".
Pois então que sejamos sujos, imundos, mas não compartilharemos do seu perfume doce e de tua voz áspera. De áspero já basta o estrago que a nicotina vai fazer.
Que nos tornemos os sujismundos como os pedintes de rua, os ratos que enchem tua casa, sejamos a poeira incrustada em cada canto do teu quarto com cheiro de lavanda. Somos o óleo que cai do seu cabelo escorrido, o podre que há dentro de você, porque teu corpo por dentro cheira mal como de todos da sua raça - apodrece, desmancha, degenera, vira pó. Não vou ousar dizer que são iguais, pois assim seria obrigada a ouvir teu discurso chulo dando baforadas doces no meu rosto sujo e negrinho. Eu teria embrulhos no estômago por semanas. Teu ar deslumbrante e cobiçado pelos olhos da banca encostariam em mim, falando de suas classes e anseios, dizendo que cada um tem o que merece pois lutou por aquilo, ou seja, fez o árduo trabalho de nascer e se tornar desprezível.
A única coisa que eu faria seria repugnar, tontearia minha cabeça e começaria a ter um troço bem nos seus pés. Ainda sim não me tocaria porque sou imunda.
Embora acredite que todos tem o bom dentro de si, que o amor fale mais alto que sua voz fina. Não se torne, olhe pra dentro.
Quando finalmente eu me livrasse do enjôo, sairia pra fumar um cigarro ou até seria capaz de comer lama pro seu cheiro impecável sair dos meus póros. Você não me daria a mínima atenção, seguiria seus padrões voltando a se banhar de perfume. E eu continuaria "suja como uma negrinha".
Eu preciso ficar suja, preciso enlamear tudo o que a todo custo colocaram em mim sem eu ao menos pedir. Sujar com as próprias mãos. Tragar um cigarro e saber que a fumaça vai entrar no meu corpo se impregnando por suas paredes, apagando o que me forçam a ser. Despedaçando as remendas e escolhendo nos dedos o meu verdadeiro eu.
Suja. Me dizem ser suja. Suja como aquela menina negrinha que você viu no sinal pedindo trocados desprezados por ti, mas que dão o pão de cada dia, na verdade de cada mês da garota. E você por puro bom julgador que é, resmungou "Coitadinha, suja como uma negrinha".
Pois então que sejamos sujos, imundos, mas não compartilharemos do seu perfume doce e de tua voz áspera. De áspero já basta o estrago que a nicotina vai fazer.
Que nos tornemos os sujismundos como os pedintes de rua, os ratos que enchem tua casa, sejamos a poeira incrustada em cada canto do teu quarto com cheiro de lavanda. Somos o óleo que cai do seu cabelo escorrido, o podre que há dentro de você, porque teu corpo por dentro cheira mal como de todos da sua raça - apodrece, desmancha, degenera, vira pó. Não vou ousar dizer que são iguais, pois assim seria obrigada a ouvir teu discurso chulo dando baforadas doces no meu rosto sujo e negrinho. Eu teria embrulhos no estômago por semanas. Teu ar deslumbrante e cobiçado pelos olhos da banca encostariam em mim, falando de suas classes e anseios, dizendo que cada um tem o que merece pois lutou por aquilo, ou seja, fez o árduo trabalho de nascer e se tornar desprezível.
A única coisa que eu faria seria repugnar, tontearia minha cabeça e começaria a ter um troço bem nos seus pés. Ainda sim não me tocaria porque sou imunda.
Embora acredite que todos tem o bom dentro de si, que o amor fale mais alto que sua voz fina. Não se torne, olhe pra dentro.
Quando finalmente eu me livrasse do enjôo, sairia pra fumar um cigarro ou até seria capaz de comer lama pro seu cheiro impecável sair dos meus póros. Você não me daria a mínima atenção, seguiria seus padrões voltando a se banhar de perfume. E eu continuaria "suja como uma negrinha".
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Goles
Somos desconhecidos. Desconhecidos de mim, de você, soltos pelo mundo.
Ao tomar o primeiro gole bicando os lábios naquele líquido amargo, fomos obrigados a nos deixarmos ir. Ir de nós.
A vida seguia ligeira e conturbada, mas seguia. Ia cambaleando de mesa em mesa pedindo um isqueiro pra se fartar de tanta nicotina, afim de lhe subir à cabeça e ir levando de forma mais suportável. Se acostumando com seus desaventos por sempre bater na mesma tecla.
Estava abatida, exausta e tinha poucos trocados no bolso.
Teu rosto era de uma mulher, que quem era muito atento ao olhar, a via nua. Nua de todos os protótipos que exigiam a ela. Seguia uma voz que vinha de dentro, e pelo o que sei, nunca lhe faltara. Um dia chegou a me contar que era por vezes feliz, mas que se via melhor no escuro por não enxergar nada, no silêncio por ouvir o que seu corpo transmitia. Tuas batidas, respiração, o movimento que fazia repetidamente com a mão em torno do anel que levava no dedo. Era nua de tudo e, creio eu, seja por isso que eu ainda a tinha em mente.
