terça-feira, 12 de março de 2013

O sopro vindo do coração.

Hoje acordei de olhos e cortinas fechadas por um anjo que velou meu sono.
Hoje acordei de manhãzinha, os passarinhos nem tinham cantado ainda.
Hoje acordei e tive o espírito renovado por uns sopros no rosto antes de cochilar.
Hoje acordei tranquila porque agora tem quem me olhe quando fecho os olhos.

O quarto ficou rosa pela manhã.
Minha janela recebe muita luz quando o sol nasce... Mas, hoje quando acordei, foi diferente. Hoje minha cortina deslizou pra que os raios não me acordassem, pra que meu sono fosse leve e fácil. Pra que eu despertasse mais cedo e me escorresse água dos olhos por sentir tamanha consideração.
Sabem, hoje teve alguém de vigia por todas as fases dos meus sonhos. Desde eu fechar os olhos até abri-los de novo. Hoje, quando fiquei sonolenta, me pegaram nos cabelos e acariciaram pra acalmar meu coração. Digo agora, certa de mim, esse carinho me afagou. Meu espírito sorri. E foi exatamente isso que havia pedido.
Agradeço, o rosa do meu quarto agora já pulou pra dentro de mim.
Já posso fechar os olhos num dia escuro, tem quem guia-los.

terça-feira, 5 de março de 2013

E aí, como está?

Podia jurar que sentia sua respiração por perto. Juraria até que aquele cheiro forte, do cobertor laranja peludo, vinha através dos meus lençóis. Você se lembra desse cobertor? Era bem pesado. Também tinha um lençol verdinho com flores rosas que te agradava muito. Gostava dele porque seus pés eram quentes. Tão quentes que nós comprávamos um creme fedorento, da minha professora do jardim, só pra eu fazer massagem nos seus pés antes de dormir. Eles ficavam bem gelados, porque entrava ar pela janela. Nunca mais vi essa professora, será que se mudou? Pintou o cabelo? Ainda é crente?
Falando em janela, você ainda adora ver a lua de noite? Aí, onde você está, dá pra ver de pertinho? Aqui dá. Minha janela tem uma paisagem linda, você ia adorar.
Fico tão feliz por você ter me ensinado a gostar da lua. Quando anoitecia e todas as luzes eram apagadas, o quarto ficava uma escuridão. Mas se abrisse a persiana, a lua clarearia todo o cômodo e eu não teria mais medo. Confesso que o que conseguia mesmo me acalmar eram meus pés gelados encontrando os seus, e também seus cachinhos que eu costumava enrolar pra dormir.
Rezava o terço todas as manhãs num programa católico. Chegou até a me contar um dia que adorava um dos caras, um médico cujo nome era Cristiano. Bem notei que foi o mesmo nome do seu filho mais velho, morreu logo quando criança. Afogado. E você se afogou na dor que jurou nunca ter sentido pior.
Até nisso você foi incrível comigo. Não sinto dor nenhuma por você, eu sinto amor.
Não acredito muito em laços familiares, acredito só em laços. Portanto, não faço muita ideia do nome que se daria a nós duas, mas já digo logo que éramos bem enlaçadas. Várias voltas em torno de um (nó)s.
Bem, você ainda come a comida dentro da folha de alface? Esses dias sentei à mesa e me deparei com uma folha enorme. Caberia quase um terço do prato... Mas eu cortei, sabe? Não tem mais muita graça sem você aqui. Ninguém acharia engraçado se a comida caísse toda por tão desastrada que eu sou. Ah, e de feijão frito? Queijo com açúcar? Mas tenho certeza que, pão com manteiga molhado no café quente, você come.
Lembra do morcegão? Aquele casaco de frio azul escuro? Você botava sempre que estava muito frio e ele ficava quase até os seus joelhos. De quem era? Seu mesmo? Porque parecia caber umas três de você dentro. Falando nisso, esses dias entrou um morcego no meu quarto, acredita? Todo mundo teve medo de tirar. Você tiraria, tenho certeza. Era uma das pessoas mais corajosas que já conheci.
Sabe, há um tempo atrás, eu fiquei te olhando pela minha janela. Agradeci por tudo. Tem vezes que antes de dormir eu ainda falo contigo, tomara que ouça. Quando vou pegando no sono e fecho os olhos, posso jurar que você aparece e me nina. Acordo com o travesseiro todo molhado no outro dia, mas não se sinta mal por isso. É que às vezes a razão me pega de jeito e fica dizendo que só tem o brilho da lua pra iluminar meu quarto. Eu fico repetindo, apostando com ela, que a brisa que entra pela janela ainda é para esfriar seus pés.
Falando em perder a razão, ontem recebi uma rasteira que devo ter quebrado três costelas. Dizem que é só repousar que vai cicatrizando, vamos ver né...
Quase ia me esquecendo, eu pendurei nossa foto na parede. Aquela que você me fez rir até pelos olhos, sabe? Em que nossos sorrisos se encontram. Essa mesmo. Coloquei uns dias antes do seu aniversário.
Aliás, parabéns. Ninguém aqui teve muita coragem de falar no seu nome, mas todos dizem sentir saudades.
Tomara que aí, onde você está, tenha tudo o que sempre gostou. Do cobertor ao feijão frito.
Eu espero o dia que seu lençol florido vá cobrir meu chão, se transformando num imenso gramado de flores rosas, nesse dia vou saber que darei meu último suspiro. Assim como, pra mim, o seu foi entregue.