domingo, 9 de março de 2014

"Orelha de quem trabalha forte é dura."

Era mulher quando subia nas mais altas mangueiras para escapar dos cascudos do irmão mais velho.
E foi por entre as poucas luzes laranjas de uma noite chuvosa, que me contou fugir de casa, na sorrateira noite, pra encontrar com amigxs quando tinha dezesseis anos.
Foi mulher quando subiu um morro, levando na cabeça uma bacia d'água, junto com sua mãe, até o topo (porque lá ficava mais próxima de alguma divindade) pra pedir que o céu desabrochasse água e lavasse o fogarel que queimava as almas confusas.
Por tamanha ser, acreditou na vida.
E em uma dessas, viu um filho ser levado, por águas, nos braços da morte, diante dos seus olhos.
E abandonada com duas crianças em seios no meio do mundo.
Acreditou na vida.
Unhas e dentes, inclusive, se foram.
Ergueu seu ninho no meio de uma floresta sábia, com duas pequenas.
Era mulher quando largou tudo por um amor.
De mala, cuia e com quatro olhos serelepes que descobriam o mundo.
Era mulher quando levou no fundo da gaveta uma arma, suas garras, que lhe protegeram de um covarde que tentou invadir uma casa regada "só" por mulheres.
Do tiro disparado pela janela, o cabra correu pelos cabelos curtos da minha vó, mas ela mesma dizia: "Ele correu foi de uma mulher".
Uma vez me disse: "Meus pés são assim duros, porque eu tirava os sapatos pra voltar pra casa. Nenhum homem me alcançava de noite".
Aí se criou um hábito nosso de sempre passar cremes nos pés antes de dormir.
O sapato lhe cegava os sentidos.
Seus olhos, seu tato, no meio da escuridão, estavam nas solas de seus pés. Do sujo que endureceu, da garra que se fincou, da força que estremeceu.
Eram pés duros, cascudos, que contavam histórias onde meus pequenos ouvidos ficavam sedentos pra ouvir.

Foram três mulheres que me pariram.
Foram três lobas me ensinando onde melhor eu colocaria meus pés no asfalto.
Em como arregaçar as pernas pra sentar num toco de madeira e escutar histórias de interior.
Minha vó era uma dessas mulheres selvagens que correm com os lobos.
Quando usava de folhas encontradas no meio da rua pra curar o que lhe atingia.
E a mesma mão que um dia apontou, foi a mesma que tocou o rosto num afago.
Foi a mesma que segurou nos lençóis por entregar seu corpo.
A mesma que, por seguir sua intuição, teve que segurar o corpo da frente que veio para atropelá-la como locomotiva.
Foi a mesma que endureceu, como seus pés e orelhas, pra sustentar escalar em qualquer lugar pra se proteger.

Minhas mãos sempre foram curiosas com todo corpo dessa mulher, meus dedos adoravam descobrir por onde seus pés tinham andado, onde suas mãos repousado, seu ventre nascido, seu rosto encostado. Ela tinha as orelhas mais duras que já peguei na vida, e dizendo ela, eram duras porque "Orelha de quem trabalha forte é dura" - eretas, atentas.
Depois desse dia eu sempre quis levar o saco de arroz pra casa.

A luz me foi dada por uma matilha de mulheres.
Eu saí do ventre de um triângulo.
Eu nasci de mulheres.
Sua filha de mundo.
Foram três mulheres que me pariram,
e uma força coletiva feminina inteira que me move.

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