sábado, 7 de dezembro de 2013

Anéis.

Por baixo do travesseiro se escondeu a mão.

Pelos gritos não dados, pela intimidade não dita.
Vou deixando, não meu corpo - como disse Clarice, mas partes de todo meu ser pelo caminho.
Vou deixando meus cabelos no suor, e trazendo os seus debaixo da minha roupa.
Vou cedendo a minha pele, minha língua, meu suspiro.
Enfio na sacola o nariz que franze quando as mãos não conseguem mais falar.
E a inquietude.
E todos os fios desgrenhados, do tempo, que se entrelaçam pelo ar,
,que entram e saem,
,quentes a soprar.
Faço cair todas as camadas pra finalmente encontrar um miolo - que agora só leva o anel, que deixei pelo caminho, no dedo.
Deixei pedaços do meu colo, do meu útero, da minha pele.
Da minha saliva. Do pescoço. Do sorriso, dou sorriso.
Deixei pedaços do meu carinho, do afago, trago a trago, a sair da boca.
Deixei um beijo nas costas, um cheiro na nuca e olhos pequeninos embaixo das cobertas.
Vou me deixando por aí. Na janela, no chuveiro, na esquina.
Nós só temos o que nos é dado. (eu tenho alguns carinhos)
E dar amor é um dos modos de ser livre nele mesmo.
Não só sou o que dou, mas só dou o que tenho.
pra te dar, tanto amor, eu tenho, e

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Vermelho.

O sangue puro escorria dos meus lábios.
Lábios pintados de vermelho.
Entregue ao vermelho - o dia que me fiz mulher estava.
No espelho via vermelho, no meu corpo e na minha luz.
Minha pele, elástica e adaptável, esperava toques com precisão; toques vermelhos.
Meu corpo consciente, em fogo ardente, estava em plena prontidão.
Eu me fiz mulher quando pulei no abismo do destino,
sem precisar de um hino.
Meu hino era meu sangue, meu corpo, minha alma.
Meu hino eram meus pelos, meus pés e mãos.
Eram meus seios, meus dedos, antebraço e tendão.
O dia que me fiz mulher não contorci meu corpo de insegurança, nem sequer tive que controlar aquela agonia nas cutículas das mãos.
Eu avistei o céu e soube que ele poderia ser a cama que me deitaria e mancharia tudo de vermelho.
No instinto da sacerdotisa, me fiz mulher em todas as cartas do tarot, peças de bardot, filmes de horror.
Eu me fiz mulher em toda ponta de esquina.
me fiz gente