era tempo de lua
era tempo de lua cheia
seu leite que transbordava, branco,
era o mesmo que saia de mim.
eu dava leite
pra me suprir
a vida
sua amante, lua.
um lençol florido azul
transformou toda roseira
num manto
numa coroação, coração, azul.
eram flores largas
,largas como ando sendo com a vida,
com grandes pétalas azuis.
o mesmo ser que me dava amor
era o ser que eu procurava ser sobrevivente:
eu
azul
pétalas azuis.
a coroa azul
só precisou pesar nos meus ombros
pelas inconstantes palpitações que eu sentia por dentro.
e aceitava,
aceitava pensando que elas eram únicas,
mas mal sabia que essa teia já estava armada fazia tempo.
quando me coroei com o manto azul
coroei toda teia
coroei todas as pessoas que eu precisava viver
vivo pessoas pelo meu manto azul
vivo cada uma, cada teia, cada azul,
cada um com cada qual.
cada um como esse monte de luzes que vejo pela minha janela.
cada luz que vejo é a luz, de um manto azul, que foi coroado.
viver pessoas,
viver é aceitar.
é aceitar cada cor que vem de cada um.
é aceitar a mistura entre cada ponto de luz.
todos nós somos um ponto cintilante que existe aqui
cada ponto tem sua cor
como diz naquele livro dos abraços, sabe?
como se eu olhasse de cima, e todos parecessem umas fogueirinhas
porque cada um tem sua luz
e cada luz é de uma cor.
a minha luz hoje é um manto de pétalas azuis que foi botado sob meus ombros.
vela no toco, ar da boca,
da garganta,
pra acender o ar que rasteja por entre meus lábios
pra levar devagar o ar que toca o meu colo
pra sentir o meu pulmão trabalhar
bem nas minhas costas
é pra discernir bem pra onde ele vai jogar todo o ar que sai de mim
e pra onde ele decidir onde boto as mãos
o meu pulmão decide onde eu encosto minha cabeça
porque meu corpo é ar
o meu corpo é ar
o meu corpo é luz
o meu corpo é cor
o meu corpo é o que tenho pra guardar toda luz que existe aqui dentro
o meu corpo é caixa
campo de batalha
onde se recebe guerreiros
e eu sou sempre sobrevivente de mim mesma.
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