sábado, 28 de janeiro de 2012

Garçom, traz a conta, por favor.

No final quando vamos acertar as contas, descubro que devo demais. Quando se é deixado pra trás uma vez, pega-se trauma e isso me faz entrar pra dentro de mim.
Fechada.

Puxo a cadeira pra você sentar. Eu sento à mesa e me estico pra ajeitar teu cabelo. Não passa de uma refeição pra matar o gelo, ficaremos imóveis até alguém aparecer com nossos pratos. Não sei se isso se deve pela ligação, que é grande, ou pelo simples fato de tudo ter sido tão depressa que quando os olhares se cruzaram, minhas pupilas colocaram todo o meu eu dentro de ti, e vice versa. Finalmente o silêncio sufocador se quebrou, chegou um homem servindo nossos pratos. Comíamos rapidamente, talvez pela eterna falta do que falar. Você acabou, se limpou com um guardanapo, foi se esticando por cima da mesa me dando um beijo, puxou tua cadeira e saiu. Eu mal tinha acabado de comer, e quando me dei conta você já estava virando a esquina.
Virando a esquina da nossa página, a ponta dela. Colocou um teco de saliva nos dedos e empurrou o papel por fome de ler o que estava por vir.
Chamei o garçom e pedi a conta. A vontade de explodir era imensa, por pura falta do que eu dizia ser "sensível". Depois fui nomeando isso de outras formas: "Ser intenso", "É o signo que não bate". Fui fazendo um levantamento de tudo o que eu deveria ter feito pra não ter sido assim, só pra jogar a culpa em alguém. Foi aí que chegou a conta. Haviam dezenas de números, quatro casas.
Abri minha carteira e vi que não tinha tudo aquilo, o garçom percebendo toda minha euforia me disse pra não me preocupar - já haviam pago a minha conta uns minutos antes. De tão atordoada, apenas fiz que sim com a cabeça e sai.
E então eu te procurei, mas assim que te vi lembrei do nosso eterno silêncio. Recuei.
Talvez pela ligação que tínhamos feito antes, você me sentiu. Colocou teus olhos em mim e eu pude te sentir também. Pele com pele, uma empurrando a outra.
Até que cortou nosso olhar. Em seu auge, como sempre, me deu um beijo e saiu.
Desde então, lhe devo um acerto de contas.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Pés, mãos e portas.

São fotografias que se repetem sempre em todas minhas fases, só mudam os personagens. Um deles possui pés, que andam por aí tropeçando pela vida e de doloridos param pra repousar nas mãos de outro.
Mãos que se fecham do dia pra noite, sem previsão como a lua, mas se forçar o olhar consegue mira-las por meio de nuvens finas, forrando um tamanho lençol azul.
Lençol que tantas vezes me deitei te exigindo, querendo o que nem eu sabia o que era.
Quantas vezes me peguei olhando esse lençol e chamando por você? Inúmeras.
"Que o vento leve meu nome..." Pois eu mesma já levei tantas vezes, abria minha porta e te chamava pra entrar. Até o dia que você não entrou e eu fiquei atrás da porta fazendo súplicas pra campainha tocar de novo, tinha certeza que você ficou do outro lado ouvindo meus suspiros, mas não se rendeu e muito menos bateu na porta.
Saiba que todos os dias ao mesmo horário eu a deixava no trinco, colocava uma música e esperava você chegar. Perdi as contas das vezes que cochilei na cadeira.
Se eu fechar, estarei fechando na minha própria cara. Daquelas vezes que batem com tanta força que os cabelos chegam a pular pra trás.
Vou estar fugindo de mim.
É uma vontade que custam suprir, não faço a mínima do que você tem. Mas você tem.
O tempo já passou e meus pés já ficaram nas mãos de algumas que envergonhadas diziam:
- Posso entrar?
- Fique a vontade.
Mas a porta ainda continua no trinco, no mesmo horário, no mesmo lugar.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Auto

Talvez eu siga todos os roteiros em que me coloquei. Talvez eu seja tudo o que pensei por tentar encontrar explicações sensatas, ser.
Por tanto tempo me fechei, como um broto que não desabrochava por mais que todas as estações se passassem, na intenção de tentar entender tudo o que me acontecia.
Um dia li em algum lugar que permanecer com a cabeça tão vazia e quieta, nos deixa por produzir pensamentos desnecessários. Tendo valor o famoso "mente vazia é oficina do diabo". Blasfêmia?
Acontece que por estar tão alta, eu tentava a todo custo colocar a culpa em tudo o que me parecia válido. Então, agora, eu chego no fim do túnel e me arrebento.
Como alguém pode ter o mínimo de culpa por tudo isso? Logo eu, que sempre me disse deixar sentir. Tola.
É sem pensar mesmo, embora eu tenha o motivo de encontrar explicações na tentativa de ainda te segurar pelos braços. Mas que seja assim, se rendendo, se entregando, doando ossos e espírito.
Ulisses, cadê você?