Acontece que tem dias que se está descrente de tudo, daqueles que passa despercebido em meio uma poça d'água e ensopa os pés. Foi nesses que tudo desandou. Não digo que tenha sido fraqueza, porque desta só lhe aparentava ser física, tinha um gênio forte e não levava em conta seu corpo estar cansado ou não. Lhe digo talvez que tenha sido um amor, o que explica muita coisa.
Desandou e deu um nó. Dos difíceis de desabrochar.
Tudo começou com um gole. Parecia um gole de insensatez, de imprudência, absurdo. Mas era aliviador. Sumia com a dor dos seus ossos que muitas vezes não lhe deu a mínima importância, a dor do seu peso que carregava nas costas resultando sua coluna quebradiça, dor de órgãos vitais pra sua sobrevivência. Era realmente um daqueles remédios "faz tudo", dos deuses.
Vou narrar tudo como eu cheguei a ver, pois depois disso, eu que estive naquele quarto escuro ouvindo minhas batidas cardíacas, tomei sua dor.
Estava lá, passando despercebida por tudo. O que lhe encostava, ficava. Aonde deitava, dormia. Desajeitada do eterno perdão que nunca recebeu. Por não prestar atenção em nada o que acontecia, mergulhou no que estava mais próximo. Tomou seu primeiro gole.
Teus lábios eram ariscos e hábeis, como se fizessem aquilo desde os seus primeiros dias de vida. Eles tocaram a borda e, por gula, receberam com alívio mais e mais goles. Foi aí que se perdeu da vida que sempre levou, da mãe que sempre lhe dizia que tudo era errado, e se perdeu de mim pois já não sabia nem quem era ela mesma.
Me deixando solta no mundo, mas segurando minha mão pela última vez e dizendo "Cuida da minha dor, um dia volto pra buscar".
Como eu tentei dizer a umas linhas atrás, depois disso a vida seguiu, ligeira e conturbada, mas seguiu.
Ao tomar o primeiro gole bicando os lábios naquele líquido amargo, fomos obrigados a nos deixarmos ir. Ir de nós.
A vida seguia ligeira e conturbada, mas seguia. Ia cambaleando de mesa em mesa pedindo um isqueiro pra se fartar de tanta nicotina, afim de lhe subir à cabeça e ir levando de forma mais suportável. Se acostumando com seus desaventos por sempre bater na mesma tecla.
Estava abatida, exausta e tinha poucos trocados no bolso.
Teu rosto era de uma mulher, que quem era muito atento ao olhar, a via nua. Nua de todos os protótipos que exigiam a ela. Seguia uma voz que vinha de dentro, e pelo o que sei, nunca lhe faltara. Um dia chegou a me contar que era por vezes feliz, mas que se via melhor no escuro por não enxergar nada, no silêncio por ouvir o que seu corpo transmitia. Tuas batidas, respiração, o movimento que fazia repetidamente com a mão em torno do anel que levava no dedo. Era nua de tudo e, creio eu, seja por isso que eu ainda a tinha em mente.
Acontece que tem dias que se está descrente de tudo, daqueles que passa despercebido em meio uma poça d'água e ensopa os pés. Foi nesses que tudo desandou. Não digo que tenha sido fraqueza, porque desta só lhe aparentava ser física, tinha um gênio forte e não levava em conta seu corpo estar cansado ou não. Lhe digo talvez que tenha sido um amor, o que explica muita coisa.
Desandou e deu um nó. Dos difíceis de desabrochar.
Tudo começou com um gole. Parecia um gole de insensatez, de imprudência, absurdo. Mas era aliviador. Sumia com a dor dos seus ossos que muitas vezes não lhe deu a mínima importância, a dor do seu peso que carregava nas costas resultando sua coluna quebradiça, dor de órgãos vitais pra sua sobrevivência. Era realmente um daqueles remédios "faz tudo", dos deuses.
Vou narrar tudo como eu cheguei a ver, pois depois disso, eu que estive naquele quarto escuro ouvindo minhas batidas cardíacas, tomei sua dor.
Estava lá, passando despercebida por tudo. O que lhe encostava, ficava. Aonde deitava, dormia. Desajeitada do eterno perdão que nunca recebeu. Por não prestar atenção em nada o que acontecia, mergulhou no que estava mais próximo. Tomou seu primeiro gole.
Teus lábios eram ariscos e hábeis, como se fizessem aquilo desde os seus primeiros dias de vida. Eles tocaram a borda e, por gula, receberam com alívio mais e mais goles. Foi aí que se perdeu da vida que sempre levou, da mãe que sempre lhe dizia que tudo era errado, e se perdeu de mim pois já não sabia nem quem era ela mesma.
Me deixando solta no mundo, mas segurando minha mão pela última vez e dizendo "Cuida da minha dor, um dia volto pra buscar".
Como eu tentei dizer a umas linhas atrás, depois disso a vida seguiu, ligeira e conturbada, mas seguiu.
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