sábado, 26 de janeiro de 2013

Mas ficam os retalhos.

Um dia comprei um par de sapatos. Não lembro do ano, então quem dirá do mês... Só lembro que era dia pela luz do sol.
Era um dia em que pude sair de casa só levando as vestes leves que cobriam meu corpo, elas dançavam e eu também. Era um dia de vento gostoso.
Tive vontade de tirar aquilo que cobria meus pés e sentir o orvalho na grama, tocar tudo o que conseguir até que minhas mãos pudessem sentir de tudo.
Pois foi nesse dia que eu comprei um par de sapatos. Poderia ter planejado ir ao lugar "x", comprado os sapatos "y" e saberia que ao voltar pra casa eu teria um resultado "xy".
Não foi assim. Vou reformular: Um dia qualquer, num vento qualquer, num orvalho que caiu qualquer, num toque qualquer, entre inúmeros "xy's", eu comprei um par de sapatos. Ele calçou meus pés com perfeição. Era tão macio por dentro que eu arriscaria escrever que senti o aveludado da grama coberta de orvalho bem por baixo dos meus pés.
Só tinha um problema: Eu tinha medo de usá-los.
Meu medo era de gastar a sola. Era de acabar, compreende? Se desmanchar todo ficando inteiro aos retalhos.
De acabar como todos que um dia calçaram esses pés.
Até perceber que há todo segundo tudo acaba. E se renova. E acaba pra se renovar.
Acabam as solas dos sapatos, o fumo fica no toco, a flor cai... Mas nasce! A gente sabe que nasce.
Quando nascer de novo, pode vir em outra tonalidade bem mais resistente às ameaças anteriores. É evoluir. Nós morremos para nascermos outros.
A sola então se afinou. E eu só sabia disso porque um dia o vento, como um maestro, guiou minhas vestes e fez do meu corpo um palco. Eu sabia que era dia de comprar novos sapatos.
Pois, perceba, nós acabamos todo dia. E por mais estranho que isso possa parecer, ainda bem.