I
a incerteza da vida me trás o equilíbrio do bom e do ruim.
me excita e me deixa amedrontada.
excita porque certeza e estagnação me repele muito mais que o medo, simples mas grande, de onde colocar os pés no meio do abismo.
e amedronta porque o abismo me parece fundo demais, branco demais, preto demais... neutro demais.
render-se a vida pode ser pleno.
abdicar não é luta, é generosidade.
é fechar os olhos e abaixar o queixo com a estampa de um sorriso.
II
se colocar no lugar dx outrx, é por vezes, sair do seu lugar.
se colocar no seu lugar é ter consciência de si,
onde tu gostas das mãos?
tua pele arrepia quando o toque é mais superficial ou mais apertado?
suas fraquezas são claras?
tuas mortes?
tuas vidas?
é bom saber caminhar sozinhx.
é bom saber de si.
III
apesar dos pesos, pesares
vamos de mãos dadas.
domingo, 30 de março de 2014
segunda-feira, 17 de março de 2014
Cabelo nos ombros.
Bota a mesa
Compra o pão
Me sirvo
Delicio do pão, da geléia,
a fartura escorre pela boca
mas é só tu aparecer na porta
que eu corro oferecendo a cadeira, ao lado, na mesa.
Eu digo assim
de olhos espremidos
pra não me assustar de tanta beleza
"como vai? tu ficas?"
de olhos arregalados
tu me fitas
me engole
toda pele
toda boca
toda íris
Não sei bem,
mas já pergunto
,pro tempo que sempre damos,
ainda há tempo?
pras carícias que gostávamos
ainda há nuca?
pros beijos assustados
ainda há língua?
pros olhos curiosos
ainda há corpo?
pro nariz retorcido
ainda há cheiro?
pra boca atrevida
ainda há flores?
existe uma roseira, presa nos meus dentes, sedenta pra dizer que assim como floresce, se fecha.
Compra o pão
Me sirvo
Delicio do pão, da geléia,
a fartura escorre pela boca
mas é só tu aparecer na porta
que eu corro oferecendo a cadeira, ao lado, na mesa.
Eu digo assim
de olhos espremidos
pra não me assustar de tanta beleza
"como vai? tu ficas?"
de olhos arregalados
tu me fitas
me engole
toda pele
toda boca
toda íris
Não sei bem,
mas já pergunto
,pro tempo que sempre damos,
ainda há tempo?
pras carícias que gostávamos
ainda há nuca?
pros beijos assustados
ainda há língua?
pros olhos curiosos
ainda há corpo?
pro nariz retorcido
ainda há cheiro?
pra boca atrevida
ainda há flores?
existe uma roseira, presa nos meus dentes, sedenta pra dizer que assim como floresce, se fecha.
domingo, 9 de março de 2014
"Orelha de quem trabalha forte é dura."
Era mulher quando subia nas mais altas mangueiras para escapar dos cascudos do irmão mais velho.
E foi por entre as poucas luzes laranjas de uma noite chuvosa, que me contou fugir de casa, na sorrateira noite, pra encontrar com amigxs quando tinha dezesseis anos.
Foi mulher quando subiu um morro, levando na cabeça uma bacia d'água, junto com sua mãe, até o topo (porque lá ficava mais próxima de alguma divindade) pra pedir que o céu desabrochasse água e lavasse o fogarel que queimava as almas confusas.
Por tamanha ser, acreditou na vida.
E em uma dessas, viu um filho ser levado, por águas, nos braços da morte, diante dos seus olhos.
E abandonada com duas crianças em seios no meio do mundo.
Acreditou na vida.
Unhas e dentes, inclusive, se foram.
Ergueu seu ninho no meio de uma floresta sábia, com duas pequenas.
Era mulher quando largou tudo por um amor.
De mala, cuia e com quatro olhos serelepes que descobriam o mundo.
Era mulher quando levou no fundo da gaveta uma arma, suas garras, que lhe protegeram de um covarde que tentou invadir uma casa regada "só" por mulheres.
Do tiro disparado pela janela, o cabra correu pelos cabelos curtos da minha vó, mas ela mesma dizia: "Ele correu foi de uma mulher".
Uma vez me disse: "Meus pés são assim duros, porque eu tirava os sapatos pra voltar pra casa. Nenhum homem me alcançava de noite".
Aí se criou um hábito nosso de sempre passar cremes nos pés antes de dormir.
O sapato lhe cegava os sentidos.
Seus olhos, seu tato, no meio da escuridão, estavam nas solas de seus pés. Do sujo que endureceu, da garra que se fincou, da força que estremeceu.
Eram pés duros, cascudos, que contavam histórias onde meus pequenos ouvidos ficavam sedentos pra ouvir.
Foram três mulheres que me pariram.
Foram três lobas me ensinando onde melhor eu colocaria meus pés no asfalto.
Em como arregaçar as pernas pra sentar num toco de madeira e escutar histórias de interior.
Minha vó era uma dessas mulheres selvagens que correm com os lobos.
Quando usava de folhas encontradas no meio da rua pra curar o que lhe atingia.
E a mesma mão que um dia apontou, foi a mesma que tocou o rosto num afago.
Foi a mesma que segurou nos lençóis por entregar seu corpo.
