quarta-feira, 2 de março de 2011

A caixa

E ao adentrar naquilo só trevas e desespero, lugar ruim aonde palavras assassinas perseguiam quem menos esperava, quem menos tinha uma parcela de culpa. Eu respirava fundo e erguia uma muralha a minha frente, nada me atingia... As palavras batiam e por vezes voltavam, em outras se destruíam ali mesmo.
Ao sair, encontrava outro lugar aonde diversas pessoas se preocupavam. Algumas sorriam, outras ficavam zangadas, tinha de todos os tipos. Engraçadas, românticas, egocêntricas, nervosas, criticas, amáveis... Creio que apenas não teria a devida paciência para aturá-las, afinal, agora eu era uma pessoa com diversos compromissos e responsabilidades, resolvia problemas de adultos e teria passado por aquele lugar ruim anteriormente, aonde me doeu. Foi então que percebi que poderia camuflar aquilo, ninguém precisava saber o que estava acontecendo e eu não queria que soubessem. Encontrei o sorriso pelo caminho e nele confiei.
Voltei ao lugar ruim, aonde chegou ao seu ápice. Lá existia um quarto não tão importante, mas lembranças eram guardadas com imenso carinho. As paredes desse quarto tinham gravuras de várias formas, de várias fases e momentos passados. Era como se cada gravura significasse um dia diferente e elas ao todo formavam uma vida, a minha vida. Foi então que me vi rasgando todas essas gravuras, tirando uma a uma, não porque queria e sim por necessidade. Eu teria que desocupar esse quarto, ele pertencia a outra pessoa agora. Sentia algo horroroso dentro de mim. Peguei todas as gravuras e coloquei dentro de uma caixa, estavam ali todas as lembranças.
Ao sair do quarto, vi que parte de mim estava lá dentro, uma grande parte. Peguei minha caixa e fechei a porta. Foi então que me deparei com outra porta a frente. Quando entrei, lá guardava parte das pessoas que me fizeram ter essas lembranças, pessoas em que eu confiava. Mas não poderia colocá-las em uma caixa. Várias caixas? Não, também não podia. Eu percebi que não conseguia e não podia tirá-las dali, teriam que ficar naquele lugar. Entrei em desespero e tentei de todas as formas puxá-las para serem levadas comigo, fracassei. Meu coração apertou, mas eu tinha que sair do lugar ruim, pois teria de acompanhar outra pessoa e também manter minha caixa em um lugar seguro.
Lágrimas desciam pela minha roupa, entravam no meio da minha blusa. Fechei outra porta.
Quando pude finalmente sair, olhei de longe aquele lugar e todas as lembranças que estavam na caixa subiram a minha cabeça, umas passaram rapidamente, outras lentas... Em outras eu fiz de tudo para nunca irem embora. Por fim, decidi voltar ao segundo quarto, entrei com medo e coloquei a minha caixa valiosa em frente a porta. Meu objetivo eram que as pessoas ficassem com que eu tinha de mais precioso, minha caixa, como um consolo pelo abandono.
Me virei e fui andando, em procura de outro quarto, de outras lembranças, outras mágoas, outros risos, outros sonhos... Outras coisas.