A mesma que, por seguir sua intuição, teve que segurar o corpo da frente que veio para atropelá-la como locomotiva.
Foi a mesma que endureceu, como seus pés e orelhas, pra sustentar escalar em qualquer lugar pra se proteger.
Minhas mãos sempre foram curiosas com todo corpo dessa mulher, meus dedos adoravam descobrir por onde seus pés tinham andado, onde suas mãos repousado, seu ventre nascido, seu rosto encostado. Ela tinha as orelhas mais duras que já peguei na vida, e dizendo ela, eram duras porque "Orelha de quem trabalha forte é dura" - eretas, atentas.
Depois desse dia eu sempre quis levar o saco de arroz pra casa.
A luz me foi dada por uma matilha de mulheres.
Eu saí do ventre de um triângulo.
Eu nasci de mulheres.
Sua filha de mundo.
Foram três mulheres que me pariram,
e uma força coletiva feminina inteira que me move.
E foi por entre as poucas luzes laranjas de uma noite chuvosa, que me contou fugir de casa, na sorrateira noite, pra encontrar com amigxs quando tinha dezesseis anos.
Foi mulher quando subiu um morro, levando na cabeça uma bacia d'água, junto com sua mãe, até o topo (porque lá ficava mais próxima de alguma divindade) pra pedir que o céu desabrochasse água e lavasse o fogarel que queimava as almas confusas.
Por tamanha ser, acreditou na vida.
E em uma dessas, viu um filho ser levado, por águas, nos braços da morte, diante dos seus olhos.
E abandonada com duas crianças em seios no meio do mundo.
Acreditou na vida.
Unhas e dentes, inclusive, se foram.
Ergueu seu ninho no meio de uma floresta sábia, com duas pequenas.
Era mulher quando largou tudo por um amor.
De mala, cuia e com quatro olhos serelepes que descobriam o mundo.
Era mulher quando levou no fundo da gaveta uma arma, suas garras, que lhe protegeram de um covarde que tentou invadir uma casa regada "só" por mulheres.
Do tiro disparado pela janela, o cabra correu pelos cabelos curtos da minha vó, mas ela mesma dizia: "Ele correu foi de uma mulher".
Uma vez me disse: "Meus pés são assim duros, porque eu tirava os sapatos pra voltar pra casa. Nenhum homem me alcançava de noite".
Aí se criou um hábito nosso de sempre passar cremes nos pés antes de dormir.
O sapato lhe cegava os sentidos.
Seus olhos, seu tato, no meio da escuridão, estavam nas solas de seus pés. Do sujo que endureceu, da garra que se fincou, da força que estremeceu.
Eram pés duros, cascudos, que contavam histórias onde meus pequenos ouvidos ficavam sedentos pra ouvir.
Foram três mulheres que me pariram.
Foram três lobas me ensinando onde melhor eu colocaria meus pés no asfalto.
Em como arregaçar as pernas pra sentar num toco de madeira e escutar histórias de interior.
Minha vó era uma dessas mulheres selvagens que correm com os lobos.
Quando usava de folhas encontradas no meio da rua pra curar o que lhe atingia.
E a mesma mão que um dia apontou, foi a mesma que tocou o rosto num afago.
Foi a mesma que segurou nos lençóis por entregar seu corpo.
A mesma que, por seguir sua intuição, teve que segurar o corpo da frente que veio para atropelá-la como locomotiva.
Foi a mesma que endureceu, como seus pés e orelhas, pra sustentar escalar em qualquer lugar pra se proteger.
Minhas mãos sempre foram curiosas com todo corpo dessa mulher, meus dedos adoravam descobrir por onde seus pés tinham andado, onde suas mãos repousado, seu ventre nascido, seu rosto encostado. Ela tinha as orelhas mais duras que já peguei na vida, e dizendo ela, eram duras porque "Orelha de quem trabalha forte é dura" - eretas, atentas.
Depois desse dia eu sempre quis levar o saco de arroz pra casa.
A luz me foi dada por uma matilha de mulheres.
Eu saí do ventre de um triângulo.
Eu nasci de mulheres.
Sua filha de mundo.
Foram três mulheres que me pariram,
e uma força coletiva feminina inteira que me move.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Das coisas que não são instantâneas.
Mas se o vento hoje parar
Meu gingado de loba
há de tratar.
Mas, só por hoje, se a camisa eu não rasgar
Aquela que dá vida através dos ossos
saberá como o calento em mim irá chegar.
É só por hoje que não deixo me atingir.
Quando o sorriso virar cinza
vou recolher as partes de mim
que deixei por cada parte (do corpo seu).
Pra dançar em cima de cada
pele,
suspiro
e abrigo.
E no fim, das cinzas, outra irá nascer.
Meu gingado de loba
há de tratar.
Mas, só por hoje, se a camisa eu não rasgar
Aquela que dá vida através dos ossos
saberá como o calento em mim irá chegar.
É só por hoje que não deixo me atingir.
Quando o sorriso virar cinza
vou recolher as partes de mim
que deixei por cada parte (do corpo seu).
Pra dançar em cima de cada
pele,
suspiro
e abrigo.
E no fim, das cinzas, outra irá nascer.
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